TERCEIRO SERÃO
D. Affonso VI de Leão.—O conde D. Henrique.—D. Thereza.—O conde de Trava.—Batalha de S. Mamede.—Egas Moniz.—Fundação da monarchia.—D. Affonso Henriques.—Os cruzados.—D. Sancho I.—D. Affonso II.—D. Sancho II.—D. Affonso III.
—Viram vocês, meus amigos, tornou o João de Agualva, no domingo immediato, que o Portugal de agora, ahi pelo anno mil, pouco mais ou menos estava, do Mondego para baixo, quasi todo em poder dos mouros, e do Mondego para cima distribuido em dois condados, um que se chamava de Portugal, que era como quem diz do Porto, e o outro que se chamava de Coimbra, e ambos estes condados faziam parte do reino de Leão, onde governava um rei de cabellinho na venta, chamado o sr. D. Affonso VI. Ora, como D. Affonso VI tinha sempre guerra com os mouros, e como n'esse tempo o grande pratinho para um principe ou para um fidalgo, era jogar as cristas com elles, tanto que os íam buscar[{26}] a casa de seiscentos diabos, só para lhes dar tapona, aconteceu que dois francezes, chamados um Henrique e outro Raymundo, ambos primos, e ambos da casa de Borgonha, em vez de ir á Palestina, vieram aqui a Hespanha, que lhes ficava mais ao pé da porta, pedir para dar tambem as suas garfadas nos de Mafoma. Não havia duvida, a mesa estava sempre posta e podiam servir-se á vontade. Deram bordoada de crear bicho, e o D. Affonso VI, que viu que eram uns valentões, e que lhe podiam prestar para muito, casou-os com duas filhas que tinha, uma legitima filha do matrimonio, e outra cousas e tal etc. A primeira chamava-se Urraca e foi para o Raymundo, a segunda chamava-se Tareja ou Thereza, e dizem até que era uma rapariga de truz, para o Henrique. Ora ao primeiro, como era casado com a legitima, deu elle o governo de toda a parte do reino, que ficava á borda do mar, desde os altos da Galliza até ás proximidades do Tejo, e a D. Henrique deu especialmente os condados de Portugal e de Coimbra, ficando sempre sujeito ao primo. Ha quem diga que Portugal veiu como dote de D. Tareja! Tó carocho! N'esse tempo nem os paes davam dotes ás filhas, os que queriam casar com ellas é que ainda davam alguma cousa.
—E acho isso muito bem entendido! exclamou vivamente o Zé Caneira, que tinha uma filha casadoira.[{27}]
—Pois sim! redarguiu sorrindo o João da Agualva. O que é certo é que a moda não pegou. D. Henrique, porém, ficou sendo vassallo de Affonso VI, e empenhou-se em alargar os seus dominios, dando pancadaria nos mouros. Muito cedo deixou de ser sujeito a seu primo, e teve a sua capital em Guimarães, que por isso se chama o berço da monarchia. Mas este D. Henrique parece que tinha bicho carpinteiro, foi á Palestina, como se não tivesse por cá mouros com fartura, e, quando o sogro morreu deixando o throno á cunhada D. Urraca, que já então era viuva, o bom do conde metteu-se em todos os barulhos que lá íam por Hespanha, para ver se apanhava mais alguma cousa para si. Qual carapuça! não apanhou nada, e ía perdendo muito, porque os mouros, que se viram á larga, começaram a fazer-se finos, e já subiam por ahi acima, como quem estava com desejo de se espreguiçar o seu pedaço nos montes verdes de Coimbra.
No meio d'esta azafama toda, morreu em 1114 o honrado conde deixando uma viuva muito frescalhota ainda, e um filho pequeno que teria os seus tres annos, e se chamava Affonso Henriques, que é o mesmo que se dissesse Affonso filho de Henrique, assim como Sanches queria dizer filho de Sancho, Fernandes filho de Fernando, e Martins filho de Martim.[{28}]
—Ora essa! exclamou um que até ahi estivera silencioso, aqui estou eu que me chamo Antonio Martins, e mais meu pae chamava-se José.
—Pois isto que eu digo, tornou João, era n'aquelle tempo, depois os nomes ficaram, mas já sem se lhes saber a significação, como acontece a muitas outras cousas.
A mãe de D. Affonso Henriques, que era uma mulher bonita e desembaraçada, continuou a andar por cercos e batalhas, sempre a ver se isto cá em Portugal ficava independente, e, emquanto ella assim procedeu, correu tudo bem; mas isto de mulheres sempre são mulheres—não se zangue, tia Margarida—e D. Thereza lá teve o seu fatacaz por um conde gallego, Fernão Peres de Trava, que d'ahi a pouco era quem punha e dispunha em Portugal. Não agradava isso muito aos nossos fidalgos, e menos ao rapazelho, que era levadinho da bréca, esperto como um alho, valente como seu pae, e que fôra de mais a mais educado por um fidalgo ás direitas, um tal Egas Moniz, portuguez dos quatro costados. Já se vê que o aio não lhe ensinou a revoltar-se contra sua mãe, e até devo dizer que são verdadeiras patranhas muitas das cousas que a esse respeito se contam. Por exemplo, diz-se que o rapazote andava ás bulhas com a mãe, e que o rei de Leão, D. Affonso VII, viera em soccorro da tia contra o primo. Peta! D. Affonso VII veiu a Portugal,[{29}] é verdade, mas foi para obrigar a infanta-rainha (assim lhe chamavam) e o filho e os fidalgos e todo o povo a reconhecer a sua suzerania. Apanhou o rapaz em Guimarães, cercou-o, e pôl-o deveras em talas. Egas Moniz foi ter com elle, e disse-lhe que se fosse embora e que lhe empenhava a sua palavra que a sua suzerania seria reconhecida. Affonso VII assim o fez, e partiu d'ali contra D. Thereza, que essa reconheceu-o immediatamente por seu senhor e suzerano. Mas D. Affonso Henriques, livre do primo, pediu á mãe que fizesse favor de lhe dar o governo a elle, que sempre era mais portuguez que o conde de Trava. Este disse á rainha que não tivesse cuidado, que elle iria dar uma duzia de palmatoadas no pequeno. Foram boas as palmatoadas! Em S. Mamede, ao pé de Guimarães, e no anno de 1128, o conde gallego levou uma esfrega, e teve de se pôr a andar, levando comsigo D. Thereza. De fórma que nem D. Affonso Henriques prendeu a mãe, nem fez cousa que se parecesse com isso. Quiz apenas governar, porque tinha o direito de o fazer, e porque os barões portuguezes estavam fartos de aturar o gallego. E a vassallagem que promettera a D. Affonso VII? Boa vae ella! Mesmo agora D. Affonso Henriques pozera fóra o gallego para se sujeitar ao de Leão! Nem se pensou em tal. Mas Egas Moniz tinha dado a sua palavra, e não queria que um patife de um estrangeiro dissesse que[{30}] havia portuguezes desleaes. Não contou nada ao seu querido discipulo, e foi até dos primeiros a aconselhar que se mantivesse a independencia, mas agarrou em si, na mulher e nos filhos, e foram todos de corda ao pescoço ter com o rei de Leão, e dizer-lhe: «Para resgatar a minha palavra, só tenho a minha cabeça e a dos meus! Ellas aqui estão!» O rei ficou assombrado d'este acto de lealdade e mandou-os embora com palavras de muito louvor.
—Homem! isso agora parece-me asneira! acudiu o Zé. Que diabo de culpa tinha elle que esse D. Affonso Henriques não fizesse o que promettera?