—Essa agora é mais fina, não fica nem uma coisa nem outra, o que fica é caldo.

—Ora pois ahi tens tu: a agua eram os lusitanos, os romanos foram o sal, e os visigodos a carne, e de tudo isso saíu uma cousa nova, um povo novo, este caldo que depois veio a chamar-se portuguez, que é no fundo lusitano, como o caldo é[{21}] agua, e a que Roma deu o sal que foi a idéa, e os visigodos a carne que foi a força.

Acharam graça á comparação os bons dos saloios e o João da Agualva proseguiu d'esta maneira:

—Mas as cousas não ficaram por aqui, porque no anno de 756 appareceu de repente em Hespanha gente nova. Eram os mouros. Esses, em vez de vir do norte, vinham do sul. Seguiam uma religião nova, a de Mafoma. Não eram uns selvagens, como tinham sido os visigodos. Traziam uma civilisação, e das mais apuradas. Por isso a lucta que se travou foi medonha: civilisação contra civilisação, Jesus contra Mafoma. Primeiro venceram os mouros. Na batalha do Guadalete foram os visigodos vencidos, e morto o seu rei Rodrigo. Em pouco tempo tinham os mouros tomado toda a Hespanha. A nossa terra lá foi tambem para elles. Só nos montes das Asturias, que são levados de quantos diabos ha, um punhado de visigodos continuou a resistir, commandados por um tal Pelayo, que foi o primeiro rei das Asturias. Metteram-se os mouros com elle, levaram para o seu tabaco. Deixaram-n'o lá estar no seu reino, que era como quem diz um ninho de aguia, encarapitado no cucuruto das montanhas, e c'o a breca, parece-me que uma aguia c'o as azas estendidas fazia-lhe sombra a elle todo. A pouco e pouco foi augmentando. Agora tomava-se[{22}] uma cidade, logo outra; a grão e grão, diz o proverbio, enche a gallinha o papo. D'ahi a duzentos annos já os visigodos tinham tirado aos mouros terras bastantes para formar não só um reino, mas uns poucos. A moda que havia de se dividir o reino pelos filhos de um rei que ía para o outro mundo, dava este resultado. Deixemos, porém, isso, e vamos a saber o que era feito de nós.

—Isso é que é, acudiu o Bartholomeu, os hespanhoes que tratem de si.

—Pois nós faziamos parte do reino que se chamou reino de Leão; quando digo nós, quero dizer de Coimbra para cima, porque, entre Coimbra e Lisboa, umas vezes era-se mouro e outras vezes christão, mas de Lisboa para baixo não havia duvida nenhuma, era tudo moirama.

—Mas então, vamos a saber, isto era já Portugal ou não era Portugal? perguntou o Zé Caneira.

—Ora com que tu vens! Sabes o que era Portugal? Era, para assim dizer, o Minho. Havia Portugal e havia o condado de Coimbra. Portugal chamava-se assim porque na foz do Douro havia uma terra que se chamava Cale, que depois se mudou em Gaya, e vae defronte mesmo á beira do rio, começou a levantar-se outra terra que se chamou Portus Cale ou Porto de Cale. Esta terra é o que se chama hoje simplesmente Porto, e o nome de Porto de Cale,[{23}] que se foi mudando em Portugal, dava-se a tudo o que ficava para o norte do Douro. E aqui está, meus amigos, como Portugal deve o seu nome ao Porto, exactamente como depois lhe veio a dever a liberdade.

—E então Coimbra já não era Portugal?

—Não, rapaz. Coimbra era outro condado, tambem christão, mas que tinha existencia sobre si. Ora o que lhes digo, meus amigos, é que a corneta do destacamento que chegou hoje está já a tocar a recolher, que são horas de se ir chegando cada um para suas casas, e que no proximo domingo continuaremos a nossa historia.[{24}]
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