—Qual caminho de ferro, bruto! Teu avô ainda nem sabia que vinha isso a ser, e já tu querias que o teu trigesimo ou quadragesimo avô andasse de wagon! Não senhor, eram estradas ordinarias, mas feitas com todo o cuidado e limpeza, e que, partindo de Roma, íam ter aos pontos mais distantes[{17}] do imperio! Lá que os taes romanos eram um grande povo, isso eram!

—Pois sim! mas regalaram-se de levar tapona cá na nossa terra, interrompeu o Bartholomeu.

—Quem vae á guerra dá e leva, respondeu o João da Agualva, e a final quem vence é quem mais sabe. Se os romanos venceram, não foi nem porque tinham mais força, nem porque eram mais valentes, foi porque sabiam mais. Tu verás ao depois. Olha que isto cá no mundo não se leva a poder de bordoada. Queres um exemplo? Ora ahi tens tu o mundo todo romano. O imperador está em Roma, e tudo governa. N'isto sáem da Judéa uns homens de bordão na mão, e de pés descalços, que começam a prégar por esse mundo, a dizer que Deus veiu á terra, que foi crucificado, que disse que todos os homens eram iguaes, senhores e escravos e grandes e pequenos, que a gente deve amar não só os seus amigos, mas tambem os seus inimigos, que ha mais alegria no céu pela volta de um peccador, que se arrepende, do que pela entrada de noventa e nove justos, e outras cousas assim que embasbacavam todos, e vae os imperadores romanos começaram a scismar que esta gente, que lhes fazia mal, que desorganisava tudo, e botam a chacinar n'esses sujeitos que se diziam christãos, e a queimal-os, e a deital-os ás feras, e a martyrisal-os, e quanto mais os desbastavam mais elles cresciam, e[{18}] tanto e tanto que lhes não digo nada. Ás duas por tres o mundo romano tinha sido conquistado, sem pau nem pedra, por esses soldados de Christo. Ora aqui tens tu como quem vence nem sempre é a força bruta.

—Essa agora é mais fina! accudiu o Manuel da Idanha. Esses, se venceram, é porque eram os santos apostolos, e porque prégavam a palavra de Deus.

—Pois assim é, Manuel, dizes tu muito bem, mas é que isto que se chama civilisação não é tambem senão a palavra de Deus. A civilisação é o que concorre para nos fazer melhores, mais dignos de ser homens. Umas vezes prégam-n'a os santos, outras vezes são os sabios, e ás vezes tambem são os soldados, porque Deus de todos os meios se serve para chegar aos seus fins. E é assim que o instrumento d'isto a que eu chamo civilisação umas vezes é o livro, outras vezes a cruz, e outras vezes a espada.

Os bons dos saloios ouviam boqui-abertos estas cousas todas, que só o Manuel da Idanha parecia perceber um bocadinho, por isso o João da Agualva, que não queria perder a attenção do auditorio, apressou-se a continuar:

—Isto quer dizer, meus amigos, que foi por este tempo que principiou a prégar-se no mundo a nossa santa religião, e foi cá a nossa terra uma das[{19}] primeiras que se converteram. Dizem até que veiu aqui o proprio apostolo S. Thiago, mas isso estou que são lérias; o que é certo, porém, é que ainda quasi não havia bispos por esse mundo de Christo, e já Braga era bispado, tanto assim que se chama ao arcebispo de Braga arcebispo primaz das Hespanhas, porque foi o primeiro que na Hespanha houve.

Mas, entretanto, meus amigos, grandes cousas se passavam pelo mundo. Fóra dos limites do imperio, do lado de lá do Rheno, do lado de lá do Danubio, havia povos que Roma não conseguira conquistar: gente selvagem como os luzitanos do tempo do Viriato; valentes como elles, e ao mesmo tempo gente inquieta que não parava n'um sitio e que não podia viver quasi senão de caça e de rapina. Tinham os romanos um trabalhão em os conter, mas, quando o imperio começou a fraquear, porque aquillo estava já sendo uma choldra, quando as legiões, que é como quem hoje diria as divisões e as brigadas, começaram cada uma a apregoar um imperador pela sua banda, desabam todos aquelles meus amigos sobre o imperio, e foi como quem diz uma verdadeira inundação. Ahi pelos annos quatrocentos e tantos caíram em cima de Hespanha, vindos das bandas dos Pyrenéus, nada menos de tres povos, os Alanos, os Suevos e os Vandalos. Nós, só á nossa parte, tivemos dois que tomaram conta de[{20}] tudo isto, que foram os suevos e os alanos. Mas aquillo! as florestas de alem do Danubio e do Rheno parece que se não fartavam de despejar povos que se empurravam uns aos outros. Atraz d'estes tres povos vieram os visigodos que expulsaram os outros e ficaram senhores da Hespanha toda. Mas agora ahi têem vocês como nem sempre quem vence é quem conquista. Julgam por acaso que se fallou na Hespanha o visigodo, e que as leis visigothicas é que governaram, e que a religião dos visigodos é que triumphou? Qual carapuça! os vencidos é que conquistaram os vencedores e deram-lhes a sua lingua, as suas leis e a sua religião. Porque? porque os mais civilisados eram os vencidos, e quem mais sabe é quem triumpha.

—Mas então, a final de contas, perguntou o Manuel da Idanha, sempre isto ficou sendo romano?

—Não, rapaz, não é assim. Ora dize-me uma cousa, quando tu deitas sal e carne para dentro de uma pouca de agua, o que é que fica? é agua, é carne ou é sal?