—É de saber que em Roma havia umas guerras civis, tal qual como nós tivemos cá por muito tempo em Portugal, assim umas cousas á moda da Maria da Fonte ou da guerra dos dois irmãos. Um fulano Sylla e um sicrano Mario andaram á pancadaria um com o outro, até que venceu um d'elles que foi Sylla. Era homem de cabellinho na venta este Sylla, e, apenas se viu no poleiro, começou a chacinar nos que eram do partido contrario, de fórma que parecia que não queria deixar vivo nem um só. Os amigos de Mario trataram de se escapulir, e um d'elles, homem desembaraçado, chamado Sertorio, safou-se cá para Hespanha, para os lados do Oriente. Ahi, n'um instante, revolucionou tudo, arranjou um exercito, mas os generaes de Sylla espatifaram-lh'o, e o amigo Sertorio tingou-se para a Africa. Souberam os lusitanos do caso, e disseram comsigo: «Este maganão é que nos faz conta.» Mettem-se uns poucos n'um barco, vão ali a Marrocos,[{13}] por onde o Sertorio andava aos paus; offerecem-lhe o vir commandal-os. Sertorio saltou logo para dentro do barco, e d'ahi a pouco estavam os lusitanos em campo com Sertorio á frente.
Este, porém, não era, como Viriato, um pastor de cabras, era homem civilisado, sabendo tudo o que se sabia no seu tempo, e que tratou de arranjar cá nas nossas terras uma especie de Roma. Pareceu-lhe que Evora servia para o caso, estabeleceu-se ali, e, como o tinham acompanhado muitos romanos, conseguiu perfeitamente o seu fim.
Que o Sertorio era uma grande cabeça, isso é que não tem duvida! Não só poz o sal na moleirinha dos seus patricios que se quizeram metter com elle, mas costumou os lusitanos a ser gente civilisada, e a imitar os romanos em tudo, de fórma que Viriato, se resuscitasse, não os reconhecia. E a final de contas, vejam como as cousas são! Este Sertorio deu lambada nos romanos por um sarilho! pois ninguem fez mais serviços a Roma do que elle! Introduziu aqui as artes, os usos e os costumes de Roma! de fórma que, depois, os nossos começaram a ter menos repugnancia aos estrangeiros, a confundir-se com elles. Isto de fallar a mesma lingua, de ter os mesmos habitos, sempre é uma grande cousa! Sertorio foi assassinado, assassinado tambem por um traidor, um patricio d'elle, um tal Perpenna! Pois senhores, quando morreu, já isto[{14}] por cá era tão romano como a propria Roma; de fórma que nunca mais houve revoltas, e os lusitanos como o resto dos habitantes de Hespanha, á excepção dos vasconsos que sempre foram mettidos comsigo, e nunca se deram com os visinhos, os lusitanos ficaram fazendo parte do grande imperio que vinha do Mar Negro ao Oceano Atlantico, e da bôca do Rheno até á foz do Guadalquivir, e ainda mais para baixo, do outro lado do estreito.
E com isto os não enfado mais, meus amigos, a Margarida já acabou a sua estriga, a luz do candieiro está assim a modo aos upas como quem se quer ir embora, e então domingo á noite continuaremos com esta conversa, visto que vocês parece que vão gostando.
—Ora se gostamos, sr. João de Agualva! bradaram todos em côro. Venha depressa o domingo para ouvirmos o resto.
E despedindo-se de Margarida, e de João, retiraram-se para as suas casas.[{15}]
SEGUNDO SERÃO
Cesar e os montanhezes do Herminio.—O imperio romano.—O christianismo.—Os barbaros.—Suevos, alanos e visigodos.—Os mouros.—O reino das Asturias.—O reino de Leão.—Portucale.—Os condados de Portugal e de Coimbra.
—Meus amigos, começou o João da Agualva, apenas todos fizeram roda no domingo immediato, e que a boa da tia Margarida, depois de carregar a sua roca, principiou a fazer girar o fuso nos seus dedos ageis, deixámos no outro dia os bons dos nossos lusitanos, depois da morte de Sertorio, costumados já á civilisação romana, e fallando o latim como se tivesse sido sempre a sua lingua, gostando de dar as suas passeatas até Roma, e provavelmente chamando barbaros aos que se lembravam com saudades dos tempos de Viriato. Nas serras continuavam a refilar o dente aos senhores do mundo, e o proprio Cesar, que veio a ser depois um grande homem,[{16}] estreiou-se nas guerras, tendo cá na Lusitania os seus dares e tomares com os montanhezes do Herminio, que vieram diante d'elle em rota batida até aqui ás proximidades de Peniche, pouco mais ou menos, e que, quando deram de cara com o mar, não estiveram lá com meias medidas, metteram-se n'umas jangadas, e foram merendar ás Berlengas, deitando a lingua de fóra ao sr. Cesar, que se foi embora de queixo caído. Mas isso eram barulhos lá de quando em quando. A verdade é que a Lusitania estava sendo devéras romana, e então, quando lá em Roma á republica succederam os imperadores, nem mais se pensou em independencias, nem meias independencias. As cidades com os nomes romanos ferviam por ahi, as estradas militares cortavam o paiz, e uma pessoa podia ir de Lisboa até Roma sem perguntar a ninguem. Hoje diz-se: quem tem bôca vae a Roma. Pois n'aquelle tempo, e com as estradas militares, bastava ter pés e olhos, ía-se lá direito como um fuso.
—Havia caminho de ferro? perguntou o Zé Caneira embasbacado.