Unanimidade da revolução.—Preparativos de resistencia.—Organisação militar do paiz.—As allianças.—Relações de Portugal com a Hollanda.—Restauração de Pernambuco e de Angola, e perda de Ceylão.—Conspirações contra D. João IV.—Guerra da Restauração.—Batalhas de Montijo e de Telena.—D. Affonso VI.—A sua educação e a sua indole.—Regencia da rainha D. Luiza.—Antonio Conti.—O conde de Castello Melhor.—Continuação da guerra.—Cerco de Badajoz.—Batalha das Linhas de Elvas.—Paz entre a Hespanha e a França.—Campanhas de D. João de Austria.—Schomberg.—Victorias do Ameixial, Castello Rodrigo e Montes Claros.—Planos do conde de Castello Melhor.—Intrigas do Paço.—Casamento, desthronamento e divorcio vergonhoso de D. Affonso VI.—Regencia do infante D. Pedro.—Casamento com a cunhada.—Tratado de Methwen.—Guerra da successão de Hespanha.—D. João V.—As minas do Brazil.—Desperdicios, beaterio e immoralidades.
—Meus amigos, principiou no outro domingo o João da Agualva, e já ninguem o interrompia, tal era o interesse com que todos seguiam a sua narrativa; o que succedeu na capital, succedeu no reino todo. Aquillo foi chegar a noticia do que se passava em Lisboa, e de um momento para o outro desappareciam os hespanhoes, e tornava tudo a ser Portugal. Poupámos-lhes muita despeza em correios, porque logo souberam pelo primeiro que Lisboa se tinha revoltado, que tinha vencido, que reinava em Portugal D. João IV, e que a Hespanha,[{122}] do Minho para baixo e do Caya para o occidente, já não possuia nem um palmo de terra. Querem vocês saber como o conde-duque de Olivares deu a noticia ao patrão? Foi d'esta maneira:—Dou os parabens a Vossa Magestade; acabam de lhe entrar uns poucos de milhões no bolso.—Como assim? perguntou o rei que estava a jogar, e que não desgostaria de que lhe saisse d'essa maneira a sorte grande de Hespanha.—Porque o duque de Bragança, tornou o ministro, acaba de se revoltar, e de se fazer rei de Portugal, e, como temos de lhe tirar os bens e de lhe cortar a cabeça, fica Vossa Magestade mais rico. O rei não gostou muito d'esse modo de enriquecer, e ainda olhou para os parceiros a ver se algum lhe dava quatro vintens pela herança. Nenhum caíu n'essa.
Isso era muito bom, mas Portugal é que não vivia de cantigas. A Hespanha era então ainda maior do que hoje é, e, se ella nos caísse em cima, estavamos promptos. De que precisavamos nós? De dinheiro, de soldados e de allianças. Tratou-se logo de tudo. Dinheiro votaram as côrtes quanto se quiz; para arranjar soldados fez-se uma obra fina que nunca ninguem até ahi tinha feito, e que foi pôr toda a gente em armas. E como? dividiu-se o reino em tres linhas; a primeira de soldados, que se chamavam pagos, a segunda de milicianos, e a terceira, que era a dos velhotes, de ordenanças. Uns íam[{123}] á guerra, os outros ajudavam-nos em sendo preciso, saíndo, o menos que podesse ser, dos seus sitios, e finalmente os ultimos defendiam as suas terras, porque isso, atraz de um muro, todos fazem figura. Digo-lhes, rapazes, que aquillo é que foi uma idéa, e olhem que não nos serviu só então, tambem na guerra da peninsula foi o que nos valeu, e, aqui para nós, não me parece que fizessem muito bem em deitar abaixo aquella historia. Estava já tudo costumado, e quando vinha uma guerra, saltava toda a gente para o meio da rua; e olhem que isto de estar um homem dentro de casa, de espingarda na mão, dá que fazer aos mais pintados. E logo se viu.
Emquanto a allianças tambem não faltaram; é verdade que não serviram de muito, porque cada um cuidava de si. A França, prompta, o que ella queria era abaixar a prôa á Hespanha, mas, como tambem lá andava em guerra com os hespanhoes, o mais que fez foi consentir que arranjassemos officiaes francezes pelo nosso dinheiro; a Inglaterra, a mesma cousa, muita festa para a festa, mas andava embrulhada em guerras civís, não mandou para cá nem um navio. Então a Hollanda ainda foi peor, isso... recebeu o nosso embaixador de braços abertos, poz luminarias, achou que tinhamos feito muito bem, mas, quando o embaixador lhe disse: «Então agora que estamos amigos, venham para cá as[{124}] nossas colonias, que são nossas e não dos hespanhoes», a Hollanda exclamou: «As colonias! ah! sim! nós somos tão amigos d'ellas! Estão já acostumadas comnosco! até tinhamos pena de as deixar». E acrescentava o embaixador: «Mas então, c'os diabos, ao menos não nos tomem mais nenhuma».—«Não tomamos, dizia a Hollanda, isso nunca. Ora agora sabem vocês? as colonias são como as cerejas. O caso é apanhar uma». Ah! elle é isso! disseram os portuguezes comsigo, pois então vamos a ellas. E, zás, rebenta uma revolta em Pernambuco, e os brazileiros a berrarem: Viva D. João IV! A Hollanda chamou o nosso embaixador: «Então que diabo é isso? nós somos amigos e fazem-nos uma partida d'estas!»—«Patifes! dizia o embaixador. Aquillo é do sol! esquenta-lhes a cabeça, e dão por paus e por pedras. Mas, aqui para nós, se elles dizem: Viva D. João IV, não havemos de lhes ir dizer: Morra D. João IV! Não nos ficava bem.»—«Pois sim, mas digam-lhes que estejam quietos.»—«Pois isso dizemos nós.» E D. João IV mandava para lá armas e officiaes, e dizia-lhes: «Ahi vae isso, que é para vocês estarem quietos.» E em poucos annos estavamos senhores de Pernambuco, e os hollandezes na rua.
D'ahi a tempos, Salvador Correia de Sá ía a Angola e punha fóra os hollandezes que nos tinham tomado esse reino.—«Então isto que vem a ser?[{125}] bradaram os hollandezes, então os senhores vão de proposito do Brazil a Angola para nos sacudir!»—«Quem é que fez isso?» perguntava o embaixador.—«Salvador Correia de Sá.»—«Sim! pois estejam vocês descançados, que lhe vamos já perguntar pelo correio, que diabo de lembrança foi essa. Em vindo resposta cá lh'a mandamos. E a proposito, sr.ª Hollanda, vocês tomaram-nos Ceylão?»—«Tomámos Ceylão, mas que defeza! Antonio de Sousa Coutinho defendeu-se maravilhosamente. Os nossos generaes são todos accordes que nunca encontraram resistencia tão desesperada! Quando escreverem para lá, mandem os nossos parabens ao sr. Antonio de Sousa Coutinho e recommendações aos amigos.»
E era assim que nós estávamos com a Hollanda: abraços na Europa e lambada lá por fóra.
Houve só duas côrtes que não quizeram nunca reconhecer a independencia de Portugal; uma foi a côrte de Roma que estava toda nas mãos dos hespanhoes, e a outra a da Allemanha, cujo imperador era da mesma familia que a do rei Filippe. E fizeram-nos transtorno: a primeira porque estávamos assim a modo excommungados, a segunda por uma patifaria que praticou o imperador, mandando prender sem mais nem menos o principe D. Duarte de Bragança, irmão de D. João IV, que andava por lá na guerra contra os turcos, e que tanta conta nos[{126}] faria em Portugal. Morreu na cadeia o pobre rapaz por causa de nós e da traição do tal imperador.
Em Portugal, ao principio, tinha ido tudo bem, mas, assim que passou aquelle primeiro fogo, houve muitos que começaram a pensar no caso e que disseram comsigo: «Isto foi uma grande asneira. Vem ahi os hespanhoes e dão cabo de todos nós. O melhor é pormos as costas no seguro, e, antes que elles venham ter comnosco, vamos nós ao encontro d'elles, que sempre apanharemos alguma cousa.» E n'isto desatam a conspirar contra D. João IV. Foram castigados cruelmente. Morreram muitos com a cabeça cortada, e mais nem todos eram culpados. Mas que querem vocês? A mania de D. João IV era que o não tomariam a sério como rei em Madrid, emquanto não mandasse cortar a cabeça a alguem.
Pois em primeiro logar visse bem a quem matava, e em segundo logar eu sempre ouvi que os reis, quando são mais reis, é quando perdôam. E, alem d'isso, os hespanhoes quando tomaram a sério D. João IV não foi quando elle mandou cortar a cabeça a fidalgos portuguezes, mas quando os soldados portuguezes lhes começaram a esfregar as costas a elles.
Lá que os taes conspiradores tinham rasão em estar com medo, isso tinham, porque parecia mesmo[{127}] impossivel que Portugal resistisse. Tambem o que nos valeu foi a asneira dos hespanhoes, que nos primeiros dois annos não fizeram senão dar um rebate falso a uma praça, atacar outra, escaramuçar aqui, disparar uns tiros alem. Parecia que estavam incumbidos por D. João IV de fazer andar os nossos soldados na recruta. Em 1644 é que, pela primeira vez, fizeram assim movimento mais serio, mas já tinhamos então soldados velhos, commandados por um bom general, Mathias de Albuquerque, e os amigos hespanhoes levaram a primeira sova mesmo lá na sua terra, em Montijo; em 1646 nova batalha em Telena, mas n'essa perdemos nós mais do que lucrámos, ainda que os hespanhoes com isso nada ganharam tambem, porque voltaram á costumeira antiga. Emfim, para encurtar rasões, quando D. João IV morreu, em 1656, estavamos havia dezeseis annos n'aquella brincadeira, hoje íamos nós á Hespanha e apanhavamos gado, ámanhã vinham elles cá e levavam-nos o nosso. Mas quem lucrava com isso? Éramos nós, porque os nossos milicianos, e as nossas ordenanças íam-se costumando á guerra, e cada vez este bocadinho de Portugal se ía tornando para a Hespanha mais duro de roer.