Em 1656 morreu pois D. João IV, como eu lhes disse, e succedeu-lhe seu filho D. Affonso VI, a quem chamaram o Victorioso, como chamaram a D.[{128}] João IV o Restaurador, mas emfim a este com mais um bocadinho de rasão.
D. Affonso VI não era o filho mais velho, mas o mais velho, um rapazito que dava esperanças, Theodosio, morrera em 1653. D. Affonso VI fôra desde creança muito doente, nunca podéra aprender cousa nenhuma e tivera uma educação muito descuidada. O seu gosto era brincar com os garotos que íam para debaixo das janellas do paço, e, quando foi homem, andava em pandigas pela cidade, com uma roda de facinoras que faziam tudo o que queriam á sombra d'elle, a ponto que até havia mortes nas ruas de Lisboa! Como ainda era pequeno quando seu pae morreu, ficou regendo o reino sua mãe D. Luiza de Gusmão, uma hespanhola muito decidida, que diziam até que fôra quem mais concorrera para o marido acceitar a corôa. A regente lá foi governando com acerto, emquanto o rapazote andava ao laré com um tal Antonio Conti, que lhe soubera conquistar a amisade. A rainha um dia pegou n'esse Antonio Conti, e ferrou com elle desterrado no Brazil. Ó diabo que tal fizeste! o pequeno zanga-se, e, quando o conde de Castello Melhor lhe disse que era bom que começasse a governar por si, porque tinha já chegado á maioridade, D. Affonso, para pregar pirraça á mãe, acceitou; eu não louvo o conde de Castello Melhor por ter aconselhado esta acção, mas a verdade é que D. Affonso[{129}] VI já estava em idade de governar, e que, se não podia dirigir os negocios, sempre era melhor que por elle os dirigisse um homem como o conde de Castello Melhor, que tinha uma excellente cachimonia, do que a rainha, que, apezar de ser esperta, sempre era senhora, e por isso menos capaz de governar o reino em tempo de guerra.
Bem conheço que D. Affonso VI era um mau rei, que não tinha juizo, que se entregava a divertimentos indecentes e até criminosos, mas uma qualidade tinha elle, percebia perfeitamente que não sabia cuidar do reino, e deixava o Castello Melhor fazer tudo quanto queria. Ora o Castello Melhor era uma das melhores cabeças que têem governado o nosso paiz, como vocês vão ver, porque é bom que saibam o que se passára na guerra.
Logo depois da morte de D. João IV, um general portuguez, João Mendes de Vasconcellos, fizera grande asneira. Vendo que os hespanhoes andavam só a fazer fosquinhas, disse comsigo: Não nos hão de conquistar, e havemos de ser nós que os conquistaremos a elles. Junta um exercito magnifico, e vae cercar Badajoz. Ainda ali ganhámos uma batalha, que foi a do Forte de S. Miguel, mas a final tivemos de levantar o cerco, depois de havermos perdido inutilmente a flor dos nossos soldados. Ora o que succedeu? Foi que, no anno seguinte, quer dizer em 1659, os hespanhoes, picados[{130}] com o nosso atrevimento, saíram da sua pachorra, juntaram um exercito formidavel commandado pelo proprio ministro do rei, D. Luiz de Haro, vieram sobre Portugal e cercaram Elvas. A cousa esteve phosphorica, porque os nossos melhores soldados tinham ficado estendidos diante de Badajoz, e andava isto por cá muito desarranjado. Mas para alguma cousa haviam de servir os dezenove annos de guerra. Em primeiro logar Elvas, governada por D. Sancho Manuel que foi depois conde de Villa Flor, defendeu-se admiravelmente, em segundo logar o conde de Cantanhede, depois marquez de Marialva, como não tinha outra gente, reuniu um exercito quasi todo de milicianos e saltou nos hespanhoes que cercavam Elvas. Foi no dia 14 de janeiro de 1659 que se deu a batalha, conhecida pelo nome de batalha das linhas de Elvas, e nunca os hespanhoes apanharam tamanha pilota. Os prisioneiros foram aos milhares, artilheria, bagagens, tudo nos caío nas mãos, e o proprio D. Luiz de Haro escapou-se por um fio. Tambem nunca mais nos perdoou aquella sova, e, quando n'esse mesmo anno foi fazer a paz com a França, deu aos francezes tudo quanto elles quizeram, só com uma condição—a de se não fallar em Portugal. Era patifaria graúda do ministro francez, um padre, um tal cardeal Mazarino, porque as tareias que davamos nos hespanhoes tinham feito muita conta aos francezes.[{131}] Mas o Mazarino foi apanhando o que poude, e pouco lhe importou mandar-nos á fava.
Vêem vocês a situação em que ficámos. Quando começámos a guerra com a Hespanha, estava ella em guerra tambem com quasi toda a Europa, o que não era mau para nós. Em 1648 fez a paz com muitas nações, e isso não foi lá muito bom, porém, como a França continuava em guerra, e essa só por si dava mais que fazer á Hespanha do que todas as outras juntas, ainda a cousa não ía mal; mas agora? A França fazia a paz, quasi que se alliava com os hespanhoes, porque o rei de França, Luiz XIV, casava com uma princeza hespanhola, e nós é que ficavamos em campo, com a Hespanha ás costas. Ella ainda esteve dois annos a apalpar-nos, mas em 1662 rompeu o fogo com alma. Poz um dos seus melhores generaes, D. João de Austria, filho bastardo do rei, á frente dos seus exercitos, e caíu em cima de nós com todo o seu peso.
Ora foi exactamente em 1662 que entrou no poder o conde de Castello Melhor, e foi sobre elle que desabou esse temporal desfeito. Nunca Portugal se vira em tão maus lençoes. D. João de Austria tomava praças sobre praças, e na campanha do anno immediato, 1663, quasi que chegava ás portas de Lisboa. Mas o ministro fizera o diabo, parece que até das pedras tinha feito soldados. Depois, como Mazarino era um finorio, que não desgostava[{132}] de jogar com pau de dois bicos, ao passo que contentava a Hespanha, mandava-nos para cá os officiaes que podia, entre elles o conde de Schomberg, que era um general de mão cheia. Não commandou nunca em chefe, porque os nossos não gostavam, e tinham rasão, que elles já haviam dado provas de que não precisavam de tutores; mas foi um excellente conselheiro. O que é certo, meus amigos, é que, em tres annos successivos, em que os hespanhoes fizeram todos os esforços para dar cabo de nós, levaram tres sovas mestras; a primeira deu-lh'a em 1663 o conde de Villa Flor na batalha do Ameixial, a segunda em 1664 Pedro Jacques de Magalhães na batalha de Castello Rodrigo, a terceira em 1665 na batalha de Montes Claros o marquez de Marialva. D'ahi por diante nunca os hespanhoes levantaram cabeça, e não pensaram mais em tomar conta outra vez de Portugal.
Ora o conde de Castello Melhor tinha uma grande idéa; dizia elle comsigo: os hespanhoes levaram tanta pancadaria, que, se fazemos a paz com elles, ficando nós simplesmente com o que tinhamos ao principio, póde-se dizer que fomos logrados. Demais a mais Portugal é pequeno, a Hespanha é grande; em qualquer bulha que tivermos estamos de mau partido. É necessario fazer Portugal maior e a Hespanha mais pequena. E toda a sua tineta era obrigar os hespanhoes a dar-nos a Galliza. E o[{133}] que fazia elle então? Encostava-se a Luiz XIV, rei de França, que andava namorando umas provincias hespanholas lá de Flandres. Casava D. Affonso VI com uma princeza franceza, e dizia comsigo: Mais dia menos dia, Luiz XIV pega-se com a Hespanha. Nós vamos com elle. A Hespanha leva para o seu tabaco a valer. Elle fica com as provincias que quizer, até com a Flandres toda, se isso lhe fizer conta, e nós com a Galliza, e com mais alguma cousa se podér ser.
—E era bem pensado, sr. João da Agualva, observou o Bartholomeu, porque é que não havia de ser nossa a Galliza?
—Tens rasão, e já vês que, se nós tivessemos a Galliza tambem, não estavamos sempre com medo de ser engulidos pelos visinhos. Mas que queres tu? Entretanto íam grandes intrigas no paço. A rainha, que era uma princeza toda liró e toda costumada ás janotices da côrte de Luiz XIV, achando-se casada com um homem que só se dava bem com moços de cavallariça, e que de mais a mais era tão doente que nem marido podia ser, principiou a desgostar-se, e ao mesmo tempo a agradar-se do infante D. Pedro, rapaz desempennado, que tambem não desgostava da francezita. Pensaram em se juntar e governar o paiz. Principiaram as intrigas. Tanto fizeram que conseguiram pôr fóra o conde de Castello Melhor. Desamparado, o pobre D. Affonso VI não[{134}] tardou a ser expulso do throno, e até o descasaram, coitado! Foi necessario para isso um processo que é uma vergonha, e realmente não posso perceber como foi que uma rainha se deixou assim andar nas bôcas do mundo!... Emfim, o que é certo é que desterraram o pobre D. Affonso VI, mandando-o para a ilha Terceira; prenderam-n'o depois em Cintra, onde morreu, e a rainha casou com o cunhado, e este ficou a governar o reino. Eu já lhes disse, rapazes, que bem conheço os defeitos de D. Affonso VI; mas o pobre homem, que era mesmo uma creança, que se não importava para nada com a politica, que tivera a fortuna de acertar com um bom ministro que governava por elle e governava bem, não merecia que lhe fizessem similhante entrega! Mette dó, porque elle nem sabia defender-se, andava ali como o menino nas mãos das bruxas.
E o irmão, que lhe tirára a corôa, e que lhe tirára a mulher, nem ao menos lhe dava a sua liberdade, nem lhe consentia que espairecesse. Tinha-o preso n'um quarto em Cintra, e ali o deixou morrer de aborrecimento e de desgosto, a elle que nunca fizera mal a ninguem senão com as suas tolas rapaziadas!