Emfim, passemos adiante! O que é certo é que isto succedeu em 1667, e logo no anno seguinte de 1668 fazia-se a paz com a Hespanha, sem lucro nenhum para nós, porque nem ao menos apanhavamos[{135}] a praça africana de Ceuta, que era tão nossa, por causa da qual morreu no captiveiro o infante santo, e que em 1640 não conseguira livrar-se dos hespanhoes.
Tanto se empenhára em governar o reino o sr. D. Pedro II, que desde 1667 até 1683, anno em que morreu D. Affonso VI, só tomou o titulo de regente, e a final de contas não fez senão tolices. Demais a mais algumas cousas boas que deixou fazer, logo as desmanchou. Um ministro que elle teve, o conde da Ericeira, quiz ver se fundava fabricas em Portugal, mas em 1703 um tratado com a Inglaterra, conhecido pelo nome de tratado de Methwen, que este era o nome do embaixador que o assignou, deu cabo da nossa industria. Conservou-se em paz, tanto que lhe deram o nome de Pacifico, e vae no fim do seu reinado mette-se sem mais nem menos na guerra da successão de Hespanha, favorecendo D. Carlos da casa de Austria contra D. Filippe da casa de Bourbon. Como tinhamos então um excellente general, que era o marquez das Minas, deu-nos este o gostinho de entrar victorioso em Madrid, e de proclamar ali D. Carlos rei de Hespanha; mas esse gostinho não tardámos a amargal-o, porque, morrendo D. Pedro II no dia 1 de dezembro de 1706, logo no dia 25 de abril de 1707 era o marquez das Minas batido na batalha de Almanza com graves perdas para nós, tanto que até ao fim da guerra[{136}] póde-se dizer que nunca mais levantámos cabeça.
Subio ao throno D. João V, e eu, para lhes dizer a verdade, o que não posso perceber é como ha historiadores que gabam aquelle rei. Cá para mim foi um dos peores que nós tivemos. Possuia algumas qualidades que não eram de todo más, era porém o mesmo que se as não tivesse, porque não pensava senão no beaterio, e em obras grandes e magnificas, que a maior parte das vezes para nada serviam. Logo por desgraça foi n'esse reinado que começaram a render rios e rios de dinheiro as minas do Brazil, e tudo era pouco para o rei que não cuidava senão de si e nada do reino. Por exemplo, achou-se embrulhado com a Hespanha e com a França n'uma guerra que no seu tempo não foi senão desastrosa. Uns corsarios francezes deram-nos cabo do Rio de Janeiro e levaram-nos umas riquezas espantosas. Pois não encontrou aquelle homem uns poucos de navios para saltarem tambem nas colonias francezas, ou para protegerem as nossas! Emfim! se os não tinhamos, paciencia! Mas d'ahi a pouco saíu de Lisboa uma excellente esquadra em soccorro do papa, commandada pelo conde do Rio Grande, esquadra que foi bater os turcos no cabo Matapan! Ora vejam se ha um patarata assim! Annos depois, por causa de uns insultos feitos em Madrid ao nosso embaixador, está para rebentar a guerra com a[{137}] Hespanha. Fazem-se preparativos, e vê-se que não temos nem exercito, nem marinha. De que tratou logo D. João V? De comprar armamento? Qual historia! De mandar fazer em Paris, para si, uma barraca de campanha muito rica, e tão luxuosa que toda a gente a ía ver!!
Não tinhamos estradas, não tinhamos rios canalisados, não tinhamos desentulhados os portos, não tinhamos nada do que nos era necessario, mas tinhamos aquella monstruosidade do convento de Mafra que custou 120 milhões de cruzados, que não serve para cousa nenhuma, e que nem ao menos é bonito. Dizem que gostava muito de imitar Luiz XIV, mas o que me dizia o engenheiro francez que esteve aqui em Bellas, é que Luiz XIV mandava ir sabios para França, dava pensões aos sabios estrangeiros, e este o que dava era dinheiro para igrejas, e o que mandava vir era de Roma bullas e capellas. Dizem que nunca deixou ás nações estrangeiras pôr pé em ramo verde comnosco. Quem lhe valeu para isso foram os diplomatas que teve, que nunca em Portugal os houve tão bons, e tambem o ser tão orgulhoso que ía aos ares só com a idéa de que mangavam com elle.
Mas no mais não me fallem em D. João V, que até me sobe o sangue á cabeça. Pois vocês conhecem cousa que mais indigne do que ir um homem ali para Lisboa, no campo da Lã, ver os inquisidores[{138}] queimarem gente de bem, ou porque não gostavam de toucinho, ou porque nem sempre íam á missa, e depois montar a cavallo, para se metter em Odivellas na cella de uma freira e passar ali a noite? Eu digo que me chega a parecer nem sei o que uma malvadez assim.
Morreu em 1750 esse rei que não fez nada bom em Portugal, a não ser as Aguas-Livres. Pouco mais dinheiro gastou que se podesse dizer que fosse bem gasto. E digo-lhes que, se vocês olharem para o paiz, até lhes ha de fazer pena. A nobreza já não se compunha senão simplesmente de criados do paço, o clero immenso e corrompido enchia o reino com os seus padres e os seus conventos, e conservava o povo n'uma ignorancia completa, o povo, miseravel, vadio, ou emigrava para o Brazil, ou pedia esmola ás portarias dos conventos, ou sentava-se ao sol. Tinhamos chegado ao mais baixo a que podiamos chegar. Felizmente, quando uma nação desce a tal ponto, sempre apparece alguem que a levante e esse, eu, para o outro domingo, lhes direi quem foi. Por hoje basta. Quando fallo no sr. D. João V, o Magnifico, e penso no mal que elle fez ao paiz, fico sempre macambusio, e então o melhor é ir-me deitar.[{139}]
NONO SERÃO
D. José I.—As transformações sociaes.—O marquez de Pombal e a revolução.—Terramoto de 1 de novembro de 1755.—As grandes reformas de Sebastião de Carvalho.—Expulsão dos jesuitas.—Reforma da universidade.—Reorganisação do exercito.—Agricultura.—Industria.—Inquisição.—Christãos novos e christãos velhos.—Politica estrangeira.—Energia com Roma e com Inglaterra.—Reconstrucção de Lisboa.—Estatua de D. José.—Attentado contra o rei.—Supplicio dos Tavoras.—D. Maria I.—Reacção contra as medidas do marquez de Pombal.—Processo do grande ministro.—Pina Manique, Francisco de Almada.—Martinho de Mello.—Loucura da rainha.—Regencia do principe D. João.—A republica franceza.—Campanha do Roussillon.—Campanha de 1801.—Napoleão e o tratado de Fontainebleau.—Fuga da familia real para o Brazil.—Guerra peninsular.—Congresso de Vienna.—D. João VI.—Conspiração de 1817.—Revolta de Pernambuco.—Revolução de 1820.
Hão de vocês notar, rapazes, observou o João da Agualva mal todos se sentaram no domingo seguinte em torno da lareira, que, em estando para haver uma grande mudança na sorte dos homens, parece que todos, sem o querer e sem o saber, trabalham para essa mudança, desejando fazer muitas vezes exactamente o contrario. Por exemplo, lembram-se vocês que ali por 1500 é que os reis se fizeram senhores absolutos, porque acabaram com os privilegios da nobreza, e com os foraes do povo. Quem[{140}] é que contribuiu para isso? O povo, que ajudou o rei a dar cabo dos nobres. Agora encaminha-se tudo para a liberdade e para a igualdade, e quem é que no nosso paiz vae concorrer mais para similhante cousa? O marquez de Pombal. Dir-me-hão vocês: Então o marquez de Pombal era algum liberalão por ahi alem como os de vinte? Qual historia! Era um tyranno e dos mais ferozes que nunca houve, mas, sem o querer e sem o saber, ninguem mais do que elle trabalhou pela liberdade.
Em primeiro logar hão de vocês saber que o rei D. José, que subiu ao throno por morte de seu pae D. João V, quasi que nem conhecia o marquez de Pombal, que já era homem dos seus cincoenta annos, e que tinha andado por fóra como embaixador, ora em Londres, ora em Vienna de Austria, onde casára com a filha de um figurão austriaco. Quem metteu empenhos para que elle fosse ministro foi a mãe de D. José, D. Marianna se chamava ella, archiduqueza de Austria, e por isso amiga da mulher do marquez, que então se chamava simplesmente Sebastião José de Carvalho e Mello. Era um ministro como os outros, e o rei não fazia mais caso d'elle do que fazia dos seus collegas, quando de repente acontece uma grande desgraça em Lisboa, que veio a ser o terramoto do dia 1 de novembro de 1755. A cidade foi quasi toda a terra, morreram muitas mil pessoas, outras ficaram a pedir esmola,[{141}] e sobretudo reinava um terror tamanho que ninguem sabia o que havia de fazer nem para onde se havia de virar. O Sebastião de Carvalho não perdeu a tramontana. Toma elle a direcção de tudo, arranja sustento, enforca ás portas da cidade quantos ladrões apanha, porque isso então era uma praga, trata do desentulho, e logo em seguida de reconstruir a cidade, isto com uma actividade, com um desembaraço, com um acerto, que D. José disse comsigo: Temos homem! D'ahi por diante quem governou foi elle, e é de uma pessoa pasmar ver o que fez. Até ahi os governos, para fallar a verdade, em quem menos pensavam era no povo e no paiz. O dinheiro do estado não servia senão para elles fazerem o que lhes agradava, e por felizes se podiam dar os povos quando lhes dava o capricho para cousas uteis. Sebastião José de Carvalho e Mello tratou do paiz e mais nada. Ora de que é que o paiz precisava?