Precisava, primeiro que tudo, de acabar com as despezas no gosto das que fazia el-rei D. João V, que era umas mãos rotas com fidalgos e com igrejas.

Precisava de poder pensar e estudar, sem ser sempre debaixo da palmatoria dos frades e dos jesuitas.

Precisava de acabar com a inquisição, porque era uma vergonha que ainda se queimasse gente em Portugal só porque não ía á missa.[{142}]

Precisava de ter exercito e de ter marinha.

Precisava de ter industria.

Precisava de ter lavoura.

E nada d'isto elle tinha.

Sebastião de Carvalho via estas cousas e disse comsigo: Mãos á obra. Ora digam-me vocês: Quando chegam a uma quintarola que compraram e vêem tudo estragado: os pardaes a darem cabo da fructa, as cearas a morrerem á sede, a terra fraca por falta de estrume, as hervas ruins a afogarem o trigo, o que é que fazem? Arregaçam as mangas e dizem: Vamos a isto. E sacham as hervas, sem dó nem piedade, e saltam ao tiro nos pardaes até os pôrem fóra, e deitam estrume na terra, e levam a agua da rega para as cearas, e levantam os muros arrasados, e enxotam os porcos que lhes vinham fossar nas batatas, e sacodem as gallinhas que lhes depinicavam tudo, e até vocês se riam se os accusassem de crueldade porque matavam os pardaes, ou porque arrancavam e deitavam fóra as hervas ruins.

Pois Sebastião José de Carvalho e Mello tratou Portugal exactamente como vocês tratariam a tal quintarola. Olhou para tudo e disse comsigo: Eh! com os diabos, como isto está. No paço ha um bando de pardaes que dá cabo da melhor fructa dos pomares da nação. Toca a enxotar os pardaes, e, como os pardaes refilaram, saltou ao tiro n'elles. As cearas[{143}] da intelligencia, que tambem são trigo porque dão o pão do espirito, não podiam medrar porque os affogava por toda a parte o joio do jesuitismo. Toca a sachar os jesuitas. Os muros da quinta estavam arrasados, quer dizer, estavam as fronteiras a descoberto, e em vez de haver fortes o que havia era igrejas, e elle mandou fazer o forte da Graça em Elvas, e poz o exercito a direito, mandando vir para isso um militar estrangeiro, o principe de Lippe, que era da escola de um rei da Prussia que foi o primeiro militar do seu tempo. Não havia lavoura nem havia industria, porque ninguem lhe dava a protecção da rega e do adubo, e Pombal deu-lhe tudo isso á moda do seu tempo, que elle tambem não podia adivinhar o que hoje se sabe. Elle reformou os estudos e a universidade, elle fundou companhias e fabricas, elle partiu os dentes á inquisição, elle poz fóra os jesuitas, elle tirou a censura dos livros aos padres, elle acabou com distincções de christãos-novos e christãos-velhos, e na India e no Brazil acabou tambem com todas as tolices das raças, elle arreganhou os dentes a Roma, e soube pôr o papa no seu logar, elle bateu o pé á Hespanha, elle fez-se respeitar da Inglaterra, elle acabou com os morgados pequenos que só faziam mal á lavoura, elle não deixou que entrassem para padres e frades todos quantos o queriam ser, porque, se as cousas continuassem assim, ás duas por tres não[{144}] havia senão cabeças rapadas em Portugal, emfim, meus amigos, é de uma pessoa pasmar ver que aquelle diabo de homem, que ao mesmo tempo fazia de Lisboa uma cidade nova e levantava uma estatua ao seu rei no Terreiro do Paço, em tudo poz a mão, tudo melhorou, tudo reformou, tudo arranjou, e póde-se dizer que virou a nação de dentro para fóra. Já se vê que fez tudo isto com o «posso, quero e mando.» Mas a quem é que prestou verdadeiros serviços? Foi á liberdade, porque tirou o povo da miseria e da ignorancia em que vivia, porque o livrou de ter os jesuitas por tutores, e assim o animou a cuidar dos seus direitos, e o preparou para um bello dia reclamar a liberdade. Foi cruel, bem sei, não digo menos d'isso. Tratou os homens como se fossem pardaes, e praticou mesmo barbaridades escusadas; mas que diabo! não sei que sina é esta: reforma graúda sem muito sangue parece que não ha modo de se fazer; uma vez são os reformadores que derramam o seu proprio sangue, e então é que a reforma vem de Deus, como acontece com o christianismo; outras vezes os reformadores derramam o sangue dos outros, e então é que a reforma vem dos homens, como aconteceu com a revolução franceza; porque lá isso de regar as arvores do bem com o sangue das nossas proprias veias, Deus é que o ensina, que os homens só por si não são capazes de chegar a tanto.[{145}]

—Ó sr. João, exclamou o Bartholomeu, mas parece-me que tenho ouvido dizer que os Tavoras, o duque de Aveiro e os mais fidalgos soffreram tormentos do diabo ali na praça de Belem. Ora, ainda que fosse necessario dar cabo d'elles, acho que não era preciso atormental-os, e que o marquez de Pombal tinha na verdade cabellos no coração.