—Não digo menos d'isso, Bartholomeu, mas ouve lá uma cousa: tu sabes porque é que os fidalgos foram executados, não sabes? Foi por darem uns tiros no rei. Elles queriam livrar-se do ministro, o rei não largava o ministro, cada vez se lhe agarrava mais, como depois mostrou, fazendo-o conde de Oeiras e marquez de Pombal, e então lembraram-se de dar cabo de D. José. Ora sabes tu como fôra castigado em França, pouco tempo antes, um homem que tinha querido matar o rei Luiz XV? Foi posto a tormentos, depois nas feridas abertas deitaram-lhe chumbo a ferver, e a final ataram-n'o aos rabos de quatro cavallos, e esquartejaram-n'o. E comtudo ninguem diz que Luiz XV tivesse cabellos no coração. As cousas faziam-se assim no seu tempo, não foi o marquez de Pombal que as inventou.
Hão de vocês dizer: Este diabo gaba sempre as tyrannias por toda a parte. Já defendeu D. João II, agora defende o marquez de Pombal. Eu não as louvo, rapazes. Se vivesse n'esses tempos e podesse, havia de berrar contra ellas; mas cá de longe, vendo[{146}] as cousas com socego, digo que ninguem é perfeito, e que todos os homens têem, como dizia o tal engenheiro francez que esteve em Bellas, os defeitos das suas qualidades. Ali está o Francisco Artilheiro que foi soldado: havia de ter servido com muitos coroneis. Encontrou algum que fosse teso a valer e que ao mesmo tempo desatasse a chorar, no tempo das varadas, quando tinha de mandar chibatar algum soldado? Não póde ser. Estes pimpões que quebram todos os abusos, que põem um joelho de ferro em cima de todas as revoltas, fazem aos homens o mesmo que fazem ás cousas, e o dever de quem depois conta a historia é perceber isso tudo, e não estar a berrar contra aquelles que fizeram serviços ao seu paiz, só porque nem sempre paravam onde seria melhor que tivessem parado.
Mas vamos nós ao resto da historia que d'aqui a pouco já as noites são mais pequenas, e mal chega o tempo para dormir a quem tem de se levantar com o sol. D. José morreu em 1777, e, apenas elle fechou os olhos, rebentou o odio que havia contra o grande ministro; ninguem quiz lá pensar no bem que elle tinha feito, e todos clamaram contra as suas crueldades. Demais a mais quem succedia a D. José era sua filha a rainha D. Maria I, muito beata, embirrando muito com o marquez, porque desconfiava que elle quizera fazer passar o throno para o filho[{147}] d'ella, um rapazito muito esperto, chamado D. José; e então o rei a morrer hoje e o ministro a ser demittido ámanhã. Não houve picardia que lhe não fizessem. Mandaram-n'o para a sua quinta do Pombal, e, estando elle já doente e amargurado, moeram-n'o com perguntas porque lhe armaram um processo. Se podessem desfazer tudo o que elle fizera, desfaziam, mas a final só soltaram os presos, porque emquanto ao mais tiveram medo de dar bordoada no finado rei, que a final de contas respondia pelos actos do ministro, porque elle é que assignava as ordens. Tiraram o retrato do marquez da memoria do Terreiro do Paço, qué só em 1834 se tornou a pôr como era justo; em vez do retrato pozeram as armas de Lisboa que são um navio á véla, e foi então que o marquez de Pombal disse, ao saber do caso: Ai! Portugal que vaes a véla!
Bem quizera D. Maria I admittir os jesuitas outra vez, mas não podia ser, porque o marquez de Pombal não só os expulsára de Portugal, mas fizera uma liga contra elles em toda a Europa, e conseguira que o papa Clemente XIV acabasse com a Ordem. Muito trabalharam os parentes dos Tavoras para conseguir que se désse uma sentença a declarar que era peta o que se dissera a seu respeito, e injusta a sentença que os condemnava; mas a final não conseguiram isso, porque a rainha percebeu que, condemnando o marquez de Pombal, a quem condemnava era ao pae.[{148}]
No mais tudo andou para traz, a não ser na marinha, que teve um bom ministro, Martinho de Mello, e n'isto de escolas que sempre se foram desenvolvendo. Houve alem d'isso dois homens que fizeram muito bem a Lisboa e ao Porto, a saber, o intendente da policia Pina Manique e o corregedor do Porto Francisco de Almada. É que já se não podia deixar de cuidar de melhoramentos; mas o que deu cabo de nós foi a birra que tivemos em nos metter na bulha contra a republica franceza. Isso, fallar em Portugal nas idéas novas, era o mesmo que fallar no diabo, e D. Maria I, em vez de tratar da sua vida, seguio o caminho de D. João V. Este ía-se metter com os turcos que lhe não faziam mal nenhum, D. Maria I foi-se metter com a republica franceza, que estava lá tão longe e que nada tinha com Portugal.
O que resultou d'aqui é que mandámos uma divisão ao Russilhão a ajudar os hespanhoes, e uma esquadra a Toulon a ajudar os inglezes. A divisão do Russilhão portou-se o que se chama bem, mas depois? A Hespanha fez a paz com a França, e nós ficámos a olhar ao signal, a Inglaterra mettia-nos na dança, e depois punha-se de palanque. Tivemos de andar a pedir a paz á republica franceza, quasi de joelhos, e o Napoleão, que já n'esse tempo começava a governar em França, e que nos tinha jurado pela pelle, teve a habilidade de açudar a Hespanha[{149}] contra nós, resultando d'ahi a guerra de 1801. Foi uma guerra vergonhosa. Tinhamos o exercito escangalhado, não fizemos senão levar bordoada, e, para alcançarmos paz, tivemos de pagar bom dinheiro, e de dar aos hespanhoes Olivença que nunca mais apanhámos. De nada nos valeram todas as humilhações. Em 1807, Napoleão, que já era imperador, e que andava n'uma lucta de morte com a Inglaterra, quiz que fechassemos os portos aos nossos antigos alliados. Andámos a hesitar, até que Napoleão, que não gostava de perder tempo, declara que a casa de Bragança deixára de reinar, e mette-nos cá dentro um exercito commandado pelo Junot. A familia real não teve senão tempo de fazer as malas e de partir para o Brazil, por conselho dos inglezes. Devo-lhes dizer uma cousa: a rainha D. Maria I endoidecera havia muito tempo, e quem governava em seu nome como principe regente desde 1792, era o principe D. João, seu filho mais velho, porque aquelle D. José, de quem lhes fallei, e que dava tantas esperanças, tinha morrido em 1788.
Imaginem vocês como ficaria o povo com esta partida, e agora é que é o caso de se lhe chamar partida.
Abandonado pela familia real, viu o Junot tomar conta do governo, agarrar no exercito portuguez, que não tinha ordem para resistir, e mandal-o para França servir no exercito de Napoleão, lançar contribuições[{150}] pesadas como o diabo, e emfim tratar isto como terra conquistada. E, para maior vergonha, Junot invadira o paiz, no coração do inverno, com meia duzia de gatos, e entrára em Lisboa á frente de quatro soldados estropiados e esfarrapados. A vergonha de todas estas humilhações começou a fazer ferver o sangue aos portuguezes, e um bello dia rebentou a revolta no Porto. Foi como quem diz um rastilho de polvora. Desde o Minho até ao Algarve, não houve terra em que se não pegasse em armas contra os francezes. O Junot mandou as suas tropas esmagar as revoltas, e os francezes fizeram então cousas do arco da velha, mataram, roubaram, queimaram...
—Ah! pae do céu! exclamou a tia Margarida, eu era bem pequenina então, havia de ter sete ou oito annos, mas lembra-me do que minha mãe me contava. Havia um que ella chamava o Maneta, que isso parece que era o diabo em pessoa.
—Era o general Loison, que não tinha um braço. Em Evora fez elle o demonio, mas, por mais que fizessem, não conseguiam acabar com a revolta. Era pobre gente do povo, sem armas, sem disciplina, sem chefe, que assim se levantava contra os francezes, e estes davam-lhe para baixo facilmente, mas a gente levava aqui em Bellas, levantava-se em Cintra, íam os francezes a Cintra, levantavam-se os de Bellas. Demais a mais, cada qual faz a guerra[{151}] como póde. Lá em batalha não podiam os nossos medir-se com os soldados de Napoleão. O que faziam? Davam-lhes caça; em os apanhando separados, carga para cima d'elles. Era facada, era paulada, era tiro de bacamarte, era o que podia ser, com os diabos! que um povo é como uma pessoa, quando o querem pisar aos pés, defende-se com unhas e dentes. Mas n'isto os inglezes, que andavam á tóca de ver se podiam saír da sua ilha e desembarcar n'algum sitio onde podessem incommodar Napoleão, assim que viram que Portugal estava revoltado, desembarcaram aqui um exercito commandado por um sugeito chamado Wellington, que, se não era tão bom general como Napoleão, pelo menos parece-me que ainda seria mais feliz do que elle. O Junot, que não passava de ser um valentão, foi batido pelos inglezes na Roliça e Vimeiro, onde os nossos, já se vê, tambem combateram ao lado das fardas vermelhas, que é, como vocês sabem, o uniforme inglez, e, para se safar de Portugal, teve de capitular. É verdade que o patife apanhou uma capitulação, que a não podia ter melhor se fosse elle que houvesse dado a tunda nos inglezes. Levou-nos tudo o que nos tinha roubado, e nem se fallou nos nossos soldados que lá andaram, contra vontade sua, a servir no exercito de Napoleão.