—Ó sr. João, acudiu o Manuel da Idanha, vocemecê[{152}] ha de desculpar uma pergunta, mas parece-me que ninguem póde vir por terra de França a Portugal, sem passar pela Hespanha, não é verdade?
—É sim, rapaz; mas que queres tu dizer com isso?
—Quero dizer que não percebo como foi que o Junot cá veio. Então os hespanhoes deixaram-n'o passar?
—Fizeram mais alguma cousa, vieram com elle, porque n'esse tempo estavam ainda muito manos com os francezes, tanto que repartiram entre si Portugal como quem reparte um melão, uma talhada para este, outra talhada para aquelle, etc. Mas o Napoleão surripiou aos hespanhoes a sua familia real, e fez rei de Hespanha um seu irmão chamado José, de fórma que, quando nós nos revoltámos, revoltaram-se elles tambem, e começámos uns e outros á lambada aos francezes.
Entretanto cá se arranjára um governo; tratou elle de organisar o exercito, que ainda era á moda de 1640, e que só precisava de um general como o principe de Lippe para ficar uma joia. Esse general appareceu, foi um inglez chamado Beresford, que n'um abrir e fechar de olhos poz tudo a direito. O que é certo, meus amigos, é que na guerra da Peninsula, que durou seis annos, os nossos soldados, combatendo ao lado dos soldados inglezes, passavam[{153}] por ser tão bons como elles e talvez melhores. Já se vê que tinha sido necessario virem muitos officiaes inglezes para os nossos regimentos, porque a officialidade portugueza estava toda dispersa, uns tinham ido para França, outros para o Brazil, e outros, diga-se a verdade, não prestavam para nada.
—Ó sr. João, dá licença que lhe faça uma pergunta? interrompeu de novo o Manuel da Idanha.
—Faze, rapaz, podéra! Pois então para que estou eu aqui?
—Porque é que se chamou a essa guerra a guerra da Peninsula?
—Não te disse eu, rapaz, no principio d'esta conversa, que Portugal e a Hespanha juntos formavam uma peninsula, quer dizer quasi uma ilha, porque a cérca o mar por toda a parte menos por um lado, que é onde pega com a França pelos Pyrenéus?
—Disse, sim senhor.