Para encurtar rasões, em quatro annos de campanha, fomos a pouco e pouco empurrando os francezes pela Hespanha fóra, em 1814 entrámos em França de embrulhada, e, como os russos, os austriacos e os prussianos tambem entraram por outro lado, levando o Napoleão adiante de si, caíu aquella caranguejola toda, o Napoleão teve de dar a sua demissão de imperador, e nós ficámos livres dos francezes.

Dois annos depois, em 1816, morreu a rainha D. Maria I no Brazil, sem que ninguem, por assim dizer, désse por isso. O principe regente tomou o[{156}] nome de D. João VI e continuou tudo como até ahi.

Entretanto em Portugal estava tudo descontente. O povo levantára-se contra os francezes por sua conta e risco, e parecia-lhe historia que o rei, que fugira, continuasse a não fazer caso nenhum d'elle.

Em Hespanha tinham-se reunido côrtes e arranjára-se uma constituição pela qual se acabava com o poder absoluto dos reis. Em Portugal, se não se fizera o mesmo, não fôra por falta de vontade, mas os inglezes não deixavam. Todos percebiam, porém, que se não podia voltar á antiga, como se não se tivesse passado cousa nenhuma no intervallo. Por outro lado a teima do rei em ficar no Brazil já nos ía fazendo chegar a mostarda ao nariz, tanto mais que, ao passo que havia por cá muita miseria, estava sempre a ir dinheiro para o Brazil, e não só dinheiro mas tropa tambem, porque D. João VI, em 1817, lembrára-se de juntar Montevideu ao Brazil, como se o Brazil ainda fosse pequeno, aproveitando para isso a revolta das colonias hespanholas. Emfim, a conservação de Beresford e dos coroneis inglezes no quadro do exercito portuguez incommodava os nossos officiaes, e descontentava a nação.

Em 1817, descobre-se ainda por cima uma conspiração liberal, dão como implicado n'ella, com provas[{157}] de cá cá rá cá, um general muito estimado, Gomes Freire de Andrade, de quem diziam que Beresford tinha ciumes, e enforcam-n'o. Tudo isto ía fazendo ferver o sangue aos portuguezes, e, quando em 1820 começou a haver revoluções liberaes por toda a parte, rebenta tambem uma revolução liberal no Porto, espalha-se logo por todo o reino, chega a Lisboa, e pega-se ao Brazil. D. João VI é obrigado a acceital-a, e a vir para Portugal, a mandar embora os officiaes inglezes, e a assignar uma constituição que as côrtes fizeram; mas os governos lá de fóra, e logo os mais poderosos, acharam perigoso que se tornasse a fallar em liberdade e constituições, e decidiram que viesse um exercito francez pôr a mordaça na boca aos liberaes da Hespanha, emquanto um exercito austriaco ía fazer o mesmo aos da Italia. Apenas cá chegou a noticia, os amigos do absolutismo, que tinham por chefe o infante D. Miguel, segundo filho do rei, levam este para Villa Franca, e deitam abaixo a constituição. Mas o que a fez caír não foram elles, foram os passos dos soldados francezes que já a essas horas andavam por Hespanha.

Entretanto o Brazil, onde ficára governando o principe D. Pedro, que era o filho mais velho do rei, fazia-se independente. Antes d'elle tinham feito o mesmo as colonias visinhas que pertenciam á Hespanha, e cincoenta annos antes as que pertenciam[{158}] á Inglaterra. No Brazil já houvera duas tentativas de revolta, e ambas tinham sido afogadas em sangue, uma em 1789, outra em 1817. A final venceram. Accusam muito D. Pedro de se ter feito imperador do Brazil, e de se haver revoltado contra seu pae. Elle não se revoltou, mas só podia fazer uma de duas cousas, ou ir com os brazileiros, ou pôr-se no andar da rua. Então esses figurões imaginavam que um paiz rico, grande e forte, está agora para receber ordens de outro mais pequeno, ou maior que elle seja, e que fica de mais a mais do outro lado do mar? Ora, historias da vida! e não se queixem d'isso. É ordem das cousas. As colonias são como os filhos. A gente educa-os, trata-os, deixa-os ir crescendo. Quando são maiores emancipam-se. E ninguem tem que estranhar. Foi o que aconteceu com o Brazil. Estava maior, emancipou-se. Perdemos o Brazil em 1825, em 1826 morreu D. João VI. Os seus ultimos dias foram amargurados. Tivera guerra com o filho mais velho que se revoltára com o Brazil; estivera para ser desthronado pelo filho mais novo, D. Miguel, que o chegára a prender na Bemposta, e que elle depois tivera que mandar para fóra do reino; a mulher, D. Carlota Joaquina, que estava sempre ás turras com elle, nunca lhe déra senão desgostos. Falleceu ralado o pobre do rei, que era uma excellente pessoa, amigo de tomar o seu rapé com socego, e que para sua desgraça governára no tempo[{159}] da revolução franceza, no tempo de Napoleão, e no tempo da revolução de 1820. E ha de a gente acreditar no rifão: Dá Deus o frio conforme a roupa.

E, como eu tambem estou com frio, rapazes, vou até casa á procura de roupa, e no proximo domingo acabaremos com isto.[{160}]
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DECIMO SERÃO

Historia contemporanea.—D. Pedro IV.—A Carta Constitucional.—Regencia da infanta D. Izabel Maria.—D. Miguel, rei absoluto.—Sublevação do Porto.—Emigração.—A ilha Terceira.—O conde de Villa Flor.—Perseguição aos liberaes.—A esquadra franceza no Tejo.—D. Pedro IV põe-se á frente dos liberaes.—Desembarque no Mindello.—Cêrco do Porto.—Expedição do Algarve.—Batalha do Cabo de S. Vicente.—Entrada das tropas do duque da Terceira em Lisboa, a 24 de julho.—Cêrco de Lisboa.—Batalhas de Asseiceira e Almoster.—Convenção de Evora Monte.—Reinado de D. Maria II.—Revolução de Setembro.—Constituição de 1838.—Restauração da Carta.—A Maria da Fonte.—A Junta do Porto.—A intervenção estrangeira.—A Regeneração.—Reinado de D. Pedro V.—A febre amarella.—Reinado de D. Luiz.—Conclusão.

—Vocês percebem, meus amigos, principiou o João da Agualva, que, tendo de lhes contar agora acontecimentos em que tomou parte muita gente que ainda está viva e sã, e não querendo offender ninguem, não posso estar com muitas reflexões. Quem succedeu a D. João VI foi D. Pedro IV, já então imperador do Brazil. Este, que era um principe que percebia as cousas, vio bem que o nosso tempo já[{162}] não era tempo para absolutismos, e antes quiz dar elle uma constituição do que ir o povo arrancar-lh'a. Mandou portanto para Portugal a Carta, dizendo ao mesmo tempo que abdicava em sua filha D. Maria, a qual havia de casar com seu tio o infante D. Miguel, e, emquanto D. Miguel não voltava para Portugal, nomeou regente a infanta D. Izabel Maria, que vocês haviam de conhecer muito bem.