—Ora se conhecemos! morava ali em Bemfica!

—Tal qual! morreu ha cousa de tres ou quatro annos. A Carta Constitucional ficou sendo lei do reino, apezar de algumas revoltas, mas o infante D. Miguel, apenas chegou a Lisboa em 1828, fecha as côrtes, atira com a Carta de pernas ao ar e faz-se proclamar rei absoluto. A guarnição do Porto não está pelos ajustes, e revolta-se, mas tem de fugir para Hespanha. Tudo o que eram liberaes, e que poderam safar-se, emigraram uns para França, outros para Inglaterra. Mas o que é certo é que o povo todo estava com D. Miguel. Porque? Como póde haver um povo que não goste de liberdade? Vão lá explical-o! Os padres e os frades estavam quasi todos ao lado de D. Miguel, e levavam comsigo muita gente.

Mas a ilha Terceira não esteve pelos autos, e não acceitou o absolutismo. Apenas isso constou, correram os emigrados para essa ilha, o conde de Villa Flor tomou conta do governo, e ali resistio ás esquadras[{163}] de D. Miguel. Este, entretanto, com o devido respeito, fazia tolices graúdas, e a maior era perseguir os liberaes a ferro e fogo. A forca estava sempre armada, as prisões sempre atulhadas, e os caceteiros não deixavam ninguem socegado. Isto de fazer martyres é o diabo. Para a arvore da liberdade não ha rega como o sangue dos seus filhos.

Ora, além d'isso, emquanto o governo francez se mostrava pouco amigo da liberdade, tinha D. Miguel as sympathias da França, mas depois da revolução de 1830 aconteceu o contrario. O governo de D. Miguel caíu na asneira de perseguir uns francezes. D'ahi resultou vir uma esquadra franceza ao Tejo e levar os navios que ahi estavam. Ao mesmo tempo D. Pedro, que tivera os seus dares e tomares com os brazileiros, abdicou a corôa imperial do Brazil, e veio tomar o commando dos defensores de sua filha. Põe-se á frente d'elles, que não eram muitos, eram 7:500, desembarca no Mindello a 8 de julho de 1832, mette-se no Porto, e ahi resiste mais de um anno aos soldados de D. Miguel, que eram muito valentes, mas mal commandados. Envia ao Algarve em 1833 meia duzia de gatos, debaixo das ordens do conde de Villa Flor, já então duque da Terceira, n'uma pequena esquadra, que primeiro fôra commandada por um inglez chamado Sertorius, que ainda vive, e que o estava sendo por outro inglez chamado Napier. Este desembarca o duque[{164}] da Terceira no Algarve; depois vae-se á esquadra miguelista e derrota-a no cabo de S. Vicente. O duque da Terceira marcha sobre Lisboa, bate na cova da Piedade os miguelistas, commandados pelo Telles Jordão, que tinha sido um tyranno para os presos liberaes, e que ali morreu, e entrou em Lisboa no dia 24 de julho de 1833. D. Pedro vem para Lisboa que os miguelistas cercam. Elle e os seus dois marechaes, duques da Terceira e de Saldanha, obrigam os miguelistas a retirar para Santarem. Depois o duque de Saldanha por um lado bate os miguelistas em Almoster, o duque da Terceira por outro bate-os na Asseiceira, e D. Miguel assigna a 25 de maio de 1834 a convenção de Evora Monte, pela qual o seu exercito depunha as armas, e elle abandonava Portugal. Como se esperasse unicamente o fim da sua empreza para terminar tambem a sua vida, D. Pedro IV veiu aqui morrer a Queluz no dia 24 de setembro de 1834. Podem para ahi pensar d'elle o que quizerem, meus amigos, mas o homem que, tendo nascido no throno, passou a sua vida a regeitar corôas, e a combater, como um soldado valente, pela liberdade dos povos, merece bem as tres estatuas que no Porto, em Lisboa e no Rio de Janeiro, mostram que, ao menos depois da sua morte, não foram ingratos com elle os portuguezes e os brazileiros.

Succedia-lhe a senhora D. Maria II, que viveu[{165}] bem pouco tempo, e teve uma vida bem atormentada. Logo em 1836 um partido, que queria mais liberdades que as da Carta fez a revolução de setembro, e em 1838 veiu uma nova constituição. Contra ella se fazem muitas revoltas, até que em janeiro de 1842 Costa Cabral, depois conde de Thomar, deita abaixo a constituição de 1838, e põe outra vez a Carta de pé. Governou elle muito tempo, mas, diga-se a verdade, um poucochinho á bruta. D'ahi vieram mais revoluções, e a maior de todas que foi a da Maria da Fonte, em 1846, em que metade do reino obedecia á Junta do Porto, e a outra metade ao governo nomeado pela rainha. Batidos em Val-Passos, em Torres Vedras, e no Alto do Viso, os patuléas, como se chamava aos partidarios da junta, são obrigados a depor as armas pelos inglezes e pelos hespanhoes que mandaram uns uma esquadra, os outros um exercito para restabelecerem aqui o socego. Mas no fundo estava tudo em braza, e quando em 1851 o duque de Saldanha se levantou contra o conde, hoje marquez de Thomar, foi tudo atraz d'elle. Reuniram-se côrtes que introduziram umas mudanças na Carta, e d'ahi por diante nunca mais houve revoltas de consideração. Pegaram os governos a fazer estradas e caminhos de ferro, e lá de partidos é que eu não entendo. Em 1853 morria a senhora D. Maria II, considerada por todos como uma santa senhora, e uma santa mãe, e succedeu-lhe[{166}] seu filho, o senhor D. Pedro V, sendo regente nos primeiros dois annos o senhor D. Fernando que vocês todos conhecem. O sr. D. Pedro V era uma joia, como sabem. Quando em 1857 veio a febre amarella a Lisboa, andou elle pelos hospitaes, a consolar os doentes, e a dar coragem e exemplo a todos. Tambem quando em 1859 morreu a boa rainha Estephania, sua mulher não houve portuguez que a não chorasse com elle, e quando em 1861 morreu elle tambem quasi de repente, com os seus dois irmãos, o senhor D. Fernando e o senhor D. João, a dôr do povo foi tamanha que chegou a haver tumultos, porque até se desconfiava que aquillo não fosse natural. Subio ao throno o senhor D. Luiz que hoje reina, e aqui portanto acaba a historia. Sempre direi, com tudo, que não são muitos os paizes por esse mundo onde os povos ainda hoje chorem pelos reis, e que isso vem de serem os nossos tão amigos da liberdade como são e tem sido, graças a Deus. E aqui, meus amigos, acabo a minha tarefa; o que eu desejo, rapazes, é que vocês achem que não os massou muito o pobre do João da Agualva, e que entendam que empregaram melhor o seu tempo a ouvir as minhas historias, do que a beber decilitros na taverna do Funileiro.

FIM