—Pois sim, resmungou o Bartholomeu sentando-se de mau humor, mas não me digam a mim que eu fui hespanhol.

—Ora, meus amigos, quem foram os que primeiro moraram cá n'este canto de terra é que ninguem sabe. Seriam uns iberos, que fallavam uma lingua arrevesada, assim a modo similhante á que fallam hoje os hespanhoes das Vascongadas que nem o demo entende? Isso é que lhes não posso dizer. O que sei é que, quando a Hespanha começou a ser conhecida, havia aqui uma sucia de povos que era uma cousa por demais, turdetanos para um lado, celtiberos para outro, ilergetas para aqui, bastetanos para acolá. Estava até ámanhã a dizer-lhes nomes estramboticos, se não preferisse fallar-lhes só nos nossos avós, cá nos que moraram na nossa terra.

—Isso é que é! bradaram todos em côro.

—Pois muito bem! Saibam vocês que não era um povo só. No Algarve e n'um pedaço do Alemtejo havia os cuneenses, no resto do Alemtejo, na Estremadura e na Beira moravam os lusitanos, e lá para cima para o Douro, para o Minho e mais para Traz-os-Montes moravam os gallegos.

—Os gallegos! exclamou o irritavel Bartholomeu, veja lá como falla, sr. João da Agualva, olhe que o pae de minha mulher veiu de Traz-os-Montes, e meus sogro não era nenhum gallego, ouviu?[{4}]

—Valha-te Deus, Bartholomeu, então tu cuidas que os gallegos andam todos com o barril ás costas, e são todos uns grosseirões como os aguadeiros dos chafarizes de Lisboa? Pois digo-te, e depois t'o mostrarei, que de todos os povos lá das Hespanhas foram os gallegos os que mais depressa se poliram. Mas, cala-te bôca, não vá o carro adiante dos bois, e, como tu não queres ser genro de um gallego, sempre te direi que os que moravam para cá do Minho não eram da mesma casta que os de lá. Os nossos chamavam-se Bracharos e os gallegos da Galliza chamavam-se Lucenses.

—Ainda bem! murmurou o Bartholomeu, isso de Bracharos até parece que dá idéa de Braga.

—E é verdade que dá, sr. Bartholomeu, lavre lá dois tentos.

Todos se riram, e o João da Agualva continuou:

—Mas não imaginem que os nossos antepassados eram assim como nós, que viviam em cidades, villas e aldeias, que andavam vestidos dos pés até á cabeça, que tinham espingardas para a caça e para a guerra. Qual carapuça! Eram uns selvagens, uns lapuzes. As armas eram lanças de cobre, e o amante pedregulho, mais uns dardos e uma especie de escudo para se defenderem; fato pouco havia, cabello comprido como o das mulheres, que atavam com uma fita quando tinham de ir para a guerra.[{5}] As mulheres é que tinham os seus enfeites e os seus bordados, os seus vestidos compridos, etc.