—Pois já se vê que lá as meninas nunca podem passar sem arrebiques! disse o Zé Caneira, relanceando um olhar malicioso para a boa tia Margarida que fiava na sua roca ao pé da lareira.
—Melhor para ellas, ouviu! redarguiu a velha. Que pena que não vivesses n'esse tempo para atares os cabellos com uma fita, quando fosses para a guerra!
Como o Zé Caneira era calvo, uma gargalhada geral acolheu a observação da tia Margarida.
—Em comidas não eram muito requintados, de carne de cabra é que elles principalmente se alimentavam, e o seu pão era cousa de pouca substancia. Bebiam agua, dormiam no chão, os seus barcos eram de couro, matavam gente em sacrificio aos seus deuses, quando tinham algum doente punham-n'o á beira da estrada, quem fazia algum roubo ou outro crime grave era apedrejado. Não passavam de ser uns selvagens. Então que querem? nem os homens nem os povos nascem ensinados. Todos começam assim. Valentes eram elles, isso sim, valentes como touros. Tiveram occasião de a mostrar, porque esta nossa terra foi na antiguidade uma espécie de California.
Por muito tempo ninguem soube d'ella, e os navios da gente civilisada que vivia lá para o Oriente[{6}] nunca passavam para cá do estreito de Gibraltar, até que um dia passaram os phenicios, gente atrevida, que queriam metter o nariz em toda a parte, e que sobretudo procuravam terras novas para commerciar. Acharam que lhes convinham a Andaluzia e o Algarve, e aqui fundaram algumas colonias, sendo Cadiz a principal. Como tinhamos por cá muitas minas de ouro, e os homens deram sempre o cavaquinho por este metal, estavam os phenicios nas suas sete quintas. Ao mesmo tempo outro povo civilisado do Oriente, os gregos, vieram na piugada dos phenicios, mas esses estabeleceram-se principalmente na Hespanha do lado de lá, onde hoje é a Catalunha, e o Aragão e Valencia, etc.
Os indigenas de cá não se deram mal com os phenicios, emquanto elles se limitaram a trocar as suas fazendas pelo nosso ouro e outras producções, mas, quando viram que os taes estrangeiros começavam a fazer casa, acabaram com o negocio, foram aos gaditanos e deram-lhes uma tareia real.
—Foi bem feito! observou Bartholomeu.
—Mas os phenicios, que estavam muito longe da sua terra, chamaram em seu soccorro os carthaginezes, que eram tambem uns phenicios, quer dizer tinham assim com os phenicios o mesmo parentesco que os brazileiros têem comnosco. Ora os cartagineses viviam aqui mais proximo, ali na Africa, ao pé de Tunis, não muito longe de Argel.[{7}]
—Argel! exclamou o Francisco Artilheiro, já lá estive.
—Já lá estiveste?