Esse sonho das ilhas phantasticas podia não ser senão um estimulo para cavalleiros denodados que não temiam os encantamentos, logo que levavam comsigo as espadas bentas e a cruz do Salvador. Com o coração a bater-lhes um pouco, pallidos de supersticioso terror, mas incitados pelas tentações das sobre-naturaes aventuras, arrojar-se-hiam tanto os celtas da Irlanda como os celtas de Portugal aos mares mysteriosos em demanda das ilhas paradisiacas; outros encontraram tambem no caminho as ilhas infernaes, mas a lenda do mar Tenebroso essa é que deveras regelava o sangue nas veias do mais audacioso. Vinha dos antigos, e mais tambem dos Arabes. Como é que os poetas antigos, ao passo que devaneavam como Seneca no côro da Medéa, que para além do Oceano haveria terra incognita, suppunham que n’esses mares longinquos se perdêra a luz do sol e um manto espesso de trevas se desenrolava sobre as vagas? Como é que o arabe Edrisi, que suppunha que estavam no Atlantico as ilhas da eterna felicidade, suppunha tambem que era o Atlantico o mar tenebroso, onde os navios esbarravam uns nos outros e se despedaçavam em ignorados rochedos? É porque suppunham que, depois do mar Tenebroso, vinha o mar luminoso da India, porque imaginavam exactamente que o mar da India communicava com o mar Tenebroso? Tambem a sciencia não dava fóros de authenticidade ao mar Tenebroso como os dava ás terras incendiadas e ao mar em fogo da zona torrida. Era um dos fundamentos essenciaes da lenda do immenso pélago o ligar-se ainda com as estranhas idéas astronomicas dos que suppunham que para além dos mares tinha o globo um cinto de montanhas, e que detraz d’essas montanhas é que o sol se escondia durante a noite, pertencia a essa classe de phantasias a que pertencem os montes Ripheus e outras visões da desvairada imaginação dos sonhadores da geographia.

Mas ainda os Arabes trouxeram do Oriente um novo elemento legendario. O Oriente é a patria das estatuas encantadas, dos monstros de metal dotados de uma vida phantastica, e a esse mar, por tantas razões defezo, punham como sentinellas immoveis e terriveis as estatuas mysteriosas, como os leões de oiro que nos contos arabes defendem os palacios enfeitiçados. Mas ainda a tudo accrescia uma tradição que se baseava na verdade, e que não era menos desanimadora para os que tentassem romper o mysterio. Era a do mar de Sargaço, que não era desconhecido dos antigos, esse mar que os marinheiros de Colombo encontraram já muito para o occidente, e em que se julgava que as plantas enredadas enleiavam por tal fórma os navios que lhes paralysavam completamente os movimentos.

Essas idéas falsas, derivadas da sciencia mal comprehendida, e que povoavam os espiritos dos marinheiros d’essa epocha, são as mesmas que ainda hoje habitam no cerebro do povo ignorante, apesar da immensa propagação de dados scientificos verdadeiros, obtidos pela experiencia de todos os dias. No seu delicioso livro Sull’Occeano, o grande escriptor italiano Edmundo de Amicis conta-nos o que ouviu a bordo de um paquete que singrava para a America aos passageiros de terceira classe, emigrantes que iam trabalhar no Rio da Prata. Parece-nos estarmos a ouvir as palestras que se travariam entre os marinheiros do seculo XV a bordo das suas esguias caravellas. Apesar dos factos demonstrarem o contrario, ainda suppunham que, ao atravessarem a zona torrida, teriam de atravessar um mar incendiado. Suppunham que veriam claramente a curvatura da terra e o navio descer por ella como um bichinho em volta da superficie de uma laranja. Todos esses terrores pueris dos passageiros que os marinheiros hoje desdenham com um riso sarcastico, eram os que salteiavam o espirito dos seus antepassados nos seculos da edade média, eram esses terrores os que faziam recuar deante dos cabos africanos e deante das solidões do Atlantico os marinheiros que precederam Gil Eanes e que precederam Christovão Colombo, eram ainda os que acompanhavam os descobridores em cada nova exploração, porque só a pouco e pouco é que a luz se foi fazendo, só a pouco e pouco é que se foram desfazendo as idéas falsas da antiguidade substituidas pelos factos verdadeiros, e era necessario que fossem de uma rija tempera os marinheiros que recalcavam no fundo d’alma esses terrores, que fossem denodados espiritos os d’esses commandantes que assim partiam a arcar não só com os pavores da superstição, mas com as affirmações da sciencia e com as determinações da fé, e que fosse emfim um genio verdadeiramente transcendente o d’esse homem quasi divino, que teve a intuição sublime da verdade e a inspiração de um genio creador, que sonhou um mundo aberto inteiramente á luz, um mar sem trévas, a humanidade circulando sem peias em volta da terra seu dominio, e que logrou escrever na face das ondas com a quilha das suas caravelas essa epopéa maravilhosa que elle concebeu em Sagres e que foi a grande epopéa do Renascimento.


V
O infante D. Henrique e o povo portuguez

Nenhum povo estava tão fadado como os Portuguezes para esse emprehendimento maravilhoso na epocha em que elle se encetou. As cruzadas tinham despertado nos povos europeus o espirito da aventura. Era para o Oriente que se voltava esse ardor de conquista, não só porque era a terra classica de todas as opulencias, mas porque a conquista do Oriente fôra o sonho da antiguidade grega e romana e o culto mal comprehendido, mas profundo, pela antiguidade foi um dos caracteres predominantes da edade média. Alexandre o Magno era para elles o ideal do cavalleiro andante, imaginavam-n’o como um soberano cavalheiresco, segundo a formula feudal, como Virgilio, o dôce poeta, era um feiticeiro de legenda; mas a adoração por esse grande vulto vivia em todos os espiritos. Foi para o Oriente pois que se dirigiram os primeiros viajantes, os Rubruquis, os Plan du Carpin, os Marco Polo, quando as expedições guerreiras tiveram de parar deante da resistencia victoriosa dos sarracenos. Mas esses viajantes já tinham feito penetrar um pouco de luz na geographia systematica do seu tempo, e a humanidade evidentemente, despertada para o estudo e para a sciencia pela primeira Renascença do seculo XIII, ia procurar sondar o desconhecido que por todos os lados a envolvia.

O segredo dos mares occidentaes devia preoccupar sobretudo os povos que no occidente da Europa viam desenrolar-se diante d’elles a incommensuravel extensão das vagas oceanicas. Os povos do Norte, que tinham chegado até á ultima Thule, a regelada Islandia, não deixaram de aventurar-se por esses mares ignotos, e é incontestavel que, assim como chegaram á Groenlandia, tocaram tambem no continente americano. Se perseverassem na descoberta, se fossem seguindo ao longo da costa da America, emquanto encontrassem terra nas suas aventurosas jornadas, teriam roubado incontestavelmente a Portugal e á Hespanha as suas mais viridentes glorias! Á Hespanha, porque antes de Colombo teriam dado á civilisação esse vastissimo continente, a Portugal, porque antes do infante D. Henrique teriam reconhecido a possibilidade de se transpôr a zona torrida; mas não perseveraram, e assim legitimamente perderam a gloria que teriam podido conquistar. Que, afastando-se da Islandia, encontrassem uma nova terra ainda mais regelada e triste, que, proseguindo na sua viagem, chegassem a territorio mais risonho, não é coisa que nos espante, posto que demonstre mais uma vez a coragem d’esses audaciosos reis do mar. A gloria de Colombo não está em ter encontrado novas terras, está em não ter recuado deante dos dogmas da extensão quasi infinita dos mares, assim como a gloria dos Portuguezes não está em terem juntado novas terras ao peculio da civilisação, está em não terem recuado diante do dogma scientifico e religioso da impossibilidade de se viver na zona torrida e da existencia dos mil perigos e dos mil horrores que defendiam a sua approximação.

Ninguem era, comtudo, mais proprio do que os Normandos para tentarem as aventuras maritimas; estavam porém demasiadamente ao norte, e, como ás suas aventuras presidia sempre, como ás dos Phenicios, não o amor da sciencia, mas o amor do lucro, ao chegarem ao cabo de S. Vicente, mais os tentava o caminho do Mediterraneo, onde havia tão seductoras prezas, do que o arriscado caminho do Mar Tenebroso. No seculo XIV os Normandos de França sentiram-se attraídos para os mares do Sul, até porque lhes chegára a noticia de que os marinheiros da peninsula hispanica para esse lado tinham encontrado as ilhas Afortunadas, mas a tentativa de Bethencourt não tivera nem poderia ter imitadores, porque não fôra extremamente prospero o seu resultado, porque as costas áridas do prolongamento de Marrocos, onde tinham encontrado a morte, essa Guiné, como lhe chamavam, Guiné que tinha por limite meridional o cabo Bojador, não promettia grandes proventos aos que lhe tentassem a exploração. A Inglaterra concentrava na conquista da França todas as suas attenções e todo o seu empenho e a França cuidava em defender-se e em completar a sua poderosa unidade. A Italia tinha duas potencias maritimas—Veneza e Genova—cujos navegantes davam lições aos outros povos, mas uns e outros tinham os olhos postos no Oriente, d’onde lhes vinha a riqueza, a gloria e o dominio. Genova é que lançava de quando em quando os olhos para o occidente, em Veneza appareciam ás vezes alguns espiritos que se deixavam tentar pelos mysterios do Oceano, mas as viagens audaciosas e pouco afortunadas dos irmãos Zeni venezianos e de Vivaldi e Doria genovezes, não podiam ser incitamento a que se proseguisse nas tentativas. Acontecia com as duas republicas maritimas o que depois aconteceu com Portugal quando regeitou a proposta de Colombo. Não se deixa o certo pelo duvidoso. Não se empenham vidas e thesouros em emprezas incertas, semi-phantasticas, quando se tem nas mãos, como Veneza e Genova tinham, o vasto commercio do Oriente, quando se tem quasi a certeza de que se está no caminho da India, quando se possuia já o resgate valioso da Mina como acontecia com D. João II. Para esses emprehendimentos que são o sonho da politica, são necessarios não os espiritos positivos, mas as imaginações exaltadas. É indispensavel que haja n’um cerebro esse grão de loucura que faz os grandes poetas e os grandes descobridores, que inspira os poemas que se escrevem—os poemas da phantasia, e os poemas que se executam—os poemas da acção, um homem como o infante D. Henrique, que herdára de sua mãe, como todos os seus irmãos, esse elemento romanesco que toda a mulher do Norte encerra no fundo da sua alma, por baixo da sua apparencia séria, austera e pratica de dona de casa e de mãe de familia, para conceber e levar por deante, n’um jorro de santa loucura, o poema das navegações, ou uma mulher cavalheiresca, romanesca tambem, sensivel e enthusiastica como a rainha Izabel, para comprehender a alma de Colombo, para se irmanar com ella, e para collaborar tão apaixonadamente n’esse ultimo poema de cavallaria, n’essa ultima producção da alma celtica, n’esse ultimo romance do Santo Graal que se chamou Descoberta da America.