Em torno do dogma como em torno da sciencia nasciam então as lendas. Deante do dogma inclinavam-se todos, deante da sciencia inclinavam-se os illustrados, deante da lenda refugiam os ignorantes, e uns e outros paravam deante d’esse mar que tantos mysterios encerrava.

Classificamos propriamente como legendarias as supposições que não tinham a minima base scientifica ou que não repousavam no dogma. Assim a terra velada de Theopompo não era senão a terra incognita de Ptolomeu; mas, suppondo o auctor grego que os homens que a habitavam eram de uma estatura duas vezes maior que a dos do mundo conhecido, perdia-se completamente nas regiões da phantasia, porque não havia, como para a humanidade monstruosa das regiões tropicaes, as razões do clima. Percebe-se, por exemplo, que a necessidade continuada de se resguardarem contra os ardores de um sol terrivel fosse, atravez de gerações successivas, desenvolvendo cada vez mais os orgãos com que o homem se podia proteger, mas n’esse clima perfeitamente semelhante ao nosso nenhum motivo havia para que se suppozesse que duplicava a estatura humana. E comtudo essa lenda actuava fortemente no espirito dos navegadores, e assim se explica a formação da lenda dos Patagonios.

Legendarias eram tambem as ilhas do Oiro e da Prata, que apparecem nos mappas da edade média e que vão fugindo para regiões mais distantes á medida que vae sendo conhecido o mundo oriental, como succedia tambem ás Hesperides, antigas ilhas de fabulosa riqueza, cujo pomar de pomos de oiro opulentos era guardado por um dragão, como tambem na edade média as montanhas que encerravam thesouros preciosissimos eram guardadas por gryphos e toda a especie de fabulosos animaes. É sempre em ilhas situadas nos mares desconhecidos que se colloca ou a região das riquezas ou a região da bemaventurança. As ilhas Afortunadas ou as ilhas das Hesperides eram para os antigos a patria de todos os sonhos da felicidade suprema. Era nas regiões do Norte, onde parecia que devia reinar comtudo a eterna desolação, que elles collocavam tambem a ideal ventura, phantasiando esse povo dos Hyperboreos eternamente feliz. Passou para a edade média essa tradição, e nos mappas medievaes se vêem para além do mundo conhecido as ilhas onde habitam os Hyperboreos. Nos mares orientaes collocavam-se, como dissemos, as ilhas do Oiro e da Prata, as ilhas dos Homens e das Mulheres, que eram o producto de uma tradição arabe, a ilha do Sol de Pomponio Mela, que não fazia senão dar uma nova fórma ás preoccupações da zona torrida. Quem abordasse á ilha do Sol era immediatamente suffocado pelo ar em braza que alli se respirava[48]. Finalmente, nos mappas da edade média já mais proximos da epocha dos descobrimentos apparece semeado de innumeras ilhas o mar oriental: sete mil dizem as legendas de uns, quatorze mil as de outros. Esse pensamento foi suggerido pelo conhecimento das viagens de Marco Polo e pelas indicações que o viajante veneziano dá ácerca das Maldivas, que se suppozeram existentes no mar oriental. É bem provavel, e o que é certo é que o pensamento da existencia de innumeras ilhas no oriente da India actuou nos sabios do seculo XV, e foi uma das esperanças de Christovão Colombo e um dos pontos de apoio de Toscanelli para a sua theoria da possibilidade da viagem que Colombo emprehendeu, porque, dizia elle, ainda que o continente asiatico estivesse mais longe do que se suppunha, sempre se encontrariam no caminho ilhas que servissem de porto de escala e de arribação[49].

Ah! essas ilhas conjecturaes da edade média como serviram aos historiadores superficiaes para procurar attenuar a gloria dos Portuguezes e a gloria de Colombo! Brotavam das ondas mysteriosas como brota a espuma da vaga que se desfaz nos rochedos. Por aquelle Oceano tenebroso que se estendia para o Occidente, nas ondas do ignoto mar indico, por muito tempo considerado, e ainda no tempo dos primeiros descobrimentos portuguezes, como um mar mediterraneo, pelo mar ignorado do Norte semeava a imaginação dos cartographos quantas ilhas ideara a phantasia antiga, a phantasia dos troubadours ou dos trouvéres e a dos mysticos! Lá appareciam, como dissemos, as ilhas das fabulosas riquezas, a Chrysé, a Argyra, Ophir, que talvez bem se possa classificar entre ellas; as ilhas da tradição homerica, a de Calypso, a de Diomedes, a outra em que se vê ás horas do sol poente a sombra gigante e pensativa de Achilles, as ilhas da tradição celtica, essas ilhas que povoavam a imaginação d’estes marinheiros do occidente, que, erguidos ao pôr do sol nos rochedos da costa, sonhavam em cada miragem do Oceano uma ilha fabulosa, que, batidos pela tempestade, quando andavam á pesca, julgavam escutar no surdo rugido das vagas os lamentos das almas penadas nas ilhas milagrosas, e tudo se contava ao serão quando bramia o vento cá fóra e o mar quebrava com doloridas queixas ou com furioso estrepito nas fragas desnudadas. Tudo ia tambem enriquecer as lendas dos claustros para ornar com esses arrebiques de maravilhoso a existencia piedosa de um santo missionario. Foi assim que S. Brandão teve a sua ilha, onde cantavam as aves do Paraizo, e onde se respirava tão celeste e perduravel perfume que n’elle ficaram para sempre impregnadas as vestes do santo viajante. Era na Irlanda sobretudo que essas lendas brotavam, era ahi que se formavam ao lado da legenda de S. Brandão as de S. Patricio, e de tantos outros navegadores celticos que iam atravez dos mares da phantasia procurar ignotas ilhas.

Já Brekan, o filho do rei Niel, desapparecera nas ondas do mar com cincoenta navios, e só o cadaver do seu cão reapparecerá na praia, já tres filhos de Corra tinham com os seus quatorze companheiros, entre os quaes iam um bispo e um bardo, abordado ás ilhas das Almas, encontrando depois de quarenta dias e quarenta noites a ilha do eterno choro, e a ilha em que fundidores infieis forjavam e fundiam com as carnes rasgadas pelas aguias negras, e outra em que um moleiro moía eternamente farelo por ter roubado os seus freguezes, e outra em que um alquilador, que roubara o cavallo a seu irmão, passava por deante dos olhos assombrados dos viajantes no galope infernal de um cavallo de fogo.

Outros, os famosos navegadores de Iona, tinham chegado á ilha dos Passaros, onde volteiam aves de aureas e de purpureas pennas, regidas por um rei de cabeça de oiro e de azas de prata, que entoam cantos de uma celestial melodia, e a outra onde choram com saudades da patria as doces Irlandezas exiladas mysteriosamente do mundo dos vivos.

Depois ainda é o bardo Myrdhinn que vae com mais nove bardos procurar a ilha Verde, que nunca foi submergida pelas vagas, a ilha dos pomos de oiro, onde no meio de uma aurora perpetua dança um côro eterno de bellos rapazes e de formosas raparigas.

Tudo se condensa, emfim, na lenda de S. Brandão. Esse encontrara a ilha onde os anjos que acompanharam Lucifer, mas não foram inteiramente seus cumplices, cantam os hymnos de esperança, e o aspero rochedo batido pelas vagas, onde Judas é consumido pelo eterno remorso; e emfim a terra promettida aos eleitos, a terra dos bemaventurados.

S. Patricio tambem percorre as solidões do Atlantico. Esse vae, segundo a lenda, quando a quaresma começa, para o seu purgatorio, n’uma ilha de que ninguem se pode approximar, onde ha uma caverna que os maus espiritos habitam, e onde se abrem duas estradas subterraneas, que vão ter uma ao Inferno, outra ao Paraizo. Esta ilha mysteriosa do Purgatorio de S. Patricio, como a ilha abençoada de S. Brandão, é um dos sonhos mais persistentes da edade média, e uma e outra lá apparecem nos mappas medievaes, nos sitios mais diversos, ás vezes applicando-se a ilhas verdadeiras, como acontece com o Purgatorio de S. Patricio, que alguns cartographos collocam na Islandia.

A imaginação celtica é a mais fecunda n’esta creação de terras phantasticas, e não podia deixar de ser assim, não só porque os povos d’essa raça são essencialmente imaginativos e sonhadores, como tambem porque n’essa Irlanda, collocada na extremidade occidental da Europa, a tão pouca distancia da America, aonde tantas vezes deviam chegar, como chegavam aos nossos Açores e á nossa Madeira, plantas e cadaveres de homens de desconhecido aspecto, não podia deixar de pullular a cada instante na alma do povo o pensamento da existencia de ilhas mysteriosas para esse lado, como muitas vezes tambem, quando um pescador mais audacioso se aventurava ao mar alto, quando o vento de leste lhe enfunava as velas, e o mar lhe parecia cantar no seu doce murmurio as suas maravilhosas lendas, elle seguiria caminho do Occidente, durante dias e dias, até que a fome o salteasse, ou até que o continuado panorama das vagas a seguirem-se ás vagas, sem fim, sem termo, fechando o horizonte, os desanimasse afinal[50]. Mas tambem na peninsula hispanica lendas semelhantes se formavam e pelas mesmas causas. Tambem aqui em Portugal sobretudo e no Algarve principalmente os pescadores, ao largarem a costa, sentiriam a tentação de penetrar nos mysterios do Oceano, e aqui tambem á volta, em noites de luar nas esfolhadas, ou no inverno ao lado da chaminé, fallariam, como se as tivessem visto, em ilhas extranhas, na das Sete Cidades, por exemplo, onde se tinham refugiado, quando os Mouros vieram á peninsula, sete bispos christãos com o povo das suas dioceses, proscriptos agora e encantados como as meigas irlandezas exiladas dos navegadores de Iona. E todas estas ilhas phantasticas, Antilia e Sete Cidades, ilha de S. Brandão e Purgatorio de S. Patricio, iam juntar-se ás ilhas conjecturaes dos sabios e ás ilhas tradicionaes da mythologia antiga para formarem esses archipelagos do sonho e da lenda que se desfizeram em fumo quando das aguas surgiram, envoltas no seu manto de verdura, ou na sua armadura de rochedos vulcanicos, palpitantes ainda com o fogo que lhes lavrava nas entranhas, ou carregadas com a immensa e luxuriante cabelleira das intactas florestas, as ilhas reaes e verdadeiras.