Era inultrapassavel a zona torrida, não a tinham podido franquear os discipulos de Christo, portanto a palavra divina de redempção promettida a todos os que tivessem fé não podia chegar a esses povos que Deus esquecera, o que era completamente absurdo.[36] Se a humanidade toda descendia de Adão, como é que viera ao mundo essa raça humana? Tivera outro Adão como alguns sustentaram que tinha outro sol e outras estrellas?[37] Tudo isso era incompativel com a verdade suprema expressa na Biblia. E demais, se Deus dividira a terra depois do diluvio entre os tres filhos de Noé, se déra a Sem a Asia, a Japhet a Europa, e a Cham a Africa, qual fôra o desconhecido filho de Noé que recebera da Providencia a terra antichthona?[38]

Encontrára-se em parte uma solução para essa dificuldade. Reconhecia-se a existencia da terra antichthona, mas suppunha-se que fôra a habitação da raça humana antes do diluvio. Alli ficava o Paraizo, e alli vagueando em torno da deliciosa habitação para sempre defeza vivera a humanidade criminosa os seus primeiros annos. Na arca de Noé salvara-se uma fraca reliquia d’essa gente condemnada. A arca boiara sobre as aguas e viera poisar emfim no monte Ararat. Nunca mais o homem tornaria a ver a sua antiga patria[39].

Assim Cosmas suppunha um mar immenso coberto de trevas, porque o sol só illuminava a terra, e formando quatro golphos, o Mediterraneo, o mar Vermelho, o golpho Persico e o mar Caspio; para além d’esse immenso mar a terra antichthona, e n’ella o Paraizo[40].

Outros, porém, não se podiam resignar a estar para sempre separados do Paraizo, e collocavam-n’o no extremo Oriente, no sitio onde, ao que diziam, principia o mundo. Esses baseavam-se na phrase do Genesis, que diz que «Deus plantou no Oriente um jardim delicioso». Para além da India, dizia Santo Avito, fica o Paraizo, cercado por barreiras que o homem não pode transpôr. É a theoria adoptada por S. Basilio, Psellus, Philostorgo, Isidoro de Sevilha, Bedo o Veneravel, geographo de Ravenna, Raban Mauro, Hugo de Saint-Victor, Jacques de Vitry, Honoré d’Autun, Gervais, Vicente de Beauvais, Joinville, Jourdain de Sévérac, Omons, que ainda suppunha que lá estava o anjo da espada chammejante, Ranulpho Hydgen, Dati, Bartholomeu Anglicus, Brunetto Latini, Dante, etc. Uns suppunham-n’o erguido n’uma alta montanha, outros n’uma ilha. E em torno d’esta idéa dogmatica ferviam as lendas.

Do Paraizo, dizia-se, saíam quatro grandes rios: o Nilo, o Ganges, o Tigre e o Euphrates. Era necessario, porém, explicar-se como é que estes rios appareciam tão longe da sua celeste origem, e sobretudo como é que o Nilo apparecia na Africa, tendo nascido na Asia. A explicação era a da corrente subterranea, e submarina tambem com relação ao Nilo, quando a supposição de um mar mediterraneo, que trazia comsigo a união da Asia com a Africa, não tornava dispensavel esta conjectura[41].

Esta opinião religiosa perdurou largo tempo no espirito dos homens ainda depois das grandes descobertas. Colombo, cuja alma enthusiastica se deixava invadir facilmente pelas seducções do mysticismo, e que tinha a fé ardente que foi um dos principaes elementos do seu triumpho, nutria a secreta esperança de chegar a esse Paraizo cubiçado, como contava encontrar n’esse Cathay maravilhoso os capitaes indispensaveis para a reconquista do sepulchro de Christo. Era logica a sua esperança. Se elle, partindo do Occidente, esperava chegar ao extremo Oriente, se no extremo Oriente estava o jardim de delicias em que Deus collocara os nossos primeiros paes, como podia duvidar de que o encontraria? Quando na sua terceira viagem chegou á bocca do Orenoque imaginou ter finalmente chegado ao Paraizo terrestre, não pela formosura das paizagens e pela abundancia da vegetação, mas porque, vendo a torrente das aguas do grande rio, suppoz que era um dos que borbulhavam da elevada montanha do Paraizo terrestre[42]. Christovão Colombo não admittia absolutamente a esphericidade da terra. Como varios outros geographos da edade média, que lhe tinham dado uns a fórma ovoide, outros a fórma de um cone ou de um pião[43], Christovão Colombo suppunha que ella teria a fórma de uma pera, e que junto do pé é que estava exactamente o Paraizo[44].

Tambem a esphericidade da terra era absolutamente contradictada pelos Santos Padres, que lhe davam a fórma de um quadrado ou de um parallelogrammo, fórma emfim que se assemelhasse á do Tabernaculo de Moysés. Desdenhando a idéa scientifica oriunda dos Gregos, e sustentada pelos Arabes, vindo talvez para uns e para outros dos orientaes, de que o centro do mundo era Aryn, d’onde se principiavam a contar as latitudes e longitudes, que ficava exactamente a 90° de cada um dos pontos cardeaes, ponto geographico que foi muitas vezes representado pelos cartographos como uma cidade maravilhosa, com um castello, em que habitava um mysterioso soberano, os Padres da Egreja reclamavam para Jerusalem a honra de ser ella o centro da terra, ou pelo menos o centro da terra habitada, quando se imaginava que o resto do mundo estava coberto pelas aguas desde o diluvio.

Finalmente para apresentarmos no seu conjuncto as idéas geographicas affirmadas dogmaticamente pela religião, fallaremos ainda, posto que não interesse a questão dos descobrimentos maritimos, na existencia para o norte das terras de Gog e de Magog. Eram os paizes ao norte da Asia, n’essa região desconhecida em que tambem pullulavam as fabulas, porque era a que se approximava das zonas glaciaes inhabitaveis. Ahi, dizia-se, habitavam os filhos de Caim[45], povos que tinham escapado, ao que parece, do diluvio, não por traz da barreira insuperavel da zona torrida, mas encostando-se ás gelidas barreiras dos polos. Irrompiam ás vezes em incursões ferozes, até que Alexandre o Magno, na sua grande expedição, que ficou legendaria, levantou a grande muralha que poz termo ás suas arremettidas[46]. Disse-se depois que aquellas dez tribus de Israel, que não voltaram do captiveiro da Babylonia, n’essa região mysteriosa ficaram internadas, como depois se disse, quando se descobriu a America e alli se encontrou uma raça de homens desconhecida, que eram ainda as dez tribus de Israel que se tinham perdido n’essas regiões que o Atlantico por tanto tempo escondera detraz da cortina das suas vagas[47].

Assim a fé religiosa, se contradictou n’alguns pontos importantissimos as affirmações scientificas, cerrou ainda mais as portas do mare clausum. O homem não podia chegar á zona torrida, era esse o ponto capital, que a um tempo sustentavam os homens da sciencia e os homens da orthodoxia. Assim que d’ella se approximavam o mar começava a escandecer-se, a terra inflammava-se, montes ardentes reflectiam as suas chammas nas aguas, e monstros extranhos que o calor fazia brotar, plantas extraordinarias que só podiam florescer n’essa monstruosa estufa, começavam a apparecer n’essas terras extranhas. Assim, para o norte, apenas se chegava ás regiões onde soprava um vento glacial, outros monstros appareciam, e os povos ferocissimos de Gog e Magog só esperavam que um audacioso rompesse a muralha de Alexandre que os refreiava para cairem de novo sobre o mundo, entregue assim nas garras de Satanaz.

No centro da terra habitada, que tinha a fórma quadrilateral, erguia-se Jerusalem; no extremo Oriente erguia-se o Paraizo defezo aos homens, e d’onde saíam os grandes rios do Oriente, trazendo ainda nas suas aguas o nateiro fecundante que ia dar como que uns reflexos da vegetação paradisiaca ás terras que atravessava.