Mas tudo isto são contos de velhas, patranhas de viajantes? Não! isto tem, pelo menos em grande parte, um caracter scientifico. A antiguidade o transmittira e o que se não encontrava em Strabão, ou Ptolomeu ou em Aristoteles encontrava-se em Plinio, ou em Solino, ou em Pomponio Mela. Durante os descobrimentos estas noções acompanhavam os nossos viajantes, que, ao passo que destruiam umas, ainda iam acalentando as outras. O mytho das amazonas, que, durante a antiguidade, fluctuára entre a Scythia e os arredores do Egypto, chegou a transplantar-se para a America, e estava na mente do explorador que deu o nome de Amazonas ao gigante fluvial da America do Sul. As singularidades da phenix e do lynce eram perfeitamente admittidas como authenticas, e a dedicação materna attribuida ao pelicano, e que é tão contraria á verdade, que esse passaro, longe de se dedicar pelos filhos, nem sequer os defende como fazem os outros animaes, até ha bem pouco tempo passou por certa. As monstruosidades humanas não espantavam pessoa alguma, e bem o podemos perceber se nos lembrarmos que não estranhariamos monstruosidades semelhantes se nol-as contassem, com certa auctoridade scientifica, dos habitantes da lua. Sabendo como os organismos animaes se adaptam aos meios em que teem de viver, não nos custa a admittir que os habitantes da lua, se não teem ar respiravel, não tenham tambem os orgãos respiratorios, que lhes faltem a bocca e o nariz, e que engulam o alimento, se de alimento precisam, por outra fórma qualquer. Desde o momento que se admittia o rigor inflexivel do sol nas regiões tropicaes, como se não admittiria a existencia dos Himantopodas e dos outros povos em cujo organismo a providente natureza desenvolvera sobretudo os orgãos que tivessem por fim preserval-os do sol?

Assim as affirmações positivas e serias da sciencia eram todas contrarias á navegação para a zona torrida. Tão estranho pareceria a todos tentar-se uma viagem n’essa direcção, como hoje nos pareceria a nós tentar uma viagem em direcção á lua. Azurara, se escrevesse a sua Chronica da Guiné antes dos descobrimentos portuguezes serem conhecidos lá fóra, passaria por auctor de um outro Amadis de Gaula, e ninguem estranharia que a patria de Lobeira produzisse outro escriptor não menos phantasioso, ainda que d’esta vez o conto excedia demasiadamente todos os limites da verosimilhança. Mesmo n’essa epocha de credulidade o livro de Azurara faria sorrir os leitores, se a realidade dos factos não fosse já conhecida de todos, como hoje nos fazem sorrir os romances de Julio Verne.

Mas não apparece agora a todos evidente e claro o absurdo de se suppor que por alguem fomos precedidos nos descobrimentos africanos? Seria necessario suppor, para que os normandos tivessem ido á zona torrida, e creado estabelecimentos na costa e desamparado depois essa navegação sem que ninguem tivesse ligado a essas expedições a minima importancia, seria necessario suppor que as questões geographicas encontravam no mundo medieval a mais completa indifferença, que ninguem sabia se havia zona torrida ou não, e que viagens d’essas não levantavam a minima curiosidade. Não; a edade média preoccupava-se avidamente com as questões de geographia, principalmente depois das cruzadas, e sobretudo depois d’essa grande Renascença do seculo XIII, que foi a aurora do grande esplendor do seculo XVI.

Cosmas Indicopleustas, Jornandés, Gregorio de Tours, Marciano Capella, Vibio Sequester, St.° Avito, e Prisciano e Cassiodoro e Proclo e Macrobio e Paulo Orosio nos seculos V e VI; St.° Isidoro de Sevilha, Philopomus, Bedo o Veneravel, S. Virgilio no seculo VIII, Anonymo de Ravenna, Dicuil, Raban Mauro, Alfredo o Grande no seculo IX, Alfrico, Adelbod, o monge Richer, Moysés de Chorène no seculo X, Herman Contractus, e Azaph o Hebreu no seculo XI, Honoré d’Autun, Othão de Frisa, Hugo de Saint-Victor, Jacques de Vitry, Hugo Metello, Guilherme de Jumiège, Herrade de Landsberg, e Bernardo Sylvestris no seculo XII, Sacro Bosco, Vicente de Beauvais, Alberto o Magno, Rogerio Bacon, Roberto de Lincoln, Pedro d’Abano, e Dante, Cecco d’Ascoli, Roberto de S. Marianno d’Auxerre, Gervais de Tilbury, Pedro des Vignes, Brunetto Latini, Joinville, Omons, Alain de Lille, Guy de Basoches, Engelberto e Nicephoro Blemmyde no seculo XIII, Marino Sanuto, Nicolau d’Oresme, Ranulfo Hydgen, Faccio degli Uberti, João de Mandeville, Boccacio, Petrarcha, Bartholomeus Anglicus, Gervais, Ricobaldi de Ferrara no seculo XIV, Pierre d’Ailly, Guilhermo Fillastre, Leonardo Dati, João de Hése no seculo XV, e quantos outros mais ainda sustentaram e ensinaram as doutrinas cosmographicas que temos exposto! Uns mantinham a doutrina de Ptolomeu de que só a zona torrida era inhabitavel, outros a de que era inhabitavel toda a parte meridional da terra, outros e esses ainda assim rarissimos como Alberto Magno e Roger Bacon, se não acceitavam sem contestação nem como verdade absoluta a affirmação de que era inhabitavel a zona torrida, sustentavam que nem por isso deixava de ser impossivel a transposição dos seus limites, porque o mar immenso a cobria toda, e porque nas terras antichtonas havia as terriveis montanhas magneticas cujo pensamento paralysava os viajantes. Os mappas, que acompanhavam as copias dos manuscriptos antigos, como de Sallustio, do Apocalypse, de Pomponio Méla, de Ptolomeu, e os poemas geographicos, e as Imago mundi e as Thesaurus, e os que se elaboravam nos conventos mais eruditos, todos reproduziam estas affirmações, esta fórma estranha da terra, e inflammavam com a tinta vermelha os mares da zona torrida e inscreviam nas regiões mais proximas, que na Africa principiavam logo ao sul de Marrocos, as indicações dos estranhos povos que as habitavam. E, quando tão arraigada se achava esta convicção no animo de todos, quando no seculo XIV se discutiam com ardor as doutrinas capitaes que expozemos ácerca da zona torrida, a ponto de Pedro d’Abano escrever, com o titulo de Conciliator, um livro destinado, como indica o seu titulo, a conciliar essas doutrinas, quando as viagens de Marco Polo excitavam immensa curiosidade e muita incredulidade tambem, tão estranhas coisas contava—apesar de nenhuma d’ellas destruir afinal de contas os pontos capitaes da sciencia do seu tempo—era possivel imaginar-se que navegadores quaesquer fizessem viagens, que destruissem completamente as noções essenciaes da geographia essencialmente admittida, viagens em que penetrassem na zona torrida não só sem perigo, mas tambem sem encontrar nas regiões circumjacentes nem povos monstruosos, nem animaes estranhos, nem maravilhosas plantas, e que nem esse facto surprehendesse capitães e marinheiros, nem excitasse a curiosidade dos reis, nem dos sabios monges, nem dos que escreviam os poemas geographicos, nem dos que compunham as encyclopedias, nem dos que desenhavam os mappas, nem dos aventureiros dos outros paizes, como succedeu com as viagens dos Portuguezes, que deram logo brado em toda a Europa, como não podia deixar de succeder quando se désse um passo tão gigante no conhecimento do mundo, quando a prôa dos nossos navios, como o teria feito a prôa dos navios normandos, se as suas viagens fossem verdadeiras, fazia cair por terra todo um systema geographico, sustentado desde a mais remota antiguidade pelos respeitados eruditos?

Diz Laplace que o merito de uma descoberta pertence não a quem a faz, mas a quem a demonstra. Aqui dava-se o caso mais notavel ainda, de bastar para a demonstrar fazel-a. Como o philosopho antigo que respondia aos que negavam o movimento andando, os Portuguezes responderam aos que sustentavam a impossibilidade de transpor a zona torrida transpondo-a. Essa demonstração tel-a-hiam feito os Normandos, se antes de nós lá tivessem ido, ou os Genovezes ou os Catalães. A gloria tel-a-hiam elles, mas gloria immediata, porque o facto era de tal ordem que não era necessario que decorressem seculos para se lhe reconhecer a importancia.

No capitulo immediato veremos como a fé e a lenda, ainda mais do que a sciencia, fechavam a zona torrida e os mares, que, no dizer de alguns, a enchiam, á investigação do homem. Essas lendas, como as da sciencia, iam sendo rasgadas a pouco e pouco, mas pendiam, assim esfarrapadas, dos hombros dos navegadores. Lembram aquelles nevoeiros de Cintra, que envolvem o valle e a montanha, tendo por cima o céo azul. Á medida que os transpomos, vão-se rasgando por baixo de nós, surge uma aldeia, irrompe um arvoredo, um grupo de rochas, mas em muitos pende ainda dilacerado o manto do nevoeiro. Assim veremos os navios portuguezes e hespanhoes caminhar envoltos em nevoas, até que a sua audacia tudo rompeu, e o mundo appareceu emfim na sua completa e radiosa realidade.


IV
A religião e a lenda

Se eram estas as idéas scientificas predominantes no principio do seculo XV, é importante saber-se se a religião as acceitava. Era tão poderoso o dogma nos espiritos medievaes que a condemnação de uns certos principios pela auctoridade ecclesiastica bastava para que a grande maioria os suppozesse completamente falsos. Espiritos independentes como os tem havido sempre protestavam contra a condemnação da sciencia pela fé; mas protestavam timidamente, e nós veremos que nos pontos mais capitaes a fé estava completamente de accordo com a sciencia, de fórma que uma e outra fechavam deante das tentativas dos navegadores o mar mysterioso, que a audacia portugueza conseguiu devassar. O principio assente era a impossibilidade de se franquear a zona torrida, mas poucos homens de sciencia punham em duvida que para além da zona torrida existisse outra zona temperada semelhante á do norte, e onde fosse possivel a vida da raça humana. Contra este ponto é que o dogma protestava.