Mas, como diziamos, Ptolomeu entendia e bem que eram duas as zonas temperadas, uma ao norte, e outra ao sul do Equador, mas entre as duas, pela sua theoria, não podia haver communicação. Essa terra é a famosa terra antichtona, a terra austral, o alter orbis que figura conjecturalmente nos antigos mappas, e em que, por mais de uma vez, uns teem querido ver a America, outros as regiões descobertas pelos Portuguezes! A America nunca pela terra antichtona podia ser designada, porque a terra antichtona ficava para o sul, mas tão levianamente homens de merito notavel teem estudado estes assumptos, que se deixaram muitas vezes illudir pela orientação de antigos mappas que é quasi sempre diversa da nossa. O oriente era muitas vezes collocado nos mappas no sitio onde hoje collocamos o norte, o occidente onde fica o sul, o norte para o lado do occidente e o sul para o lado do oriente. Os Arabes então invertiam completamente o systema. O sul fica para o norte e o norte para o sul. Com estas alterações que immenso cuidado é necessario quando se pretendem tirar quaesquer illações dos mappas antigos!

É essa a doutrina que prevalece durante toda a edade média. É Macrobio que suppõe a zona torrida inhabitada e queimada pelos fogos do sol, e a zona temperada austral povoada por homens de uma especie desconhecida[24], Orosio que declara que do interior da Africa nada se pode conhecer porque o calor da zona torrida o reduz a uma brazeira.[25] S.ᵗᵒ Izidoro de Sevilha sustenta egualmente a existencia da terra antichthona onde habitam os antipodas, se não são fabulosos.[26]

Bedo o Veneravel, que tem a sua theoria cosmographica exposta pittorescamente pela comparação do ovo, que vê a terra collocada no meio do mundo como a gemma, a agua em torno como a clara, o ar como a membrana e o fogo como a casca, tambem apresenta a doutrina da terra antichthona separada da nossa pela zona inhabitavel.[27] S. Virgilio imagina que o alter orbis tem outra lua, outro sol e outras estações.[28] Raban Mauro, que falla nos basiliscos fabulosos, e nas Gorgonas cabelludas e phantasticas, tambem indica a terra antichthona separada pelo ardor do sol[29]; Alfrico, Moysés de Choréne, Pedro des Vignes, o famoso Pedro d’Ailly, Marino Sanuto, Nicolau d’Oresme e quantos outros estabelecem e proclamam esta doutrina que é a que tem um caracter scientifico. Quando o mundo christão entra em relações com o mundo arabe então illuminado por uma forte civilisação, quando trava conhecimento com os seus grandes geographos, Edrisi, Abulféda, Masoudi, o que encontra? Encontra a influencia de Ptolomeu alli tambem predominante como em geral a influencia grega, o Almagesto considerado como uma obra divina, e portanto egualmente triumphante a doutrina da antichtona e da zona torrida inhabitavel.

Ha alguns espiritos que se revoltam contra essa idéa? Ha de certo, mas esses são só os espiritos independentes como Alberto Magno, como Rogerio Bacon, como Pedro d’Abano, esses simplesmente não acceitam o que não está demonstrado, mas não vão contra factos incontestados. Assim Alberto Magno não acceita sem demonstração a idéa de que o sol percorra especialmente a zona torrida e a prive de toda a vegetação e de toda a manifestação de vida, mas, não contestando que não ha relações entre a terra que habitamos e a terra desconhecida, attribue esse facto em primeiro logar á immensidade dos mares, em segundo logar á existencia na antichthona de montanhas magneticas que prendem os habitantes e que os não deixam transpôr os incommensuraveis espaços que os separam da terra que habitamos[30].

Rogerio Bacon sustenta opinião approximadamente identica[31]. Pedro d’Abano refugia-se na vaga observação de que o meio deve ser mais perfeito do que as extremidades[32], e uns e outros sustentam que a zona torrida é toda occupada pelo mar, que o Occeano não rodeia simplesmente a terra, que se interna no seio d’ella formando os quatro grandes golphos do Mediterraneo, do Mar das Indias, do Mar Roxo e do Caspio, porque este mar interior foi por muito tempo e por muitos geographos considerado como um mar que communicava ou com o Baltico, ou com o Occeano.

Para todos então a approximação da zona torrida era assignalada pela existencia de monstros, em que se desentranha com uma espantosa exuberancia a fertil imaginação dos povos infantis. A teratologia das antigas religiões transportava-se e desenvolvia-se de um modo prodigioso nas descripções dos mais serios geographos. Nas regiões que confinavam com as que eram defezas aos homens brotavam as plantas maravilhosas, a especie humana torcida e desfigurada desatava-se em fórmas phenomenaes, e ao lado d’ellas percorriam animaes monstruosos, como os que reconstitue para as epochas primitivas a paleontologia moderna, essas regiões devastadas. Para o norte no Caucaso e na Scythia collocava Raban Mauro os gigantes, os gryphos e os dragões que zelosamente guardavam o oiro e as pedras preciosas[33]. Para o sul, segundo o pensar de Vicente de Beauvais, um dos grandes geographos da edade média, havia dragões logo para deante de Marrocos[34]. João de Hase collocou na India os pygmeus que apenas viviam 12 annos, e rochedos magneticos que attrahiam os navios para o fundo do mar[35]. As obras de Plinio eram fonte inexgotavel de extraordinarias divagações. Cynocephalos e acephalos, cyclopes e arimaspes, antipodas que não tinham dedos, hippopodas que tinham pés de cavallo, e juntamente com elles os gryphos pullulavam n’essas regiões mysteriosas, como aviso supremo que a Providencia dava aos que pretendiam penetrar nas regiões em que o sol impera e que o sol devasta.

No famoso mappa da cathedral de Hereford encontra-se uma das collecções mais completas d’essa estranha producção zoologica e anthropologica da sciencia d’esse tempo. E note-se que essa sciencia não a produzia a edade média, colhera-a nos livros da erudita antiguidade. Era lá que ella encontrava os troglodytas que comiam serpentes, eram Mela e Plinio e Vopisco que apresentavam os Blemmyos que tinham os olhos no peito e os Presumbanos sem orelhas. Se seguimos as indicações d’esse famoso mappa-mundi lá encontramos ao norte os gryphos que teem azas de aguia e corpo de leão e que defendem contra os Arimaspes as minas das verdes esmeraldas, os Hyperboreos, povo que conhece a eterna felicidade e que só morre quando, cançando-se de viver, se lança ao mar do alto de um rochedo, e os Scythas de olhos verdes que vêem melhor de noite que de dia, e os minotauros que teem corpo de homem, cabeça, cauda e pés de toiro, e os tigres da Hyrcania a que os homens escapam se, quando fogem deante d’elles, se lembram de lhes atirar um espelho, e na India então a monstruosa mantichora que tem corpo de leão, rosto de homem, cauda de escorpião, tres ordens de dentes, olhos glaucos, côr de um vermelho sanguineo, os pelicanos que abrem o seio para sustentar os filhos, e povos sem nariz, e outros sem lingua, e os Monoculos que teem um olho só, uma perna só e um pé tamanho que, depois de terem andado largo caminho, apesar dos seus poucos meios de locomoção, com uma rapidez prodigiosa, ao descançarem levantam o pé e adormecem á sua sombra.

Na Phrygia apparece o bomaco, um estranho animal, que tem crinas de cavallo e cabeça de toiro, e que se defende, quando foge, com os proprios excrementos que queimam tudo em que tocam, na Arabia a phenix animal unico que vive quinhentos annos, na Bythinia o lynce que vê atravez dos muros e urina uma pedra negra, e até na Palestina tem o rio Jordão, junto do Asphaltite, a designação de que nas suas aguas sobre-nada o ferro e mergulham as pennas.

Na Africa então ha uma verdadeira orgia zoologica, botanica e anthropologica. Alli vive a salamandra, um dragão venenoso que se deleita nas chammas, alli floresce a mandragora, essa planta de face humana que tem miraculosas virtudes, alli corre o éalo, que tem corpo de cavallo, cauda de elephante e queixos de cabra, cujo pello é negro e cujos chavelhos moveis teem uma braça de comprimento. Alli se succedem emfim os Ambaros que não teem orelhas e cuja planta dos pés é queimada, os Scinopodas que teem as mesmas particularidades que os Monoculos, os Androgynos que reunem n’um só individuo os dois sexos, os Himantopodas que arrastam as pernas de fórma que mais rastejam do que andam, os Blemmyos de que já fallámos, os Psyllos que experimentam o pudor das suas mulheres expondo os filhos ás serpentes, os Parvini que teem quatro olhos, os Agriophagos que se sustentam da carne das pantheras e dos leões e cujo rei tem só um olho, e os Virgogicos que habitam em cavernas e comem insectos, e os satyros, e os faunos que são meio homens e meio cavallos, e outros povos que teem o rosto comprimido e se sustentam por meio de um canudo, outros que teem nos hombros os olhos e a bocca e outros que dão sombra ao rosto estendendo um dos labios, tão proeminente elle é, e entre animaes além dos dragões e dos gryphos o famoso basilisco, animal monstruoso que tem na fronte uma faxa branca que imita um diadema, e que empesta o ar que respira, mata as plantas de que se approxima, devasta o paiz que percorre, e a esphinge que tem azas de passaro, cauda de serpente e cabeça de mulher, e o monocerio, que, apesar de ser perigosissimo, quando d’elle se approxima uma donzella que lhe mostra o seio, toda a sua furia se aplaca, e sobre esse seio adormece, e as formigas enormes que guardam as areias de oiro. Alli tambem se encontram montes em fogo cheios de serpentes, montes silenciosos de dia, mas onde, á noite, accorda, á luz de estranhas claridades, o som dos pandeiros dos Egipans, e fontes que punem com a cegueira os ladrões, e o poço maravilhoso, que se conserva todo o anno immerso na sombra, mas que em certo dia, quando o sol chega ao zenith, e os seus raios se projectam verticalmente sobre a sua superficie, se enche de subito de immensa claridade, e cidades como a de Adaber onde os dragões pullulam.