—Não ha pois da terra senão uma só parte habitavel. Que parte?

Pedro—Desde o meio da terra até á parte septentrional.

Moysés—Demonstra-me isso n’uma figura geometrica, porque n’essa materia cada nação tem tido, segundo os auctores, idéas differentes. Divide-se effectivamente a terra em cinco zonas: uma no meio, queimada pelo ardor do sol, e por conseguinte inhabitavel; duas nas extremidades, muito afastadas do sol, e egualmente inhabitaveis, por causa do rigor do frio; e duas médias, temperadas pelo calor da primeira e pelo frio das outras duas, e unicas habitaveis[21].

Pedro—Esse systema está em contradicção com o testemunho dos nossos olhos. Vemos effectivamente Aren situado no centro da terra; no seu zenith principiam o Aries e a Balança; o ar é alli tão suave que a temperatura das quatro estações é quasi sempre a mesma. Nascem alli plantas aromaticas de côr brilhante e de sabor delicioso; os homens não são nem descarnados, nem obesos, mas de uma compleição bem proporcionada. O clima que exerce esta salutar influencia no corpo não actúa menos efficazmente sobre o espirito que brilha pela sensatez e por uma moderação cheia de acerto. Como se pode pois dizer que um logar que o sol percorre em linha recta em toda a sua extensão é inhabitavel? Não: todo o espaço de terra comprehendido entre esse logar e o segmento septentrional é habitavel sem interrupção, e os antigos dividiram-n’o em sete partes chamadas climas, em conformidade com o numero dos sete planetas. O primeiro clima está na linha do meio; ahi é que Aren foi fundado. O setimo occupa a extremidade do mundo septentrional. Nenhuma d’essas partes é inhabitavel, se exceptuarmos os sitios em que grandes massas de areia quasi sem agua ou então montanhas pedregosas se recusam ao trabalho da charrua.

Moysés—Resta-me pedir-te que me demonstres como succede que esta parte da terra que fica para além de Aren para o sul não é habitada como a que está para áquem para o norte, de modo que Aren se ache no centro da região habitavel, ou então tambem porque não é a parte meridional que é habitavel, emquanto a parte septentrional seria inhabitavel, ao inverso do que succede.

Pedro—Porque o circulo do sol é excentrico relativamente ao circulo da terra, e porque essa excentricidade atira a maior parte da circumferencia para uma distancia maior do septentrião. Segue-se d’ahi que, logo que o sol passa para os signos do hemispherio meridional, quer dizer para a parte da circumferencia comprehendida entre a Balança e Aries, approxima-se da terra, e, queimando os seus raios o solo a esta curta distancia, tornam-n’a esteril e por conseguinte inhabitavel. Só a partir do primeiro clima para o norte é que o espaço que comprehende os sete climas é habitavel. Mas tudo o que vem depois a partir do setimo clima é privado de todo o calor, por causa do afastamento do sol, que vae percorrer os seis signos meridionaes; d’ahi o excesso das nuvens, dos nevoeiros e das geadas; e emfim a ausencia de toda a creatura animada n’essa parte da superficie terrestre[22]».

Não era esta, porém, a doutrina de Ptolomeu. Esta era a doutrina que procurava conciliar a theoria scientifica com as palavras da Egreja. A doutrina de Ptolomeu, a doutrina em geral de todos os sabios da antiguidade e da edade média, era que a zona torrida estava collocada debaixo do zodiaco, que, proxima do sol por conseguinte, era por elle abrazada, mas que para além d’essa região havia outra temperada como a nossa, assim como outra tambem glacial como a zona arctica. Essa foi sempre a doutrina predominante, embora contra ella protestasse a orthodoxia; mas qualquer das duas sustentava como facto incontroverso que a zona torrida era absolutamente inhabitavel, quer fosse, como queria Ptolomeu, que o sol, descrevendo um circulo perfeito em torno da terra durante as vinte e quatro horas, e descrevendo-o ao longo do zodiaco perfeitamente parallelo á zona torrida, sobre ella fizesse caïr perpendicularmente os seus raios e a queimasse e destruisse, ou, como pretendia Pedro Affonso, não descrevendo o sol esse circulo perfeito que Ptolomeu imaginára, mas descrevendo um circulo excentrico ao da terra, d’ahi resultasse que, ao passar pelos signos meridionaes do zodiaco, estivesse mais proximo da terra, e fosse o hemispherio meridional o que os seus raios incendiavam.

Devemos notar que esta ultima hypothese era a que se approximava mais da ellipticidade da orbita da terra hoje demonstrada. Se não se suppunha ainda que o sol descrevesse uma ellipse em torno da terra como hoje se sabe que a terra descreve uma ellipse em torno do sol, já se principiava a querer applicar ao sol a theoria dos epicyclos e dos excentricos, com que a astronomia antiga procurava conciliar com a theoria geral do Universo as contradicções que resultavam do movimento apparente de muitos planetas. A theoria de Pedro Affonso conduzia-o á doutrina moderna da periphelia e da aphelia. Adivinhava que ha um periodo em que o sol está mais afastado da terra do que n’outros, e dava-se a coincidencia de que, dando-se a periphelia, quer dizer o periodo de maior approximação do sol, em janeiro, quando é verão no hemispherio austral, d’ahi resulta que effectivamente os verões austraes são mais quentes do que os nossos, e Pedro Affonso adivinhou assim uma verdade hoje perfeitamente demonstrada. Acontece porém que, sendo a terra que se move e não o sol, quando chega a aphelia, quer dizer o periodo de maior afastamento do sol, em julho, sendo então verão entre nós e inverno no hemispherio austral, tambem succede que são os seus invernos mais regelados. Mas, se a terra se conservasse immovel, como até Copernico se suppoz, passando o sol sempre á mesma distancia do mesmo ponto da terra, seria sempre effectivamente o hemispherio austral o que mais lhe sentiria os implacaveis ardores.

Comtudo era incontestavelmente o systema de Ptolomeu que triumphava nas escolas, era esse o que tinha a sua consagração scientifica. Segundo a theoria do grande geographo, a terra espherica estava dividida em cinco zonas, as zonas glaciaes tão longe do sol que a vida era alli impossivel por causa da falta absoluta de calor, a zona torrida tão proxima do sol, que em torno d’ella descrevia a sua enorme e rapidissima viagem, que a vida era impossivel pelo excesso do calor, emfim as zonas temperadas onde nem o calor era extraordinario nem extraordinario o frio, e que a vontade suprema destinara evidentemente para habitação do homem.

Era conforme esta theoria com o espirito, com o pensamento grego que em tudo se manifestava, na arte, na poesia, na philosophia, no viver social e politico. O ideal grego é a moderação e a harmonia. O universo devia regular-se tambem por essas leis harmonicas, que marcam tanto o rhythmo da architectura do Parthenon como o da poesia de Sophocles, tanto o da philosophia de Platão e de Aristoteles e o da eloquencia de Demosthenes e de Lysias como o das concepções mythicas d’aquelle harmonioso anthropomorphismo hellenico, que produziu aquelles typos idealmente bellos nas suas proporções sublimes, Apollo e a Aphrodite. Assim o homem tambem não poderia viver senão nas regiões em que o clima tivesse a harmonia e a moderação compativeis com o desenvolvimento normal da vida humana. Logo que o calor principiasse a exaggerar-se, desmanchando o equilibrio da temperatura, desmanchava-se tambem o equilibrio das proporções e da fórma humana. Por isso nas proximidades d’essa pavorosa zona torrida começava a terrivel degeneração da raça, surgiam creaturas cada vez mais monstruosas, e era assim effectivamente que Plinio explicava essa efflorescencia de monstros que, no seu entender e no entender dos outros geographos antigos, se manifestava nas regiões mais proximas da zona torrida[23], onde desapparecia emfim no immenso incendio com que o sol abrazava o mundo.