III
A zona torrida perante as sciencias da antiguidade e da edade média

Accentuámos bem que tres elementos havia que se oppunham ás expedições que os Portuguezes audaciosamente emprehenderam: a sciencia, a fé e a lenda. Foi a primeira a que se oppoz sempre a que os ousados navegadores da antiguidade lustrassem o caminho que os Portuguezes depois percorreram. Não eram de certo mais terriveis os mares africanos do que os mares da Europa septentrional, e os marinheiros phenicios, que affrontaram a bahia de Biscaya e o canal da Mancha e o mar do Norte até á Islandia, não podiam facilmente assustar-se com os mares muito mais manejaveis da costa africana. Mas a idéa da navegação para o sul fazia recuar os mais audaciosos. Era ahi que o sol estendia o seu terrivel dominio, era ahi que os seus raios queimavam a terra e o mar, e tornavam impossivel a passagem do homem. Á medida que esses calores excepcionaes iam sendo mais proximos, o seu effeito fazia-se sentir na vegetação e na fauna, e na propria humanidade. Então a natureza, violentada por assim dizer, produzia os mais extraordinarios monstros. Por mais de uma vez tentaram os Phenicios e os Carthaginezes demandar essas regiões do sul, mas a mais insignificante estranheza os fazia recuar. De Hannon se conta que percorreu quasi a Africa toda, e no seu periplo se relata essa viagem maravilhosa. Logo mostraremos como elle de certo não passou para além da costa de Marrocos. Gabava-se a sua intrepidez, porque voltára narrando que vira horrorosos monstros, cynocephalos, quer dizer, homens com cabeça de cão, e gorgonas ou mulheres com o corpo absolutamente coberto de pellos. Os escriptores modernos, que teem procurado benevolamente interpretar estas descripções phantasticas, dizem que os cynocephalos eram simplesmente macacos e as gorgonas simplesmente gorillas. Na hypothese mais favoravel para elle, o que isso prova é que, apenas viu na costa de Africa duas especies de macacos, julgou-se chegado ao paiz dos monstros e confirmou todas as mentiras que ácerca das vizinhanças da zona torrida estavam estabelecidas, e não chegou portanto á zona torrida. Mas não é bem mais natural ainda que Hannon, um carthaginez, um africano, não ignorasse a existencia do macaco, e portanto não podesse confundir facilmente o genero simiesco com uma variedade monstruosa do homem?

Essas noções rudimentares de cosmographia, que existiam no espirito dos antigos, chegaram ao seu apogeu com a escola de Alexandria. Sabios notabilissimos imprimiram grandes progressos á sciencia, e principalmente á astronomia. O nome de Ptolomeu e o nome de Hipparcho bastam para fazer a gloria de uma escola, de um paiz e de um seculo. A conclusão a que chegaram era falsa, mas quantas descobertas importantes lhes serviram para assentar os primeiros alicerces de uma sciencia a que pozeram então uma cupula errada, por lhes terem faltado informações e elementos que só a audacia dos navegadores lhes podia levar! Que maravilhosos instrumentos de estudo não encontraram elles! Que calculos levaram a cabo que os sabios do seculo XVI, ao poderem juntar-lhes novos elementos, aproveitaram para a transformação da sciencia! Sem Ptolomeu como se comprehenderia Copernico? Sem Hipparcho o que poderia fazer Tycho-Brahé? N’esta conquista da verdade, os antigos tomaram as obras avançadas e julgaram estar senhores da cidadella; mas, só depois de occupadas essas obras, só depois dos maravilhosos esforços dos navegadores peninsulares, é que se podia descortinar e assaltar a cidadella... E quem sabe se será esta definitivamente a verdadeira!

Mas o que é absolutamente indispensavel saber, para que se possa avaliar a transformação produzida no seculo XV pelos descobrimentos portuguezes, é quaes eram os principios estabelecidos como certos e indubitaveis com relação á terra por esses sabios cuja auctoridade era incontestavel, cujas doutrinas se ensinavam ás creanças, como hoje se ensinam as novas theorias, e que representavam portanto a verdade absoluta d’esse tempo. Alguns pontos havia que encontravam contradicção, como era o da redondeza da terra. N’outros, porém, não havia a mais leve divergencia, como em todos os que se ligavam com o movimento dos corpos celestes, com a marcha do sol em volta da terra para produzir o dia e a noite, com a marcha do sol pelo zodiaco produzindo a differença das estações. Tantas maravilhas conseguira já a astronomia que as doutrinas que ella promulgava não podiam soffrer contestação. Se ella já conseguira adivinhar os eclipses, que maior prova podia dar de que encontrára a chave do mechanismo celeste?

Essas doutrinas de Ptolomeu passaram para a edade média, que teve sempre pela sciencia antiga um louco fanatismo. Encontramol-as ás vezes adulteradas, misturadas com manifestações de ignorancia, com superstições e crendices, mas naturalmente arraigadas nos espiritos, e exaltadas com enthusiasmo pelos sabios da primeira Renascença, pelos que arrancaram das trevas a Europa barbara, e que levantaram como um facho luminoso a doutrina já completa e bem comprehendida do grande geographo antigo.

Vamos encontrar n’um dos livros d’esses sabios medievaes, n’uma d’essas Imago mundi ou Thesaurus, que eram as encyclopedias do tempo, a condensação de toda a sciencia, a doutrina antiga resumida, explicada, mas tambem modificada. Queremos falar nos Dialogos de Pedro Affonso. Os dois que dialogam são Pedro e Moysés. Aquelle é o mestre, este o discipulo.

Diz Moysés: