Que outros condemnem esse implacavel sonhador que fechou a sua alma aos affectos humanos para todo se concentrar na paixão por um ideal que a um tempo o illumina e o allucina! Que outros lamentem esse egoismo de namorado, que o torna surdo para todas as supplicas e inaccessivel a todas as dedicações, mas que nós Portuguezes lhe regateemos a gloria, e lhe amesquinhemos o caracter, e lhe neguemos a indulgencia que a fraca humanidade deve ter com os defeitos que acompanham fatalmente as grandes qualidades, quando a esse egoismo sagrado, a essa perseverança intransigente devemos o termos dado ao mundo a mais assombrosa conquista, e termos conquistado para nós uma gloria que ainda hoje illumina as nossas ruinas, e dá á nossa decadencia a purpura e o oiro de um pôr de sol explendido, isso é o que se não comprehende, e o que se pode considerar como uma das mais flagrantes injustiças e das mais negras ingratidões que podem macular um povo.
VI
Queda das barreiras da zona torrida e primeira exploração do Atlantico
Qual era o ponto de vista do infante, quando começou a dirigir para o sul as expedições? Era simples: Eratosthenes déra á Africa a fórma de um trapezio, sendo o lado septentrional banhado pelo Mediterraneo, o oriental pelo Nilo, o meridional pelo mar desconhecido, o occidental pelo Atlantico. Este lado era o mais pequeno. Pouco abaixo do estreito de Gibraltar a costa voltava para SSE, e ia juntar-se com a costa oriental. Era esta a doutrina geralmente admittida, e assim se representa a Africa na maior parte dos mappas medievaes. Outros, porém, seguiam a doutrina de Ptolomeu que prolongou a Africa, alargando-a na base: e então imaginavam uma costa ficticia ao sul que ligava entre si a Africa Oriental e a Occidental, mas parando em todo o caso para aquem do Equador, porque a zona torrida era sempre considerada inhabitavel, e para além da zona torrida ficava, segundo a theoria de Ptolomeu, a terra antichthona.
Deu isso origem a que corresse a lenda do famoso mappa trazido pelo infante D. Pedro de Veneza, e em que estava traçado o cabo da Boa Esperança, e suppõe-se tambem que o estreito de Magalhães! A confusão é curiosa. O mappa que deu logar a essa lenda é um mappa já posterior aos primeiros descobrimentos dos Portuguezes, representa a Africa terminando n’uma ponta a que dá o nome de cabo de Diab, mas esse cabo está separado do continente africano por um estreito, onde havia, dizia a legenda, a treva absoluta. Parecia que era esse canal a ultima reliquia, que procurava sobreviver ainda, do mar Tenebroso.
Parecia-se esse estreito com o estreito de Magalhães, e, da mesma fórma que muitos confundiram a terra antichthona com a America, para lá lhe passaram o imaginario canal do sul da Africa.
Humboldt, que tão facilmente acceita o que pode redundar em nosso desfavor, ao passo que regeita tudo o que possa redundar em desfavor de Colombo, Humboldt, que não trata de saber se a Guiné a que chegou Bethencourt é a Guiné que os Portuguezes descobriram depois, apesar de acautellar os seus leitores contra os erros que podem resultar da confusão de nomes identicos que se davam a regiões muito diversas, tambem d’esta vez, reconhecendo que os mappas de Toscanelli, onde todos dirão que se encontram as Antilhas descobertas por Colombo, são mappas perfeitamente conjecturaes, não hesita em acceitar o mappa conjectural de fra Mauro, em que vem o Cabo de Diab, como mappa baseado em conhecimentos positivos.[55]
E comtudo fra Mauro nas indicações que acompanham o seu mappa, feito em 1454, é o primeiro a reconhecer os serviços dos Portuguezes, e a declarar que d’estes recebeu muitos mappas, que lhe tinham servido para a elaboração do seu.
«Muitos pretenderam, diz elle, e grande numero escreveram que este mar (o Atlantico) não pode ser torneado, nem navegado, nem ter habitantes nas suas praias como a nossa zona temperada e habitada; mas é agora de toda a evidencia que se pode sustentar uma opinião contraria, principalmente porque os Portuguezes que o rei de Portugal mandou a bordo das suas caravellas para verificarem este facto, referiram, depois de se terem certificado elles mesmos, que tinham explorado esse continente pelo espaço de mais de duas mil milhas desde o sudoeste do estreito de Gibraltar, que em toda a parte os recifes da costa não são perigosos, que as sondas são boas, que a navegação é facil, sendo as tempestades mesmo pouco perigosas. Elles levantaram cartas d’estas regiões e deram nomes aos rios, bahias, cabos e portos. Possúo um grande numero de borrões ou esboços d’essas cartas».[56]