Accrescenta elle, porém, que nenhuma d’essas cartas resolvia a grande questão de se saber-se se podia fazer a circumnavegação da Africa!
É fra Mauro que o diz, no proprio mappa, que prova, segundo Humboldt imagina, que o cabo da Boa Esperança era conhecido mais de quarenta annos antes de Bartholomeu Dias o dobrar!
Não se vê porém que a emenda conjectural nos mappas antigos é aqui evidente? Já estão os Portuguezes a duas mil milhas do estreito de Gibraltar, e a costa africana não volta bruscamente para leste. Não é bem natural suppor a probabilidade de terminar a Africa em ponta, visto que a occidental se dirige para SE, como a oriental se dirige para SO? Como o proprio Humboldt affirma e faz notar, depois dos descobrimentos os cartographos não se limitavam a inseril-os, mas accrescentavam ás regiões descobertas os seus complementos conjecturaes. E tanto assim é que, ao lado do cabo em que a sua phantasia roçou pela verdade, poz um estreito que não existia, que, depois de ter imaginado a Africa torneavel, continúa a dizer que não sabe-se se poderá tornear, e que, ao passo que fundamenta nas descobertas portuguezas a sua descripção da Africa Occidental, nada diz de quaesquer viagens que tivessem podido esclarecel-o ácerca da fórma que podia dar á Africa meridional!
Nada ha mais estranho do que o que succede com os Portuguezes n’esta questão dos descobrimentos. Quando elles os fazem, toda a Europa os applaude, affluem a Portugal aventureiros que querem tomar parte nas nossas expedições, e navegar nas nossas caravelas. Ninguem se lembra de dizer que já sulcaram esses mares, ou que já foram a essas terras. Os Normandos, longe de fallarem em pretenções suas, aconselham a quem queira fazer expedições para esses lados que tome pilotos em Portugal, porque aqui os encontra sabendo bem aquellas derrotas. Os papas concedem-nos o dominio d’essas terras baseado nos direitos de primeiro occupante, os reis de França e de Hespanha, tão ciosos das suas pretenções, reconhecem esse direito sem a minima objecção e até castigam os seus subditos que tentam violal-o, os navegadores de toda a Europa, os taes que nos tinham precedido, o que fazem é tentar surrateiramente seguir-nos e apanhar aos nossos pilotos, comprando-os muitas vezes, os segredos da derrota, os cosmographos e os cartographos com os nossos viajantes mantêem relações seguidas, e nas suas relações e nos seus mappas se baseiam para traçar o que já está descoberto e para conjecturar o que não está; tão corrente é na Europa a historia das navegações portuguezas que, estando ainda bem fresca a memoria d’essas primeiras aventuras do mar, e tendo Colombo residido nas ilhas descobertas pelos Portuguezes, allega, quando na sua primeira viagem se quer guiar pelo vôo dos passaros, que foi assim que os Portuguezes descobriram as suas ilhas,[57] e D. Henrique chama para Sagres o cartographo malhorquino Jayme, e comtudo os seus escudeiros ufanam-se de terem descoberto o Rio do Oiro, e com elles se regosija o infante e se regosija o cartographo, sem que este se lembre de allegar que já por um seu patricio, ou por um seu parente, ou por elle mesmo, talvez, como chega a suppor o sr. D. Cesario Fernandez Duro, esse rio fôra descoberto![58] E seculos depois é que apparecem as estultas pretensões de se querer demolir essa gloria toda em proveito de um desconhecido, mas baseadas em tão frivolos argumentos que bastou que o visconde de Santarem passasse uma revista á cartographia da meia edade, ás suas chronicas, aos seus documentos, aos seus tratados e aos seus livros de sciencia, para que a inanidade de semelhantes affirmações se apresentasse com uma evidencia esmagadora!
Vão pois os navegadores portuguezes caminho da India que é desde o principio o alvo dos seus esforços. Contam que, antes de chegar ao Equador, voltarão para leste, e ha uma coisa só de que n’esse momento D. Henrique duvida, é que o mar das Indias seja um mar mediterraneo. Se o acreditasse, como bem diz Humboldt, não faria a tentativa. Antes, porém, de se aventurarem para além do cabo Bojador, encontram Gonçalves Zarco e Tristão Teixeira Porto Santo e a Madeira, Gonçalo Velho Cabral os Açores.
Muitas vezes os pescadores portuguezes poderiam ter encontrado algumas d’essas ilhas, e possivel era tambem que os nossos navios commandados pelos pilotos genovezes que D. Diniz chamára a Portugal, tivessem arribado a esses archipelagos. Eu mesmo já acceitei um pouco essas doutrinas sustentadas por Major, e a que dava certa apparencia de verdade o modo como Azurara conta o descobrimento. Fil-o, porém, antes de ter estudado mais profundamente a cartographia da meia edade, antes de ter visto como esses cartographos conheciam os phantasticos archipelagos do Oceano Atlantico, e fixavam nos seus mappas as ilhas de S. Brandão, da Antilia, das Almas, do Purgatorio, sonhadas pela imaginação celtica dos povos occidentaes da Europa. Não navegaram os Portuguezes n’um Oceano que imaginavam deserto, mas sim n’um Oceano onde as ilhas pullulavam. Quando a alguma chegavam, não suppunham tel-a descoberto, mas tel-a simplesmente encontrado. Depois de terem descoberto todas, ainda continuaram a procural-as, e hoje mesmo ainda na Madeira se suppõe que a ilha das Sete Cidades se tem conservado escondida, longe das estradas maritimas, por traz de alguma dobra do ainda mysterioso Oceano.
Essa ingenuidade portugueza, que serviu depois para os seus detractores, manifesta-se tambem na exploração das costas africanas. Nenhum navegador suppõe que chega a terra desconhecida. Todos imaginam que não fazem senão encontrar terras cuja existencia não era ignorada pela sapientissima antiguidade. Os nomes de Ptolomeu, de Strabão, de Eratosthenes, de Plinio, de Pomponio Mela e de Solino continuam a ser nomes oraculares para aquelles que estão demolindo o castello de cartas da sua vã e ephemera sciencia. Marco Polo está sendo tambem um dos seus idolos. Chegando ao Senegal julgam ter encontrado o Nilo dos Negros, porque estão ainda convencidos da verdade da velha doutrina, que separa o Nilo em dois grandes braços, um dos quaes se dirige para o Atlantico e o outro para o Mediterraneo. O que os espanta e ao mesmo tempo os exalta é o não encontrarem monstros, as ondas tenebrosas, os montes ardentes, toda a guarda avançada da implacavel zona torrida. Para que primeiro arcassem com esses receios foi necessaria toda a energia do infante D. Henrique, mas a pouco e pouco foram-se familiarisando com esses mares que tão terriveis se suppunham anteriormente, e eram elles que davam a fra Mauro as informações tranquillisadoras que elle insere nas annotações ao seu planispherio.
No ponto de vista em que nós nos collocamos, e que suppomos ser absolutamente verdadeiro, quer dizer desde o momento que sustentamos que o serviço immorredouro que Portugal prestou á civilisação e á sciencia foi o ter demolido a noção consagrada da zona torrida inhabitavel, e que a prova de sobre-humana audacia que os Portuguezes déram foi a de transpor sem hesitação os limites d’essa zona torrida, percebe-se que nos seria completamente indifferente que se provasse que navegadores estrangeiros tinham precedido os nossos nos mares que ficam para além do Bojador. Isso não faria senão levar um pouco mais adeante o ponto de partida das expedições portuguezas indubitavelmente gloriosissimas, e cuja honra Humboldt confessa que nos cabe sem contestação, as expedições á região equatorial.[59] Mas a verdade irrefragavel é que esse limite, que os Portuguezes transpozeram, foi sem duvida alguma o cabo Bojador. Como Humboldt nota, com perfeita razão, o horizonte geographico vae-se alargando a pouco e pouco, e a verdade é que, uma vez ampliado, não se estreita de novo. Para o lado do occidente os primeiros limites foram os do mar Egeu, depois o do meridiano das Syrtes, depois o das columnas de Hercules, depois para o norte o extremo meridiano da Europa, para o sul o da costa africana.[60] Vemos que a mansão da felicidade suprema acompanhou a ampliação d’esse horizonte, primeiro no Oasis do Egypto, depois na Cyrenaica, depois na costa africana, a pequena distancia das columnas de Hercules, depois nas Canarias. Não ha saltos n’este progresso forçosamente methodico. Logo que se transpõe um limite maritimo a navegação prosegue.
Para o sul o cabo Não foi por muito tempo o limite, depois o Bojador. Transpoz-se esse limite em 1433? logo affluiram a Portugal estrangeiros curiosos d’essa novidade, e logo D. Henrique tratou de se assegurar da posse das terras que vae descobrir. Depois da expedição de Antão Gonçalves e de Nuno Tristão em 1441, vão embaixadores portuguezes ao papa Eugenio IV a pedir-lhe as bullas necessarias, e já com Antão Gonçalves na viagem immediata vae o allemão Balthazar, que vem da côrte do imperador Frederico III correr estas novas aventuras.[61] E comtudo desde 1415 se empenhava o infante em explorações maritimas, sem que reclamasse do Papa quaesquer concessões, sem que os estrangeiros se interessassem por essas tentativas infructiferas. Tudo muda de 1433 por deante. Porque? porque se rompera evidentemente mais uma das barreiras que tinham successivamente detido a marcha da humanidade, porque se tinham transposto mais algumas das columnas que formavam o portico do mundo sobre o desconhecido, columnas de Briareu primeiro, columnas de Hercules depois, estatuas das ilhas Khalidat dos Arabes, emfim.
Em 1436 chegou Affonso Gonçalves Baldaya ao Rio do Ouro, ou o que elle suppunha que era um rio, e que não era afinal senão um braço de mar, e, dando-lhe esse nome, conformou-se mais uma vez com o respeito pela tradição antiga, que affirmava que para o lado das ilhas Afortunadas, como dizia Pindaro nas suas Olympiadas, rios que conduziam ouro entravam no Oceano.[62] Assim os Arabes davam o nome de rio do Ouro a muitos, situados muito áquem do cabo Bojador, assim os Catalães chamavam rio do Ouro a um rio que encontravam para além do cabo Não e proximo das Canarias, tanto que no proprio mappa em que se affirma que Jayme Ferrer procurara o rio do Ouro, o traçado da costa não vae além do cabo Bojador.[63] Podia haver mais evidente prova de que o Rio do Ouro catalão não é o Rio do Ouro portuguez? Não fallemos sequer em que o Rio do Ouro de Jayme Ferrer é, como o descreve o manuscripto de Genova, com que se pretende dar authenticidade ao facto,[64] um rio largo em que podem fundear náus potentes, emquanto o Rio do Ouro de Affonso Gonçalves Baldaya nem rio é sequer, e n’elle, segundo affirma o almirante Roussin que o estudou hydrographicamente, só canôas podem entrar.[65] Basta vermos que os mappas em que se baseia a pretenção, param no Bojador, como no Bojador pararam os navegantes a quem depois se quiz attribuir a gloria de o ter transposto.