Em 1441 descobria Nuno Tristão o cabo Branco, em 1443 os ilheus de Arguim, em 1445 acabava-se de descobrir a costa do Sahará e entrava-se na costa da Senegambia, e n’este meio tempo entravam já em Portugal com abundancia os escravos africanos.
Nodoa é esta com que se pretende manchar a gloria dos nossos descobrimentos, como se n’essa epocha em que os proprios brancos ainda tinham, pode dizer-se, roxos os pulsos dos grilhões com que lh’os algemára a servidão da gleba, n’essa epocha em que tinham escravos os proprios mosteiros e as egrejas, se podesse ter ácerca da liberdade do homem as idéas largas que, só uns poucos de seculos depois, e a muito custo, se implantaram na legislação dos paizes mais cultos. E é curioso que sabios escriptores accusem o infante de ter sido o responsavel pela escravatura negra, como se não fosse tão facil ás virtuosas nações, cujo credito elles defendem, eximir-se a seguir tão mau exemplo! como se ao Papa, que representava a suprema lei moral da sociedade de então, não coubesse o dever de conceder as terras, mas de prohibir os escravos! como se não fosse evidente que o mesmo faria qualquer nação que nos precedesse, e que o facto de não apparecerem escravos pretos na Normandia no seculo XIV é mais uma prova contra as suas pretenções! E comtudo a prioridade na escravisação das populações africanas essa é que os Normandos podem reclamar sem contestação, porque, bastantes annos antes de se venderem nas praças de Lagos os escravos da costa africana, já o normando João de Bethencourt, rei das ilhas Canarias, vendêra na Hespanha os seus subditos.[66]
Mas o que dominava sobretudo no espirito de D. Henrique era a anciedade da investigação scientifica e o ardor pela conquista dos grandes ideaes religiosos da meia edade, e é isso o que faz com que o espirito do infante só encontre depois na historia dos descobrimentos outro que com elle se irmane—o de Christovam Colombo. Essa allucinação em que ambos vivem é que os torna proprios para emprezas, que só com grande perseverança se podem realizar, e essa perseverança só a encontra quem tem um enthusiasmo absolutamente exclusivo. Quaes são as instrucções que levam sempre os capitães dos navios de D. Henrique? Procurar identificar os rios que descobrem com o Nilo dos Negros, que a geographia systematica dos antigos considerava como um braço do grande rio egypcio que vinha desemboccar no Atlantico. Julgam encontral-o ao ter chegado ao Senegal como depois o imaginam ainda no Niger, e talvez no Zaire tambem. E tão absortos estiveram por muito tempo os Portuguezes no seu respeito cego pelo saber da antiguidade, que ainda foi um piloto portuguez no seculo XVI que procurou commentar e explicar o Periplo de Hannon, sendo o seu commentario na Italia de todos o mais apreciado.[67] No proprio momento em que podiam justamente ufanar-se de sulcar mares nunca d’antes navegados, ainda se escondiam modestamente por traz da sombra de Hannon, o legendario navegador, que, tendo chegado a algumas leguas do estreito de Gibraltar, imaginou logo ter percorrido um immenso espaço de agua![68]
O outro desejo ardente do infante D. Henrique era encontrar as terras do Prestes João, esse mytho medieval que tomou mil fórmas, apparecia nas mais variadas terras, até que, ao condensar-se na realidade prosaica, appareceu transformado n’aquelle pobre negus da Abyssinia, symbolo curioso da dissolução dos mythos, que no periodo poetico da humanidade se revestem dos mais extraordinarios esplendores, e que nos frios annos da prosa se reduzem ás mais chatas personalidades.
O Prestes João fôra a prolongação pela edade média da lenda da primitiva Egreja Oriental, que déra ao apostolo João, ao discipulo amado, ao evangelista mais querido da imaginação popular, a perpetuidade da existencia. Não acceitou a Egreja a lenda, mas ella permaneceu no Oriente, modificada, fluctuante, desdobrando-se o personagem que é seu protoganista, no apostolo e no presbytero.[69] Talvez porque n’uma das epistolas, conhecidas pelo nome de João, o apostolo, por esse nome se designa este presbytero João, que toma em parte o caracter do apostolo, em parte o caracter de um discipulo do apostolo, torna-se, por assim dizer, a gloria e o tormento da Egreja de Epheso; a gloria, porque essa Egreja se ufana de lhe pertencer o personagem privilegiado que herdou do venerado Mestre o amor e a predilecção do céu; o tormento, porque esse personagem é vago, confuso, indefinido, mal visto pela Egreja em geral, e fonte de possiveis heresias.
Mas entretanto corria a edade média com a sua louca anciedade pelo advento de um mundo melhor. Não se cumpriam as promessas do christianismo. Não chegára o reinado da justiça. Na terra atormentada por mil flagellos arrastava o homem uma existencia atribulada, calcado aos pés pelos poderosos, faminto, presa a cada instante da peste e da guerra implacavel e atroz. Não chegára a era millenaria, a era sublime em que Jesus voltaria, e em que, rodeiado dos seus martyres, como de uma legião sagrada da fé e do bem, reinaria sobre a terra até que ella desapparecesse subvertida no cataclysmo final.
O que nascia, pelo contrario, era a crença desanimadora ao anno Mil, annunciado como o anno em que o mundo acabaria sem ter tido a consolação suprema de vêr o reinado do Bem; mas o anno Mil passou sem trazer comsigo o cataclysmo esperado. Seria afinal verdadeira a promessa do reino millenario, do reino dos martyres, que o Apocalypse de João annunciou? E a idéa d’aquelle Presbytero João, que vive a sua longa existencia nos páramos do Oriente, testemunha millenaria do grande acto da Paixão, fluctúa no animo dos povos. Não será em torno d’elle que se agruparão os bons, os martyres, os fieis, e não será nas suas terras que estará irradiando uma perpetua aurora, tranquilla, suave, toda misericordia e paz, emquanto cá pelo Occidente parece que o sol se afoga todos os dias n’um occaso sanguineo, n’um horizonte perpetuamente em braza, entre os clamores dos miserandos que teem sêde de justiça e o tinir das espadas gottejantes de sangue, o crepitar das chammas dos incendios e o rugido dos mares e as gargalhadas da impiedade? E lá no Oriente, onde existe o Paraizo, começa-se a devanear tambem a existencia de outro Paraizo mais accessivel ao homem, se é que se não confundem n’um só Paraizo aquelle de que o homem foi expulso, e o outro em que o homem ha de entrar, quando lhe franquear a entrada o guarda a quem o confiaram Christo e o discipulo amado.
Essa lenda vaga, ou antes essa incerta aspiração, concretisou-se n’uma d’essas obras anonymas em que o sentimento popular se manifesta, em que os devaneios da sua alma são encorpados, desenvolvidos e ordenados por um trovador ignorado, por um narrador mysterioso, que é afinal de contas quem produz verdadeiramente a obra popular, que depois muitas vezes um grande poeta aproveita para uma obra immortal. Assim se formou a lenda do Prestes João com o seu reino de maravilhas, a do Judeu errante, a do dr. Fausto, a de D. João Tenorio, e a de mil outros, que não tiveram outro berço senão a redacção humilde e vulgar de um pobre sonhador ignorado, que desapparece entre o povo, a quem se attribue a gloria da concepção, e a obra do grande poeta que deu á lenda a fórma definitiva e litteraria que a tornou immortal. O modo como esta lenda se formulou foi na redacção de uma carta dirigida pelo Prestes João ao imperador de Roma e ao rei de França e em que lhes contava as maravilhas do seu reino, onde os homens viviam annos quasi infinitos, onde havia maravilhosas riquezas, onde os animaes e as plantas tinham um tamanho descommunal, e onde reinava a paz e a justiça.[70] O que deu origem talvez á carta, ou o que chamou para esse vago personagem do Presbyter Johannes ou Prestre Jean ou Prestes João a attenção dos povos occidentaes, foi a vinda a Roma[71] de um estranho personagem, que se dizia patriarcha das Indias, que da Asia vinha effectivamente, e que dava noticia da existencia n’essas remotas partes, ou na verdadeira India, ou na propria Tartaria, de christãos convertidos por S. Thomé o apostolo, e que eram evidentemente christãos da heresia nestoriana, christãos dos ritos syriacos, sacudidos da Egreja Catholica, mas possuindo aquella tenacidade de resistencia, que faz com que ainda hoje, em pleno regimen papal e catholico, tenham na India os seus prelados e mantenham os seus ritos estes christãos primitivos.[72]
Assim parece effectivamente que devia ser: porque na carta do Prestes João diz-se que «cada anno, quando S. Thomé vinha prégar a quaresma no seu reino, elle fazia uma peregrinação ao tumulo do propheta Daniel, com dez mil clerigos, outros tantos cavalleiros e duzentos elephantes, que levam, não torres, mas castellos, para exorcismarem e combaterem os dragões que espreitam a caravana na passagem».[73] A lenda do Prestes João localisou-se por conseguinte na India, não, como seria natural, na India verdadeira, mas na India ultima, quer dizer, no extremo Oriente da Asia, onde todas as lendas se refugiavam, a India que ficava para além dos limites das conquistas de Alexandre, e onde o proprio heroe toma tambem um aspecto legendario, como se lhe bastasse tocar n’uma região nevoenta para que o seu proprio vulto em nevoas se envolvesse. Alexandre, já o dissemos, foi para a Europa medieval, como Virgilio, um ente sobrenatural, meio pagão e meio christianisado posthumamente, meio feiticeiro e meio conquistador. É elle, como dissemos tambem, que encerra os povos de Gog e de Magog por traz da famosa muralha, é elle que na sua carta a sua mãe Olympias, carta não menos apocrypha, é claro, do que a do Prestes João, lhe diz que encontrou a arvore do sol e a arvore da lua, e que lhes ouviu os oraculos.[74] É para além do Ganges tambem que os geographos da meia edade imaginaram povos que se sustentam só com o aroma das flores, lenda que vamos ainda encontrar em Camões. É no extremo Oriente que está o Paraizo, e junto do Paraizo, note-se bem, o antro em que S. Macario se escondeu para viver immerso em prece, depois de ter tentado debalde penetrar na morada dos nossos primeiros avós, e foi ahi que o encontraram um seculo depois, e sempre orando, tres monges gregos que tinham ido a essas longinquas partes do mundo para tentarem tambem ver o Paraizo de perto.[75] Avisados pelo exemplo de S. Macario, voltaram os tres monges para traz, mas S. Macario lá ficou orando e atravessando, absorto na prece, os seculos sem fim.