Vê-se pois que aquelles ares do Paraizo espalhavam ainda nos seus arredores umas fragrancias divinas. Parecia que da eternidade promettida a Adão e Eva tinham ficado uns resquicios para os que do Paraizo se approximassem; era para alli portanto que a imaginação popular levaria o reino paradisiaco do Prestes João.
Mas as viagens de Marco Polo vieram dar uma nova physionomia ao mytho do Prestes João, approximando-o da realidade, tornando-o um personagem curioso, mas não rodeiado d’aquelle immenso prestigio anterior. Ou porque effectivamente, como sustenta o grande sinologo Pauthier, elle encontrasse christãos nestorianos na Tartaria, na provincia a que Marco Polo chama Tanduc, que Pauthier identifica com a provincia chineza de Ta-Thung, e esse facto explica-o Pauthier pela entrada de nestorianos persas na Mongolia ou no Thibet, onde teriam feito conversões, e onde effectivamente o soberano chinez lhes permittiu que erigissem um templo, ou porque, como sustentava Stanislas Julien, outro sinologo tambem notavel, Marco Polo tivesse confundido com christãos os budhistas que nas regiões que elle atravessava tinham uma das mais importantes sédes da sua religião, e que ao ver a theocracia do Grão-Lama o imaginasse um padre-rei christão, e o Prestes João por conseguinte, é certo que elle declara ter encontrado christãos regidos por um padre, que descendia em linha recta do Prestes João, que era o seu sexto descendente e que se chamava Jorge.[76] D’elle diz João de Monte-Corvino que o conheceu e o converteu á fé catholica, e Rubruquis tambem declara que na Tartaria encontrou nestorianos que viviam debaixo das leis do Prestes João.
Embora tudo o que se narrava nos livros de Marco Polo estivesse envolvido nos véos do maravilhoso, é certo que esta semi-realisação do Presbyter Johannes estava longe de corresponder ao ideal que d’elle se formára. O personagem legendario não encontrava positivamente n’um descendente chamado Jorge, subdito do Grão-Khan e chefe de uma especie de tribu nestoriana, uma encarnação satisfatoria. Continuou portanto a fluctuar por todo o Oriente, e, como de certo havia noticia vaga da existencia de um povo christão para os lados da Ethiopia, foi para esse lado que se transferiu a localisação da lenda, pois que a India, na edade média, como dissemos, abrangia, pode-se dizer, toda a Asia, parte da Ethiopia, e a indeterminação da residencia do rei legendario caracterisava-se bem com a denominação que se lhe dava de Prestes João das Indias.
Não se imagine portanto que é simplesmente um rei christão perdido no meio da onda musulmana e do paganismo que se procura, o que se procura é o reino maravilhoso das lendas millenarias, é a terra estranha onde tudo floresce com extraordinario viço, onde o oiro, a prata e as pedras preciosas fulguram por todos os lados, onde se vive como que n’um antecipado Paraizo. Procuram-n’o logo na Africa, ao pé de Marrocos,[77] e não havia n’isso contradicção com o nome que se lhe conservava de Prestes João das Indias, porque, segundo a antiga geographia systematica, podia bem ser que a Ethiopia se ligasse com a Asia, e que já n’essas terras ainda proximas de Marrocos principiasse o reino maravilhoso do Prestes João.
É essa anciosa curiosidade que domina no espirito dos Portuguezes, é ella que os arroja aos grandes feitos, ás pertinazes investigações. Como das investigações astrologicas com as quaes se procurava ler nas conjuncções dos astros o segredo dos destinos humanos saía a astronomia, como nas locubrações dos alchimistas se foram desvendando os segredos da chimica, assim na procura ardente do reino do Prestes João se foi desvendando, por tantos seculos escondido, o segredo da geographia africana, o da sua fauna, da sua flora e da sua ethnologia. Logo n’uma das primeiras viagens um audacioso portuguez, João Fernandes, se internou no sertão africano, e por lá andou mezes inteiros, convivendo com os indigenas, aprendendo a sua lingua, estudando os seus costumes.[78] Devia-lhe ter corrido um calafrio nas veias quando abandonou os seus companheiros para se immergir no desconhecido. Ia encontrar talvez os povos monstruosos da tradição scientifica, os troglodytas, os himantopodas, os virgocosgigs, e ao lado d’elles os dragões de terrivel aspecto e o basilisco de halito pestifero, passeiando pelos mattos meio inflammados a sua estranha corôa de horrifico soberano. Era perfeitamente um cavalleiro andante que se arrojava a um mundo encantado, como esses heroes de novellas de cavallaria que ousavam emprehender as mais incomprehensiveis façanhas. Mas tudo elle ousava para conseguir chegar emfim ás terras paradisiacas em que o Prestes João reinava, e, quando elle voltou, depois de longos mezes, não trazia noticias nem de monstros horrendos, nem de reinos maravilhosos, mas trazia, o que valia mais que tudo isso, o conhecimento exacto da Africa interior, a revelação para a sciencia de um mundo ignorado, de arvores soberbas, que não eram a phantastica mandragora, mas o baobah agigantado e verdadeiro. Supprimia a flora sobrenatural, mas ampliava os dominios da flora verdadeira; acabava com a fauna phantastica, mas alargava os dominios da zoologia verdadeiramente scientifica. E, da mesma fórma que os alchimistas, ao procurarem nas suas longas vigilias a pedra philosophal, encontravam o segredo das combinações chimicas, assim estes audazes alchimistas do Oceano, ao procurarem o Prestes João, que era a pedra philosophal dos sonhos geographicos da meia idade, encontravam um mundo inteiro, que valeu mais para a riqueza scientifica e para a opulencia do commercio do que todos os reinos fabulosos banhados por phantasticos Pactolos e scintillantes de oiro e de pedraria.
Quando o infante D. Henrique morreu, já os Portuguezes tinham conhecido o cabo Branco e o cabo Roxo, e o cabo Verde e as ilhas que d’este cabo tomaram o nome, e os rios Senegal e o Gambia e o Casamansa. Os terrores da zona torrida tinham desapparecido, posto que se não tivesse chegado ainda ao Equador, mas era evidente já que o mundo não alterava o seu aspecto com a approximação da equinoxial, e que os monstros não existiam senão na imaginação dos geographos, que se não encontrava senão a variante negra da raça humana, e que os novos passaros que appareciam, depois classificados pelos zoologos como remora, phenicoptero, bucerus africano ou pristis, enriqueciam as collecções ornithologicas, mas não a teratologia. E estas conquistas positivas deviam-se ao enthusiasmo e á sede do ideal. Nada se faz grande no mundo sem esse grão de loucura, que desequilibra um pouco o genio dos grandes poetas e dos grandes descobridores. A pedra philosophal transmuda deveras o cobre vil em oiro, porque é ella, como symbolo de todos os ideaes phantasticos, que faz da quebradiça argila de que se formou o homem o bronze em que se fundem os ousados pensamentos, que transforma no oiro das grandes almas o minerio banal dos espiritos vulgares.
E era exactamente o que havia de estranho e de louco nas expedições portuguezas que chamou para aqui os aventureiros e os ousados. Os Venezianos como Cadamosto, os Genovezes como Usodimare, vem aqui buscar simplesmente emprego para a sua actividade de marinheiros; os Malhorquinos como Jayme de Malhorca vem para um centro de actividade scientifica, mas esse Valarte que vem do fundo do Norte, das remotas regiões da Suecia, vem em demanda do ideal, esse loiro Scandinavo, que traz no olhar o azul dos seus lagos e no rosto a candidez das suas neves, vem procurar a estas regiões de aventura a barca dos cysnes dos Eddas que o ha de levar atravez dos mares da lenda ás regiões dos sonhos. Para esses e para muitos outros Portuguezes, como o velho Soeiro da Costa, como esse Alvaro de Freitas que tanto acaricia a idéa de ver de perto o Paraizo terreal,[79] é um romance de cavallaria que se está pondo em acção na patria de Amadis de Gaula. São os Templarios resuscitados que investem com o mar como os Templarios antigos com as ondas dos sarracenos, e o manto branco da ordem de Christo que fluctua ao sopro do vento, e a bandeira com a cruz vermelha que palpita na popa das caravelas com os bafejos do Oceano são os ultimos symbolos d’esse idealismo da idade média cavalheiresca que vae dissolver-se na epocha burgueza que já apparece no horizonte dos tempos. E esse rijo cavalleiro, ascetico, tenaz, que do alto do promontorio de Sagres lança os seus legionarios á conquista do desconhecido, ao cair prostrado pela morte, sem ter ainda encontrado o edeal que lhe absorvera a existencia, desapparece da scena do mundo, deixando resolvido um dos grandes problemas da existencia humana na terra, no mesmo momento em que outro cavalleiro andante, esse deveras o ultimo, Christovão Colombo, o Genovez, já vagueia, sonhador e pensativo, nas praias do Mediterraneo, escutando esse rumor de gloria e de aventura que vem do Occidente, e revolvendo na imaginação juvenil a solução de outro problema geographico, que ainda ficava em aberto, e que ia dar ao homem emfim a Terra inteira por dominio.