VII
Preludios açorianos e madeirenses do descobrimento da America
Emquanto os Portuguezes proseguiam intrepidamente para o sul no caminho da zona torrida o que se fazia para o Occidente? Era possivel, era natural, que a descoberta do Porto Santo, da Madeira e dos Açores satisfizesse completamente a curiosidade portugueza? Os que defendem as duas versões ácerca do descobrimento dos dois archipelagos commettem uns e outros um erro capital; uns suppondo que os Portuguezes não os encontraram senão porque antes d’elles lá tinham aportado outros navegadores, de cujas informações os nossos se aproveitaram, os outros imaginando que antes das descobertas portuguezas se considerava como completamente vasia de ilhas a vasta extensão do Atlantico. Descobertas positivas não as podia ter havido, porque ás terras que podessem ter-se descoberto aconteceria o que succedeu ás Canarias, que logo foram cubiçadas e disputadas. O que havia era o sonho celtico das ilhas mysteriosas no seio do Atlantico, e em busca d’esse sonho quantos navios teriam corrido, sem que das suas tripulações voltasse ás costas européas nem sequer o cadaver do cão da frota legendaria de Brékan. Mas essas ilhas phantásticas estavam profundamente radicadas no animo dos homens da edade média, e a ilha de S. Brandam tinha para elles existencia tão real como o reino mysterioso do Prestes João. Ah! quem a encontrasse, quem arribasse a uma ilha qualquer no meio da vastidão dos mares, como voltaria contente e triumphante do seu achado, doido de alegria por ter conseguido emfim fixar n’um ponto do Oceano alguma d’essas ilhas que fluctuavam no mar da lenda, filhas da miragem do mar como da miragem do sonho; ilhas phantasticas como o navio phantasma da lenda hollandeza, que todos suppunham avistar ao longe, recortando na tela de oiro e purpura do horizonte o fino perfil das suas arvores, ou a ondulosa curva das suas montanhas!
Deserto o Oceano? Não. Estava povoado, pelo contrario, de muito mais ilhas do que as que se encontraram! E quando o infante D. Henrique mandou os seus navegantes procural-as, é porque tinha a convicção profunda de que existiam, e os seus audazes marinheiros o que julgavam era seguir o sulco espumoso do barco do santo irlandez, como quando seguiam, segundo a phrase de Colombo, o vôo das aves que os conduziam a terra, cuidavam seguir talvez, alados mensageiros celestes que os conduziam ás ilhas de promissão, ou pelo contrario demonios encarnados em passaros, que os arrastavam ás ilhas infernaes.
Os que trazem com ufania, como uma conquista para a historia, a lenda da ilha da Madeira descoberta antes de Zarco, ou a dos Açores antes de Velho Cabral, partem da errada supposição de que esses ignotos descobridores deram grande novidade aos Portuguezes dizendo-lhes que havia ilhas no Oceano! Bem convencidos estavam d’isso, mas a questão era encontral-as. Feliz o paiz que as descobrisse! Não as largava facilmente! A posse tranquilla e indisputada da Madeira e dos Açores prova bem que ninguem punha em duvida o direito de prioridade que os Portuguezes se arrogavam.
O que faziam porém os colonos d’essas novas ilhas, tudo gente marinheira e aventurosa, que não ficava socegada no pequeno pedaço de terra em que se achava confinada? N’elles se condensava, pela sua posição especial, pelo espirito mais aventuroso que a essas ilhas os levou, a tendencia emigrante dos Portuguezes. Não é essa tendencia a que ainda hoje domina nos habitantes d’essas ilhas? Não foram sempre os Madeirenses e os Açorianos os que predominaram na colonisação portugueza? Não foram elles, sobretudo, que fizeram o Brazil colonial? Não são os Açorianos quasi exclusivamente os Portuguezes que vamos encontrar na America do Norte, em Boston, e até na California, e, o que é mais estranho ainda, á beira da rede dos lagos que separam os Estados Unidos do Canadá, sendo tão numerosa a colonia portugueza de Erié, que alli se publica um jornal portuguez, chamado o Erié tambem? Não são os Madeirenses que nós vamos encontrar em Demerara, nas ilhas Sandwich, e que estão formando, em Angola, o nucleo das colonias do plan’alto de Mossamedes? E se isto acontece hoje, no nosso periodo de decadencia, de repouso, quando esse instincto emigrante é perfeitamente atavico—não era bem natural que acontecesse de um modo muito mais independente n’esse periodo de vigor e de febre descobridora, e quando os que habitavam a Madeira e os Açores não eram os que lá tinham nascido, mas sim os proprios que as tinham descoberto, ou os que primeiro, idos de Portugal, as tinham colonisado?
Na descoberta africana logo encontramos os Madeirenses. Entre os mais audaciosos descobridores conta-se Alvaro Fernandes, sobrinho de João Gonçalves Zarco, e com elle o seu companheiro de seu tio no descobrimento do archipelago, Tristão Vaz Teixeira.[80]
E acabemos por uma vez com a accusação que se nos fez de que nos limitámos a uma navegação costeira, e de que receiavamos sair para o mar alto! Como se pode dizer isso de um povo, cujos primeiros descobrimentos exactamente no mar alto é que se fazem, cujos coups d’essai são as viagens em que encontram a Madeira e sobretudo os Açores, cercados de um mar tempestuoso e terrivel, ainda hoje considerado como o de mais aspera educação para o marinheiro, e que estão mais avançados para o occidente do que a propria Islandia, essa ultima Thule, onde parou por tanto tempo amedrontada a navegação antiga?
Mas, percebe-se bem que, desde o momento que o fito das viagens portuguezas era chegar á India torneando a Africa, desde o momento que a geographia systematica dos antigos lhes dizia que logo abaixo de Marrocos principiava a Ethiopia, e que a costa logo fazia uma inflexão para léste; era essa volta da costa que elles sobretudo procuravam encontrar, e decerto não a encontravam abandonando a costa. E, comtudo, quantas vezes, fatigados d’essa investigação inutil, soltavam os nossos navegadores as velas ás brizas do Oceano, e percorriam de um vôo um grande espaço, chegando a um ponto muito adiantado da Africa e tendo depois de voltar atraz para explorar miudamente o trato de costa que tinham deixado em branco![81]
Navegadores do seculo XV não podiam positivamente achar-se confinados nos estreitos limites de umas ilhas perdidas no meio do Oceano, sem terem a tentação irresistivel de sondar esse mar mysterioso, sobretudo quando a lenda confirmada pela sciencia conjectural d’esse tempo lhes fallava de ilhas maravilhosas a que não tinham chegado ainda, e quando as vagas do Oceano lhes traziam a cada instante a prova evidentissima de que para além d’esse horizonte branqueado pela espuma das vagas distantes, havia terras, terras habitadas, terras cobertas de vegetação. Sobretudo nos Açores os documentos multiplicavam-se e as tentações eram mais fortes. As ilhas não se apinhavam n’um só grupo como Madeira e Porto Santo. Havia ilhas destacadas como as vedetas d’essa guarda avançada da civilisação europea. Ainda se perceberia que taes tentativas se não fizessem, se não se houvesse chegado á ilha das Flores e á ilha do Corvo. Podia-se comprehender então que, satisfeitos com as ilhas paradisiacas que tinham encontrado, como a deleitosa S. Miguel, ou a fertilissima Terceira, se tivessem deixado ficar n’um ocio de Capua, sentimento aliás bem pouco natural em açorianos, e em açorianos d’esse tempo. Mas a descoberta do Corvo e da ilha das Flores mostram claramente que se não acalmára a sua irrequieta actividade, e que o Oceano continuava a ser sondado por esses audazes marinheiros, que são hoje accusados de não ousarem arriscar-se ás aventuras do alto mar!
«A Islandia, os Açores, e as Canarias, diz Humboldt, são os pontos de paragem que mais importante papel representaram na historia d’estas descobertas e da civilisação, quer dizer na série dos meios que os povos do Occidente empregaram para estender a esphera da sua actividade e para entrar em relação com as partes do mundo que lhes tinham ficado desconhecidas.» Em nota accrescenta Humboldt: «Ha da extremidade septentrional da Escocia á Islandia 162 leguas marinhas; da Islandia á extremidade sudoeste da Groenlandia 240 leguas; d’esta extremidade ás costas do Lavrador 140 leguas; á embocadura do S. Lourenço 260; da Islandia directamente ao Lavrador 380 leguas. Ha de Portugal (embocadura do Tejo) aos Açores (S. Miguel) 247 leguas; dos Açores (Corvo) á Nova Escocia 412 leguas!»[82] É isto o que explica de um modo bem positivo como foi que os intrépidos marinheiros da Islandia poderam encontrar a America, e não a poderam encontrar os não menos intrépidos marinheiros dos Açores. É isto o que responde, de um modo bem cathegorico, tambem, aos que dizem que os Portuguezes não largavam as costas. Um povo que nas suas primeiras viagens percorria 247 leguas maritimas para encontrar um ponto perdido no meio do Oceano, e que o fixava, e que n’essas ilhas ou proximas ou distantes estabelecia colonias regulares e em constante communicação com a metropole, era um povo que se encontrava bem mais apto do que outro qualquer para as grandes navegações maritimas, era um povo que os pavores do Oceano não obrigariam a desistir de tentar novas emprezas. Ah! se a Providencia, em vez de ter agrupado os Açores n’um só ponto, destacando apenas como sentinellas avançadas as Flores e o Corvo, as tivesse disseminado por toda a extensão do Atlantico, fazendo de todas ellas os marcos milliarios d’esse vasto percurso maritimo, como foram as Orcades, as Feroé, a Islandia e a Groenlandia para o continente norte-americano, seria talvez Colombo, mas Colombo em navios portuguezes, que teria realizado a empreza que de tão justa gloria rodeiou o seu nome. Mas razão tem de sobra o nosso illustre patricio, o eminente escriptor Ernesto do Canto, quando diz: «Foi certamente com a pratica da navegação para os Açores que os pilotos portuguezes se aperfeiçoaram nos processos de observar os astros para d’essas observações deduzirem a sua posição nas solidões do Oceano ou das terras que demandavam. Sem esta escola todo o progresso seria lento. A existencia e o achado do archipelago açoriano foi pois a causa determinante das posteriores e importantes descobertas do seculo XV.»[83] E razão tem ainda quando encima o capitulo IV da sua obra com esta affirmação justiceira: «Os Açores foram um posto avançado para a descoberta da America e um fóco de irradiação para as explorações maritimas.»[84]