Como podiam os açorianos pois desprender a sua attenção d’essas terras do occidente se ellas a cada instante se faziam lembradas, arrojando-lhes troncos de arvore, pedaços de madeira lavrada, canoas e até cadaveres de homens de estranha physionomia?[85] Era o que succedia tambem na Irlanda, e o que tambem incitava os Irlandezes a procurar essas mysteriosas terras. Note-se, porém, que as circumstancias eram um pouco differentes. O genio aventuroso e emigrante dos celtas da Irlanda podia-os levar, e levava-os effectivamente, a navegar para os lados occidentaes; em todo o caso os Irlandezes estavam na sua patria e na sua casa, viviam na terra em que tinham nascido, prendiam-se ao solo por estas mil raizes tenues e poderosissimas que reagem insensivelmente contra o espirito de aventura, emquanto que esses primeiros colonos dos Açores, transplantados do solo natal, arrastados alli pelo desejo de tentar fortuna, achavam-se já elles proprios em plena aventura, estavam fundeados no meio do Oceano, e emquanto esse navio, porque até as agitações vulcanicas das ilhas faziam com que o solo lhes palpitasse debaixo dos pés como a tolda de uma embarcação, se não tornava para elles uma nova patria, estavam promptos sempre a saltar para as lanchas e a ir demandar nova poisada. Succedia um pouco a mesma coisa aos Madeirenses, mas esses, mais proximos da Africa, menos mettidos pelo Oceano, para a Africa, que era a grande e exclusiva preoccupação portugueza, voltavam naturalmente a attenção e os esforços. Os Açorianos, destacados perfeitamente do grande corpo de exercito, fóra da corrente das navegações methodicas que o infante D. Henrique dirigia, para o occidente e só para o occidente deixaram voar as suas aspirações.

É a prova d’isso que nós encontramos no proprio Herrera quando dá conta das revelações que incitaram Colombo a intentar a sua empreza. Foi a narrativa do piloto açoriano Martim Vicente, que, navegando a 450 leguas da costa de S. Vicente, encontrou boiando nas aguas um pedaço de madeira lavrada; foi a dos mareantes, que, saindo do Fayal, correram 150 leguas ao occidente, e que, voltando, encontraram a ilha das Flores. E, como n’um escripto publicado ultimamente na Illustracion española y americana se tratava com desdem este facto, alcunhado até de phantastico, paremos um instante para mostrar a sua perfeita authenticidade.

Foi Herrera que escreveu o seguinte: «Uno llamado Diogo de Tiene (Teive), cuyo piloto Diego Velasques vezino de Palos, afirmó a Don Christoval Colon, en el monasterio de Santa Maria de la Rabida, que se perdieron de la isla del Fayal, y que anduvieron cento y cincuenta leguas por el viento Leveche, que es el Sudueste; y que á la buelta descobriron la isla de las Flores, guiandose por muchas aves que vian boiar házia allá, las quales conocieron que non eran marinas.»[86]

Lembram-se os leitores de que o proprio Christovam Colombo, no seu Itinerario, quando diz os motivos porque mudou em certa altura o rumo da sua viagem, refere que o principal foi o exemplo dos Portuguezes, que, seguindo o vôo das aves, tinham descoberto as suas ilhas.

Mas temos mais, temos o documento authentico que mostra que foi effectivamente esse Diogo de Teive que descobriu a ilha das Flores. É a carta de doação da ilha das Flores a Fernão Telles, feita por D. Affonso V em Estremoz a 28 de janeiro de 1475, e onde diz:

«Outrosim nos praz e queremos que o dito Fernão Telles tenha e haja e assim seus successores as ilhas que chamam das Flores que pouco ha que achára Diogo de Teive e João de Teive seu filho, e elle dito Fernão Telles ora houve por um contracto que fez com o dito João de Teive, filho do dito Diogo de Teive que as ditas ilhas achou e tinha, e isto n’aquella forma com aquellas condições e maneira que as elle houve do dito João de Teive e que ficaram por morte do dito seu pai e no dito contracto é contheúdo.»[87]

Mas os documentos não faltam para provar a actividade febril com que os Açorianos se arrojavam ao mar Oceano. N’essa mesma carta de doação se vê que Fernão Telles era um dos exploradores ou dos emprezarios d’essas explorações:

«A nós praz, diz El-Rei, que indo elle ou mandando seus navios ou homens nas partes do mar Oceano ou alguem que por seu mandado a isso vá, lhe fazemos mercê, pura e irrevogavel doação para todo o sempre, como logo de feito fazemos, de quaesquer ilhas que elle achar ou aquelles a que as elle mandar buscar novamente e escolher para as haver de mandar povoar, não sendo pois as taes ilhas nas partes de Guiné.»[88]

Felizmente os documentos publicados pelo sr. Ernesto do Canto lançam vivissima luz n’este periodo preparatorio do descobrimento da America, e explicam com uma clareza perfeita as questões relativas a Colombo e a Portugal. Assim vemos primeiramente que os Açorianos e os Madeirenses não deixam de procurar terras para o occidente, e que tratam de obter do governo as concessões necessarias para que das suas conquistas e descobertas tirem a utilidade que desejam; segundo que os reis se mostram prodigos em fazer a esses exploradores todas as concessões desejadas, comtanto que do real thesouro não tenham de gastar nem mealha, e que esses exploradores por conta propria não vão entender com os descobrimentos para o lado da Guiné, que esses reservam-n’os para si ou para a ordem de Christo os soberanos portuguezes. E tão arraigado estava no espirito dos soberanos o desdem pelas viagens occidentaes que, ainda depois de descoberta a America, o proprio Gaspar Côrte-Real fez a viagem em que descobriu a Terra-Nova completamente á sua custa.