I
Os problemas geographicos do seculo XV
A festa do centenario de Colombo deve acima de tudo ser uma festa de justiça e um dos grandes jubileus da humanidade. Os centenarios dos grandes homens e os centenarios dos grandes acontecimentos são as solemnidades com que se festeja sobretudo a chegada a cada um dos marcos milliarios da estrada, que até agora parece ser infinita, do Progresso. Lançando os olhos para o passado, vê-se que a humanidade não parou um só instante na sua marcha para um fim ainda hoje desconhecido. Parece ás vezes aos observadores superficiaes que ha epochas em que se recúa, porque se extingue uma luz que brilhava com immensa intensidade, ou porque retrocede uma ou outra das legiões que formam o immenso exercito da especie humana; mas, se ha umas que retrocedem, porque estavam muito adeante das outras, estas em compensação avançam e ganham o terreno perdido pelos seus companheiros de jornada. Se um clarão se apaga, outros ha que se accendem em pontos que até ahi estavam immersos em trevas profundas. O nivel da humanidade restabelece-se como se restabelece o nivel das aguas depois dos grandes cataclysmos que afundam as mais altas montanhas, e que deixam enxutas immensas planicies cobertas até ahi pela vaga. Assim não ha um só dos grandes cataclysmos historicos de que não resultasse um progresso. Mudou-se a fórma da civilisação occidental quando cahiu o imperio romano. Ao impulso dos barbaros alluiram-se as instituições e os monumentos, a sciencia e as lettras eclipsaram-se, mas a alma humana illuminou-se com a irradiação do Evangelho que só n’essa raça virgem que vinha do Norte e do Oriente podia accender os candidos explendores que foram como que novas estrellas no nosso firmamento moral, que foram a divinisação da mulher e a apotheose da familia e ao mesmo tempo a esperança immortal que expirára no mundo antigo podre de civilisação e que reviveu no mundo barbaro. Cahiam deante do alvião vandalico os monumentos magestosos de Roma e as puras obras primas da Grecia, mas erguia-se envolta n’um nimbo estranho de fé e de poesia a cathedral gothica, e recortavam-se em mil caprichos phantasticos as torrinhas e as innumeraveis agulhas dos paços municipaes, em que a burguezia ostentava, em frente da realeza da espada, a realeza do trabalho. Desappareciam debaixo dos codices monachaes as obras primas dos tragicos e as epopéas gregas, mas a alma complexa da tumultuosa meia edade palpitava nos tercetos de Dante. E, quando a invasão musulmana derrubava no Oriente o ultimo baluarte da antiguidade erudita, quando a Grecia via os seus marmores despedaçados pelas ferraduras dos cavallos do deserto, e o Egypto as suas esphinges sepultadas nas nuvens de areia que as hordas arabes levantavam, no Occidente arrancava Colombo á esphinge do Oceano o seu segredo secular, fixava para sempre Guttemberg os vestigios do pensamento humano, e ás portas orientaes, vindas de remoto occaso, assomavam as prôas das caravelas portuguezas, que acabavam de sulcar, vanguarda da civilisação, as ondas do mar Tenebroso illuminadas pela sua audacia.
Estas festas devem ser porém acima de tudo as festas da justiça, porque n’ellas devem emmudecer perante a grande causa da humanidade as mesquinhas invejas, as pequeninas rivalidades nacionaes, com que por muitas vezes se procura deslustrar a memoria d’aquelles, que foram os agentes providenciaes d’estas grandes transformações. O progresso humano obedece a leis de uma ineluctavel logica. Não ha saltos nem lacúnas. Tudo se succede com uma logica surprehendente. As grandes descobertas derivam-se umas das outras. Todo o grande homem tem os seus humildes predecessores. O seu genio fórma-se com elementos dispersos que elle aproveita, concatena, e de que tira só elle o resultado fecundo. Não foi Watt que inventou a machina de vapor, mas a elle e só a elle cabe a gloria do invento, porque foi o seu genio que encontrou o segredo capital, sem o qual essa machina não seria sempre senão uma curiosidade, inutil para os grandes progressos da sciencia e da industria. Não foi Colombo sem duvida o primeiro que sonhou que para além das vagas do Atlantico se encontrava terra, nem o primeiro que devaneou que a marcha de um navio pelo occidente o deveria conduzir ás plagas orientaes da Asia. Não foi o infante D. Henrique o primeiro que pensou que, torneando a Africa, se poderia chegar ao mar Roxo e á India, mas foram Colombo e o infante D. Henrique que tiveram a audacia, a fé e o espirito scientifico, foram elles que romperam os obstaculos, deante dos quaes recuava pallida e tremente a multidão dos navegantes, ou refugia hesitante o sonho de alguns capitães devaneadores. A elles cabe sem duvida a gloria incontestavel, perante elles se deve curvar com respeito a humanidade, que só a elles deve a conquista maravilhosa de mais de metade da terra.
Quando vejo a azafama com que procuram ainda hoje espiritos demolidores sustentar que os Portuguezes foram precedidos por outros povos nos seus descobrimentos, que teve Colombo predecessores no descobrimento da America, pasmo que se não veja claramente o obstaculo deante do qual baqueiam todos os seus argumentos. Esse obstaculo é o seguinte: antes dos navegadores do infante D. Henrique terem demonstrado o contrario, era ponto incontestavel para todos a impossibilidade de se viver na zona torrida. Antes de Colombo ter mostrado o contrario, era ponto incontroverso que a immensa extensão do Atlantico tornava impossivel que um navio, caminhando na direcção do occidente, encontrasse terra antes de terem perecido de fome e de sede todas as tripulações. Pois, se um navio qualquer tivesse, como se diz dos navios dieppezes, chegado antes de nós ás costas da Guiné, não estava desde logo quebrado o encanto, não cahia por terra toda a geographia systematica dos antigos, não estava aberto para sempre o mare clausum, e podia alguem sustentar ainda que era inhabitavel a zona torrida, quando havia em França marinheiros que a tinham atravessado sem perigo, que tinham voltado incolumes, deixando n’essas regiões que todos diziam completamente queimadas pelo sol colonias florescentes como esse Petit-Dieppe e esse Petit-Paris, que ainda hoje são citadas por escriptores francezes notabilissimos, em cujo espirito um mal-entendido amor patrio parece extinguir completamente a faculdade do raciocinio? Seria necessario que essa descoberta fosse completamente inconsciente, que os marinheiros nem soubessem que tinham entrado na zona torrida, e essa ignorancia é completamente incompativel com os conhecimentos embora rudimentares que precisava de ter o navegador que se arriscava a tão aventurosas viagens.
O mesmo diremos das navegações antigas de que se encontra noticia nos livros de Herodoto e no Periplo de Hannon. Se os marinheiros phenicios de Necho tivessem dado volta ao cabo da Boa Esperança, e tivessem entrado no Mediterraneo pelo estreito de Gibraltar, percorrendo tão immensa extensão de costas, como poderiam persistir no espirito dos geographos antigos idéas tão absolutamente falsas a respeito da configuração da Africa e da distribuição das zonas? Pode allegar-se por acaso que essa viagem não deixou vestigios, quando vemos que as viagens dos Phenicios nos mares da Europa tão difficeis e tão inhospitos foram sempre continuadas, que nunca se perdeu o conhecimento da Islandia, essa terra gelada, e que pelo contrario perderam immediatamente esses Phenicios, esses Orientaes, que viviam nas terras ardentes, o conhecimento de costas que o sol tambem aquecia e em que encontravam muitas vezes como que a reproducção das suas terras nataes? E não seria extranho tambem que Hannon tivesse feito a longa viagem que do seu Periplo se quer deduzir que fez, e que se apagasse completamente na memoria carthagineza o conhecimento das terras percorridas em tão memoravel expedição, preferindo tambem, ao que parece, esses filhos de paiz africano, as costas geladas e os mares tempestuosos da Europa ao clima quente e ao mar sereno da Africa Occidental?
O que é estranho realmente, é que o alto espirito de Humboldt acceitasse sem exame as pretenções dos Normandos, limitando-se a observar na sua Historia da geographia do Novo Continente que esses factos citados não diminuem a gloria de quem tentou a exploração seguida das costas africanas![1] Não viu o grande historiador, o immortal geographo, que esses factos isolados bastavam para destruir todas as lendas, que eram a chave com que ficava para sempre aberto o mar Tenebroso, que só se abriu comtudo radiante de luz deante dos esforços dos navegadores portuguezes, que bastavam para abrir o caminho para a terra antichtona, para o alter orbis, onde muitos diziam que ficava situado o Paraizo Terrestre, e que nós não poderiamos conhecer nunca, porque ás duas zonas temperadas se interpunha, intransitavel e terrivel, a zona torrida completamente queimada pelo sol? Tão profunda seria a ignorancia em Dieppe que ninguem visse a importancia da maravilhosa expedição? Nos seculos XIII e XIV, sobretudo, em que já começava a actuar nos espiritos europeus a febre das viagens, já depois de Marco Polo ter escripto a sua curiosa narrativa, depois das viagens para o Oriente de Rubruquis e de Carpino, e das viagens de sir John Mandeville, quasi um normando tambem? Ninguem via semelhante coisa! Tendo de casa quem lhes ensinasse a verdade, continuavam geographos e cartographos, todos os sabios, todos os estudiosos a repetir as velhas fabulas, a encher de monstros horrificos os desconhecidos plainos africanos, a pintar a vermelho nos mappas, para bem indicar o ardor do clima, os mares equatoriaes? Possuindo colonias na costa africana, tendo marinheiros que tão bem conheciam esses mares podiam os reis de França consentir que, por bulla de 8 de janeiro de 1454, o papa Nicolau V concedesse aos reis de Portugal «todas as conquistas da Africa com as ilhas nos mares adjacentes desde o cabo Bojador e de Não até toda a Guiné com toda a sua costa meridional?»[2]. E era possivel ainda que no principio do seculo XV os capellães de João de Bethencourt, fidalgo normando que occupára as Canarias, compondo a narrativa da famosa expedição, nem uma palavra escrevessem ácerca das expedições dos seus patricios, e que pelo contrario dissessem, elles normandos, que «si aucun noble prince du royaume de France ou d’ailleurs vouloit entreprendre aucune grande conqueste par deçà, qui seroit une chose bien faisable et bien raisonnable, le pourroit faire à peu de frais; car Portugal et Espagne et Aragon les fourniroient pour leur argent de toutes vitoailles et de navires plus que nul autre pays, et aussi de pilotes qui savent les ports et les contrées?»[3]
Com tanta superficialidade porém se estudam estes assumptos que nem se pensa em se saber se a Guiné do seculo XIV é a Guiné posterior aos descobrimentos. Isso leva escriptores francezes e o proprio Humboldt a allegar que este mesmo Bethencourt explorou a Guiné antes dos portuguezes, sem verem que o que os seus capellães contam é o seguinte: que «os navegantes normandos se affogaram nas costas da Barbaria ao pé de Marrocos»,[4] e que Bethencourt tencionava visitar a parte da «terra firme que fica entre o cabo Cantim e o Bojador»[5] que para isso consultara o livro de um religioso hespanhol «que visitára a Guiné, mas que, chegando ao cabo Bojador se limitára a reconhecer as ilhas que ficavam áquem».[6] A Guiné do tempo de Bethencourt era, como se vê, a que ficava para cá do cabo Bojador, e tanto assim que o papa Innocencio VII disse, escrevendo a Bethencourt, que sabia ficarem as ilhas Canarias a doze leguas de Guiné.[7]