Que immenso cuidado é necessario, quando se procura destruir uma tradição profundamente e fortemente documentada! Quantas causas de erro escapam ao investigador ou frivolo, ou negligente, que se ufana de encontrar n’um velho alfarrabio um facto que vem destruir completamente o que parecia assente e demonstrado! Basta uma variação de nome para transtornar todas as deducções. Basta que uns não saibam, que outros não reparem que o nome de Guiné foi mudando de sitio, como outros muitos nomes geographicos, á medida que os descobrimentos foram caminhando, para que todas as interpretações caiam por terra! Não basta que se diga que no seculo XIV ou XV houve Francezes que chegaram á Guiné, torna-se indispensavel apurar tambem se a Guiné do principio do seculo XV era a mesma que assim se denominou depois dos descobrimentos. Este apuramento, d’onde resulta sabermos que a Guiné ficava, para os capellães de Bethencourt, áquem do cabo Bojador, destruiria completamente a singularissima reivindicação franceza se tantos argumentos fortissimos não houvesse para lhe demonstrar a inanidade.[8]

É o que succede tambem com os detractores de Colombo. Não vêem immediatamente os que dizem que antes de Colombo chegaram a terras americanas João Vaz Côrte Real, ou o francez Jean Cousin, que, se algum d’elles tivesse levado a termo tão importante expedição, bastava isso para ficar logo resolvido o grande problema do fim do seculo XV que trazia preoccupados sabios e estudiosos, deante do qual tanto hesitou D. João II, que inflammou em França o animo do cardeal Pedro d’Ailly, em Italia o do famoso Toscanelli! Com que jubilo se saudaria essa resolução do grande problema!

O que faz tambem com que homens de valor no nosso tempo possam acceitar fabulas tão pueris, como a de João Vaz Côrte Real e a de Jean Cousin, é que raros estudam a fundo o problema que pretendem resolver a seu modo, e não o sabem pôr em equação. Uns estabelecem a lenda de Christovão Colombo considerado como um visionario por dizer que se encontraria a India navegando-se pelo occidente, outros a lenda de Christovão Colombo tratado como um louco por imaginar que para o lado do occidente havia terras. E por isso dizem uns que elle sabia perfeitamente que havia terras porque tinha conhecimento de viagens a que os navegadores não tinham ligado importancia alguma e que tinham passado despercebidas, outros que algum dos reis com quem elle tratara, D. João II por exemplo, não ignoravam que havia terras para o occidente a grandissima distancia da Europa, porque a essas terras já um portuguez aportara, mas estavam convencidos que essas terras não eram a India, e n’isso, accrescenta-se, eram elles que tinham razão e não Colombo.

É mal posto o problema: que se poderia chegar á Asia indo-se pelo occidente, raros seriam os homens de alguma instrucção que o podessem pôr em duvida. A idéa da esphericidade da terra já penetrara em todos os espiritos, e a sua consequencia natural era que pelo occidente se poderia chegar ao oriente. Que devia haver terras para o occidente era por conseguinte egualmente incontestavel. A questão toda estava exclusivamente na distancia.

D. João II não julgava Colombo um visionario por elle lhe dizer que pelo occidente se chegaria á India, julgou-o um visionario por elle suppôr que poderia atravessar para chegar ao seu destino a enorme extensão dos mares. Não o suppoz visionario por elle cuidar que encontraria terras ao occidente, ainda que essas terras não fossem a India, suppôl-o visionario por elle imaginar que teria tempo de chegar a essas terras a salvamento. Logo, se Jean Cousin ou João Vaz Côrte Real tivessem realisado essa façanha, estavam dissipadas todas as duvidas.

Havia terras a grande distancia da Europa, terras que ou seriam a India, ou algum d’esses archipelagos em que Toscanelli tinha fé, que serviriam de escala aos navios que demandassem pelo occidente a Asia?[9] O jubilo immenso que se sentiu na Hespanha quando Christovão Colombo voltou, sentir-se-hia em Lisboa quando João Vaz Côrte Real tornasse, ou sentir-se-hia em França quando Jean Cousin entrasse n’algum dos seus portos.

O erro d’aquelles que assim procuram contrapôr a glorias consagradas não só pela tradição, mas pelos factos incontestados e pelos resultados conseguidos, estas lendas pueris forjadas ou pela inveja dos contemporaneos, ou pela phantasia audaciosa dos historiadores sem probidade scientifica que abundaram no seculo XVII, está em pôrem completamente de parte o estudo do meio em que os grandes descobrimentos se fizeram, de modo que o infante D. Henrique e Colombo apparecem como uns vultos inexplicaveis sem raizes no passado e sem relações de especie alguma com o espirito das gerações de que fizeram parte. Querem então reduzir á estatura normal esses vultos descommunaes, e aproveitam qualquer tradição apocrypha para mostrarem com um sorriso de mofa, que elles não fizeram senão aproveitar os esforços inconscientes feitos por alguns vultos humildes, para forjarem com esse metal roubado a pobres as estatuas da sua grandeza.

Applique-se o methodo scientifico ao estudo d’estes grandes phenomenos da vida da humanidade, e ver-se-ha como o genio d’estes dois homens apparece ainda mais brilhante quando vemos que elle resume as vagas aspirações da geração a que pertencem, satisfaz a anciedade que ella sente, encontrando a solução que os outros debalde procuram. O infante D. Henrique surge no meio de uma geração que se debate na ancia do desconhecido, que se julga apertada na jaula d’este mundo antigo, e anceia por encontrar espaço mais amplo em que mais livremente respire. Havia um seculo já que a sede das viagens se apoderara dos espiritos, que o conhecimento da terra era a preoccupação constante de todos os espiritos mais illustrados e cultos, em que já se multiplicavam os documentos cartographicos, em que aquellas encyclopedias medievaes que tinham o titulo quasi consagrado de Imago mundi se enchiam com as mais phantasticas noções, revelando comtudo o ardor com que se procurava supprir com uma geographia conjectural a falta do conhecimento verdadeiro da terra. Já se tinham emprehendido as grandes viagens terrestres pela Asia, procuravam os povos maritimos sondar os segredos do Occeano. Tentavam os Normandos perscrutal-os, e a expedição de João de Bethencourt bem o demonstrou, aspiravam a descobril-os os Genovezes, e a infeliz expedição de Vivaldi de que nunca mais houve noticias depois das suas galés terem transposto o estreito de Gibraltar confirma-o cabalmente, queriam os Catalães encontral-os e Jayme Ferrer, que apenas transpoz o cabo Não, e não conseguiu passar além do Bojador, foi um dos que se illustraram n’essas tentativas; mas paralysou-os a tradição geographica tão enraizada nos seus espiritos como o estão hoje no nosso as theorias da geographia moderna. Logo que a costa africana, em vez de voltar para o oriente, continuava a seguir para o sul, internando-se por conseguinte na zona torrida, a affirmação scientifica de que o sol a ia tornar impossivel de se transpôr impunha-se ao espirito dos navegantes, e bastaria para os fazer recuar, ainda que as affirmações cathegoricas da orthodoxia e os terrores da superstição os não movessem. D. Henrique teve o genio de um livre espirito que se revolta contra uma tradição que se não baseia em dados positivos, e que a submette audaciosamente ao exame da experiencia, teve a coragem que transmittiu aos seus navegadores de arcar contra as affirmações da sciencia, contra os dogmas da religião, contra os pavores da lenda. Continuou e venceu! E a noticia do triumpho correu a Europa toda, e resoou em toda a parte como uma grande conquista do espirito humano, e a theoria das zonas inhabitaveis desappareceu, e a da impossibilidade de communicação entre as duas zonas temperadas dissipou-se, e a Egreja teve de se conformar com a existencia dos antipodas que ella considerava como uma affirmação incompativel com o espirito christão. Pois não se vê que tudo isso aconteceria, logo que um navegador audacioso tivesse penetrado na zona torrida, muito para além das regiões habitaveis? E não se vê tambem que semelhante navegação não passaria despercebida n’uma epocha em que era universal a anciedade pela ampliação dos conhecimentos geographicos?