Succede o mesmo com Christovão Colombo. A existencia de terras para o occidente é um dos sonhos da humanidade desde longas eras. Quanto esse problema preoccuparia os navegadores portuguezes n’esse seculo XV todo illuminado pelas suas glorias pode bem imaginar-se. Attestam-n’o as aventurosas expedições dos mareantes açorianos; mas, como Vivaldi que procurou sondar as regiões inexploradas da Africa, muitos d’esses audaciosos se perderam no vasto Occeano, como Jayme Ferrer, outros chegaram a terras um pouco afastadas e foi assim que a ilha das Flores se descobriu, mas como o mesmo Ferrer recuando deante do Bojador, como Bethencourt não ousando afastar-se para além das costas de Marrocos, os açorianos desmaiaram deante da infinita solidão do Atlantico. Quando Colombo quebrou essas ultimas barreiras, com que enthusiasmo o receberam, com que despeito por lhe não ter dado inteiro credito o acolheu D. João II! Como logo partiram de toda a parte navios a sondar esses mares desconhecidos! Não aconteceria o mesmo se Jean Cousin ou João Vaz Côrte Real tivessem, antes de Colombo, vencido o grande obstaculo? Não seria para Lisboa ou para Dieppe que se voltaria logo a attenção e a inveja de toda a Europa?

Assim, resumindo as questões capitaes em que se condensa o nosso ponto de vista, temos que os dois grandes problemas geographicos que foram resolvidos pelos navegadores do infante D. Henrique e pelas caravellas de Christovão Colombo eram as seguintes:

1.º Atravessar a zona torrida, que, segundo as affirmações da sciencia, tornava impossivel a communicação entre as duas zonas temperadas, entre a terra em que habitamos e a terra antichthona, entre o mundo antigo que tinha Jerusalem no centro e o alter orbis onde a humanidade vivera antes do diluvio, transpôr o Atlantico, pintado pela lenda e pela tradição antiga como o mar tenebroso, entrar n’um occeano que passava por sobrenatural, onde se estava talvez á mercê das potencias infernaes;

2.º Atravessar a solidão do Atlantico do occidente ao oriente, até chegar ás praias orientaes da Asia.

A resolução do segundo problema estava dependente da resolução do primeiro. O primeiro acto de audacia era abrir os mares fechados, mostrar que não tinha o Atlantico os perigos reaes e sobrenaturaes de que o rodeiavam a tradição scientifica e a lenda popular. Esse resolveram-n’o os Portuguezes, e ninguem os precedeu nem os podia preceder, pelo simples motivo de que, se alguem antes d’elles tivesse aberto o mare clausum, não teriam elles que o tornar a abrir. Não se fecha o mar como se fecha uma porta. Não tornam a crear-se os phantasmas que o primeiro audacioso dissipou. Se alguem, antes do infante, houvesse rasgado a cortina do mysterio que sequestrava o Atlantico, estava o Atlantico patente. A geographia systematica da antiguidade e da edade média caía em ruinas logo que o primeiro facto real e tangivel tivesse mostrado a inanidade do systema.

Resolvido o primeiro problema, trepidou-se deante do segundo. Não se oppunham á sua resolução nem as theorias geographicas dos antigos, porque bem conhecidas são, acima de tudo, as opiniões de Eratosthenes, nem as opiniões orthodoxas que não contrariavam de um modo formalmente directo as doutrinas de Colombo, nem as lendas maravilhosas que, depois da desapparição do mar Tenebroso, não faziam senão excitar os navegadores a procurarem no Occidente as ilhas paradisiacas de que S. Brandão voltára com as vestes rescendentes a celestiaes perfumes. O que se oppunha simplesmente á resolução do problema era a immensidade do Occeano, que parecia confirmada exactamente pelas navegações portuguezas. Navegara-se durante annos e ainda se não chegara ao sul da Africa. Quanto tempo teria de se navegar para se chegar á India! Embora! exclamava Toscanelli, um dos enthusiastas da escola colombina, porque, se lá não chegardes em breve, encontrareis disseminadas pelo Occeano centos e centos de ilhas e de archipelagos que servem de guarda avançada ao grande continente oriental. Sonho de visionario! dizia-se e Colombo era repellido. Mas Colombo persistiu e foi elle que rompeu o encanto, elle e só elle que por ninguem poderia ter sido precedido, porque, se o fosse, tinham caido por terra todas as objecções, visto que o problema estava reduzido a este simplissimo termo: atravessar o Occeano e encontrar terra a distancia a que cheguem os viveres de uma caravela. O primeiro que o conseguisse tinha quebrado o feitiço, tinha desvendado o mysterio. Portuguez, francez, hespanhol ou italiano, seria a sua volta saudada pelas acclamações freneticas de toda a Europa maritima. Se foi essa gloria que aureolou Colombo foi por que só a elle podia competir.

Curvemo-nos com respeito deante dos precursores, deante dos marinheiros que tentaram romper o mysterio, deante da intrepidez dos normandos que, depois de occupadas as Canarias, tentaram reconhecer a costa africana, e cujos cadaveres despedaçados nas rochas da costa marroquina foram o primeiro cimento com que se começou a erguer o monumento da gloria portugueza, deante da audacia dos catalães que mais adeante foram ainda, que já transpozeram o cabo Não, e que investiram talvez com o Bojador, mas não sacrifiquemos a essa homenagem a justa gloria que cabe aos que mais felizes, mais perseverantes, e sobretudo dirigidos por um genio excepcional, quebraram definitivamente as barreiras, e, sem hesitar um momento, proseguiram no caminho encetado, e methodicamente foram desenrolando folha a folha o livro do mundo desconhecido, ainda enrolado nas vagas, como se enrolavam em volumes os antigos papyros. Não acceitamos como uma especie de premio de consolação para os precursores menos felizes a phrase de Humboldt, que diz como que encolhendo os hombros deante da injustiça do mundo que as descobertas só se principiam a contar desde que formam serie. As descobertas contam-se desde que se fazem, e, se os Catalães ou os Normandos ou os Genovezes as tivessem feito, para elles iria a gloria. Não esperou a Europa que as caravelas do infante D. Henrique fossem muito adeante para que affluissem a Portugal estrangeiros, nem o governo portuguez esperou por isso para reclamar do Papa o reconhecimento do seu direito. Descobrem-se as Canarias? Logo apparecem Portuguezes, Francezes e Hespanhoes a reclamar a sua posse. Descobriam-se os Açores e a Madeira e ninguem com isso se importava. Não, o Homero da grande epopéa maritima foi o infante D. Henrique. Antes dos grandes epicos apparecem os cantos vagos e anonymos, em que se desata a inspiração da musa popular, em que se modulam as aspirações e os enthusiasmos do povo. Chega emfim o grande cantor, o epico inspirado, em cuja fronte Deus accendeu a scentelha do genio, e que escuta pensativo esses echos da guerra, essas cantilenas sublimes. Incende-se-lhe a imaginação, concentra na sua alma as palpitações da alma nacional, e dos seus labios brota emfim a epopéa victoriosa em que tudo se condensa, e encontra a sua expressão definitiva, que se fixa para sempre na memoria do povo e na memoria da humanidade. As caravelas que iam ainda, silenciosas e timidas, aventurar-se ao mar mysterioso, e que ou voltavam sem ter rompido o mysterio, ou no mysterio das vagas envolviam os seus cadaveres fluctuantes, eram os bardos isolados que afinavam pelo rugido do Occeano os seus epodos audaciosos, mas o infante foi o poeta soberano que fez irromper da sua alma, pela voz dos seus marinheiros, a epopéa triumphal e definitiva, a Iliada da audacia portugueza, como foi Colombo depois que desenrolou no sulco argenteo dos seus navios a Odysséa do Atlantico.


II
Causas de erro para a historia da solução dos problemas