Além d’isso faz-lhe mercê de toda a justiça com alçada de poder enforcar, matar e de toda outra pena criminall.
Prevê o caso de que as ilhas ou terra firme sejam povoadas e offereçam resistencia a Fernão Dulmo, que vae á sua custa, é claro, e com a gente que poder levantar e pagar, e então El-rei diz-lhe: «ssendo caso que sse não queiram sujeitar as ditas hylhas e terra firme a nos, mandaremos com o dito Fernam Dulmo gente e armadas de navios com noso poder pera sogigar as ditas hylhas e terra firme e ele Fernam Dulmo hyrá sempre por capitam moor das ditas armadas.»
O que mostra isto? Mostra que a insistencia de Christovam Colombo fez impressão em El-rei. Não vai nem por sombras intentar uma expedição á sua custa, mas procura facilitar o mais possivel as expedições para o occidente. Admitte a possibilidade de se encontrar terra firme, não põe as minimas restricções ao poder do descobridor, e, se a terra firme ou as ilhas se encontrarem e forem povoadas, se forem a Asia, é o que isto quer dizer, Fernão Dulmo pode contar que terá o rei comsigo com todo o seu poder para o ajudar, e o posto de capitão-mór garantido nas armadas que se expedirem.
O sr. Ernesto do Canto, que publica no seu livro esta carta de doação na integra, estranha o facto que acabamos de notar, e escreve:
«A jurisdicção concedida por esta carta é muito mais extensa do que a dos documentos analogos e anteriores, o que admira da parte de D. João II, que tanto luctou para estabelecer a centralisação do poder real.»[104]
É positivamente a impressão produzida na alma do rei pelas propostas de Colombo. A visão do occidente começa a assenhorear-se da sua alma e atormenta-o. Querem outra prova ainda? Esta carta régia foi apresentada ao tabellião, e entre Fernão Dulmo e João Affonso celebra-se um contracto em que ha a seguinte clausula: «e quanto he ao cavalleiro alemam que em companhia deles hadir que ele alemam escolha dir em qualquer caravella que quiser e do dia que ambos partirem da dita hylha Terceira, etc.»
Quem é este cavalleiro allemão que está evidentemente nos Açores e que parte com a expedição escolhendo a caravela que quizer? É claramente Martim de Behaim, que acaba de voltar da viagem que fez ao Zaire com Diogo Cão, Martim de Behaim, que tambem sonha com o encontro da Asia pelo occidente, que muita vez trocou idéas com Christovam Colombo a esse respeito, que se resolve a fazer uma tentativa, tentativa que parece não ter ido por deante, ou que, se se realisou, foi infeliz e se realisou sem elle, porque annos depois o encontramos na Allemanha trabalhando no seu famoso globo, e voltando de Nuremberg a Lisboa com o intuito de realisar emfim a sua expedição, munido de recommendações do imperador para o rei de Portugal e de animações de sabios. No intervallo Colombo antecipára-se-lhe. A America estava descoberta. Demais entre a saída de Christovam Colombo de Portugal e o descobrimento da America dera-se um grande acontecimento que robustecera a confiança de D. João II no methodo que seguira e que dissipára as suas apprehensões de um curto caminho para a Asia pelo occidente. A costa africana occidental fôra completamente descoberta, transpozera-se o Equador, percorrera-se toda a zona torrida, encontrára-se o termo do continente africano, e dobrára-se o cabo em cujo nome Boa Esperança D. João II condensára o immenso jubilo da sua alma. O primeiro dos grandes problemas geographicos, que nem a antiguidade nem a edade média tinham conseguido resolver, tinham-n’o os Portuguezes resolvido. A preoccupação, que evidentemente tinham deixado no espirito do rei as propostas de Colombo, dissolvia-se por completo na alegria d’este triumpho.
Mas vê-se bem agora como o conhecimento da nova tentativa açoriana, semelhante aliás a tantas outras que Colombo bem conhecia, devia ter irritado o animo do Genovez, que saía de Portugal, azedo e despeitadissimo. Chegou-lhe provavelmente aos ouvidos tambem a noticia das concessões excepcionaes feitas pelo rei, e até da designação especial de terra firme a descobrir. Tanto bastou para que se dissesse roubado, como se Colombo tivesse outra coisa que se lhe roubasse que não fossem as suas qualidades pessoaes, o seu genio, o seu enthusiasmo, o seu conhecimento da nautica e da astronomia. Tudo isso o levára elle comsigo. Demais, as concessões de D. João II, por mais amplas que fossem, não chegavam ao subsidio. O que D. João II recusára a Colombo, recusava-o tambem a Fernão Dulmo. N’estas circumstancias, mantinha-se nos seus principios; de que podia então queixar-se Colombo?
Tambem, deve dizer-se, só d’essa vez se mostrou Colombo, n’um momento de colera, injusto com o nosso paiz. A terra de sua mulher, terra onde nascera seu filho, fôra sempre a terra dos seus amores. Com este povo de marinheiros se creára, pode assim dizer-se, porque foi aqui que brotaram devéras na sua alma as suas grandes aspirações, foi com o trato dos nossos pilotos que se instruiu praticamente, que aprendeu, por assim nos exprimirmos, a theoria das descobertas. Não o esqueceu nunca, nem quando pensava que era pelo vôo das aves que os Portuguezes tinham descoberto as ilhas, nem quando invocava, para sustentar uma das suas affirmações, os Portuguezes que tinham navegado tanto. Como Portuguez até se considerava, e fazia-lh’o sentir Toscanelli.[105] Com os nossos descobrimentos se enlaçaram os seus, e, apesar de tudo, vê-se-lhe não sei que funda pena de não ter podido fazer a sua gloriosa descoberta nos navios da nação amada. «O rei de Portugal, diz elle n’uma carta escripta a Fernando o Catholico pouco tempo antes da sua morte, que entendia mais do que qualquer outro rei de descobertas de paizes desconhecidos, de tal fórma o cegou a vontade do Altissimo que, durante quatorze annos, não pôde comprehender o que eu lhe dizia.» E tão extranho lhe parece esse caso que o toma á conta de milagre, e diz que Nuestro señor le atajó la vista, el oido y todos los sentidos.[106]
Não! a verdade era que a empreza de Colombo era a empreza de um allucinado de genio, de um homem em quem a imaginação predomina, de um visionario que tem visões lucidas, de um inspirado, de um louco, e homens assim não podem dirigir-se, sem ser repellidos, áquelles que teem o forte equilibrio de todas as faculdades, aos que se deixam guiar em vida não pelas columnas de fogo da visão biblica, nem pelas scintillações dos sonhos, mas pelo clarão firme, sereno, da razão e do raciocinio. Encontraria Christovam Colombo no infante D. Henrique um homem que o comprehendesse, porque era um allucinado tambem; na epocha em que apparecia só o podia comprehender uma alma feminina, vibratil a todos os enthusiasmos, apaixonada pelas visões mysticas, accessivel á influencia magnetica de uma eloquencia aquecida pela sinceridade de uma convicção ardente, de uma mulher, emfim, que se chamava Isabel a Catholica, a mais radiosa encarnação da alma heroica da Hespanha, aquella que nos apparece nos longes da historia como a estatua da Poesia do Romancero, cavalheiresca e meiga, varonil na intrepidez e feminil na suave e captivadora influencia, e que elle vinha encontrar no momento mais proprio para a levar para as grandes conquistas ideaes, dentro dos muros da conquistada Granada, tendo varrido do solo de Hespanha a ultima tribu arabe e o ultimo soberano oriental, tendo feito tremular sobre o crescente prostrado a bandeira da cruz, e anciando tambem por abrir novos mundos á energia hespanhola, novas conquistas ao seu pensamento, enamorando-se facilmente da idéa de transpôr os limites do Oceano, de tentar, como outr’ora o infante D. Henrique, a gloriosa cruzada dos mares, e de ir arrancar emfim aos thesouros escondidos no tumulo do Sol o oiro do resgate para o tumulo de Christo.