Junte-se a isto a opinião contraria do seu conselho scientifico, que a manifestava não só porque todas as corporações sabias têem uma tendencia innata para repellir as idéas novas apresentadas por quem não pertence ao seu gremio scientifico, mas tambem porque as propostas de Colombo tinham, como acabamos de ver, muitos pontos vulneraveis. Faziam parte do conselho dois judeus, Rodrigo e Josef, que de certo conheciam bem o arabe, e aos quaes talvez não escapasse o erro da interpretação do geographo arabe Al-Fragan na medição dos graus. A rejeição da proposta de Colombo era portanto inevitavel.

E comtudo D. João II, se não tinha a imaginação apaixonada do infante D. Henrique, que se deixaria de certo seduzir pelo enthusiasmo do italiano, tinha o espirito bastante elevado para reconhecer que não era Colombo um aventureiro vulgar. Apenas elle saíu do nosso paiz, teve um baque no coração, e, passando por cima de tudo e da opinião dos seus conselheiros, e das tendencias naturaes do seu espirito, escreveu-lhe a famosa carta em que o chamava.[103] Porque não veiu Colombo? Porque saíra bastante irritado com o parecer naturalmente desdenhoso do conselho scientifico do rei, ou porque os seus amores com D. Beatriz Enriquez, a mãe de Fernando Colombo, o retiveram em Sevilha? Julgamos mais verosimil a primeira hypothese. O resentimento de Colombo era tão profundo que não duvidou accusar D. João II de uma acção que elle bem sabia que era absurda em primeiro logar, que seria indigna de um homem cujo caracter elle não podia deixar de respeitar.

E comtudo a historia tem repetido essa accusação, injusta, mesquinha e disparatada! Colombo accusou D. João II de o ter repellido, mas de ter aproveitado ao mesmo tempo as suas indicações para mandar dois navios em busca da Asia pelo occidente, e que esses navios, açoitados por uma tempestade, tinham sido obrigados a voltar para Lisboa.

Em primeiro logar era evidente que a viagem de descoberta não podia começar senão em Cabo Verde ou nos Açores. Se uma tempestade occasional os tivesse feito voltar a Lisboa, poucos dias depois de terem d’aqui saído, não era caso para descoroçoar. Só passado o meridiano dos Açores é que principiava a expedição.

Demais, não sabemos que antes de Colombo muitos navegadores portuguezes tinham sondado os mares do occidente, não com o fito de demandarem a Asia, mas com o intuito de descobrirem terras novas? Era a transformação do intuito que representava o abuso de confiança? Era a escolha do parallelo a seguir? Não tinha o rei de Portugal a carta de Toscanelli que preconisava tambem a escolha do parallelo que a Cipango conduzisse?

Não vemos nós claramente que a unica difficuldade de D. João II estava em fazer por sua conta a expedição? Se Colombo a fizesse á sua custa, não receberia do rei de Portugal senão todas as animações. E, recusando isso a Colombo, que elle considerava e estimava, ia fazel-o com outros pilotos, que, ainda que não tivessem menos habilidade nautica, não teriam de certo estudado a questão com a perseverança e o enthusiasmo de Colombo?

Mas não continuemos, podemos hoje felizmente mostrar de um modo evidentissimo qual foi o facto verdadeiro que, mal interpretado, mal comprehendido, adulterado por alguma informação calumniosa, mais ainda pelo resentimento de Colombo, serviu de base á sua accusação.

Temos mostrado como o governo portuguez fazia as concessões aos navegadores ilheus que queriam demandar terras novas: dava-lhes n’essas terras todos os privilegios possiveis, o direito de administrar a justiça, reservando sempre para a corôa os casos de pena de morte ou de talhamento de membros. Accentuava bem que esses privilegios não se limitavam ao caso de ser despovoada a terra que se encontrasse, mas que, se encontrassem terra habitada, como a famosa ilha das Sete Cidades, por exemplo, tinham sobre os seus moradores o mesmo poder com as mesmas restricções, e esses moradores tambem os mesmos privilegios. Ora em 1486, pouco depois de Colombo partir de Portugal, appareceu Fernão d’Ulmo a pedir uma concessão semelhante. El-rei fez-lh’a nas condições das anteriores, com umas modificações que são eloquentes:

Em primeiro logar Ruy Gonçalves da Camara pedira pera buscar nas partes do mar ouciano huumas ylhas, Fernão Telles obtem a concessão de quaesquer ilhas que elle achar, e depois diz-se-lhe que a mesma concessão se faz no caso das ilhas serem povoadas. Fernão Dulmo pede que El-rei «lhe faça mercê e reall doação da dita hylha ou hylhas ou terra firme povoradas ou despovoradas, etc.» El-rei concede.