Como é que aquelle grande espirito de Christovam Colombo não inflammou no seu enthusiasmo o espirito, que passa tambem por ter sido grande, de D. João II? Enganou-se a historia no seu juizo? Era, afinal, o rei D. João II um espirito vulgar, ou pelo menos um espirito absolutamente pratico e forte em todas as questões da vida positiva e real, mas desdenhoso de tudo o que excede os limites do seu horizonte? ou por acaso não tinha elle pelas coisas geographicas o interesse real que manifestava, ou não tinha d’ellas o conhecimento que se lhe attribue? Não, não, nada d’isso. D. João II foi realmente um dos grandes principes do seu tempo, um dos soberanos que estavam mais á altura de comprehender os grandes projectos dos descobrimentos. O proprio Colombo o diz a cada instante, Toscanelli farta-se de o affirmar: o rei de Portugal era o soberano que melhor entendia de coisas geographicas, o nosso grande rei! diz Colombo ás vezes. E comtudo Colombo não conseguiu captival-o. É quasi incomprehensivel esse facto, mas talvez se explique um pouco se analysarmos os caracteres de um e de outro.
Ha, naturalmente, duas especies de organismos entre os homens da mais alta esphera: os desequilibrados e os equilibrados. Á primeira pertencia Christovam Colombo, á outra D. João II. D. João II era um d’estes fortes espiritos, perfeitamente assentes n’uma base segura, que têem a perspicacia, a energia, as concepções arrojadas mas nunca desmandadas, espiritos capazes de formarem um plano e de o desenvolverem serenamente, completamente desembaraçados da rotina, amando e acolhendo as innovações, mas não sem as sujeitarem ao criterio do seu lucido juizo. Homens assim, n’este jogo da existencia têem as cartadas atrevidas mas calculadas, nunca se entregam aos irreflectidos caprichos do azar. O perigo não os assusta, e affrontam-n’o quando é necessario, mas não o procuram por uma vã fanfarronada de cavalleiros andantes. Soldado, ninguem o foi como D. João II: em Arzilla escureceu a fama dos mais denodados cavalleiros, em Toro a ala que elle commandava internou-se no mais denso das fileiras dos castelhanos e destroçou-as, emquanto a ala commandada por seu pae era desbaratada pelo inimigo, mas depois de subir ao throno nunca mais teve uma guerra, nem entrou n’uma peleja. As guerras de Portugal tinham de ser com o Oceano, os combates do rei com a sua nobreza rebelde. É um organisador e não um aventureiro, o que o não impede de querer a grande aventura da India, mas prepara-a, organisa todos os elementos de successo, antes de jogar a cartada decisiva.
A razão é a faculdade que domina o seu espirito, a imaginação é a escrava obediente. É inaccessivel aos vagos terrores que tão facilmente assaltam os nervosos e os phantasistas. Uma noite, e já depois d’elle ter cercado de cadaveres o seu throno, no cumprimento implacavel da sua missão centralisadora, sente baterem de noite mysteriosamente á porta do quarto onde dormia com sua esposa. Levanta-se e vai ver quem é. Ninguem, mas ao longe uns passos mysteriosos, como que um vago deslisar de sombras. Jaz em silencio e na escuridão da meia-noite o palacio todo. Vive-se n’uma epocha de crenças e de superstições. É algum dos espectros das suas victimas que o vem chamar para a expiação? D. João II sorri-se com este pensamento, vai, segue o passo mysterioso, vai até aos sotãos em sua obstinada procura, só, com a sua espada e uma luz, e quando os servos, acordados pelos clamores da rainha, correm em sua busca, vão encontral-o n’um desvão, sondando com a luz os recantos sombrios, impassivel e sereno como quem não comprehende sequer os pavores da superstição.
De toda a sua raça o homem a quem mais se assemelha pelas tendencias nobres do seu espirito é o infante D. Pedro, mas este possuia uma qualidade que arredondava todos os angulos do seu caracter, que amaciava todas as durezas do seu pensamento: a bondade feminil, que elle herdara de sua mãe, D. João II tinha a violencia do bisavô, sem ter ao seu lado a mulher propria, como Filippa de Lencastre, para attenuar as asperezas da indole do matador do conde Andeiro. D. Leonor era uma nobre e intelligente senhora, não adquirira comtudo influencia sobre o seu terrivel marido, porque não era amada. Mas a alta razão, a comprehensão de todos os grandes emprehendimentos, a cultura que o punha a par do seu seculo, a reacção contra as tradições medievaes, que eram a sombra povoada de visões, quando elle sonhava uma sociedade radiante de luz e de sciencia e dominada pela Ordem: tudo isto tinha D. João II. D. João II era a Renascença que principiava com os ideaes de Platão e o culto da sciencia antiga seriamente estudada e seriamente comprehendida, e Colombo, que mais do que ninguem ia contribuir para a Renascença, era comtudo pelas tendencias do seu espirito o ultimo representante d’essa meia edade bellicosa e mystica, que, antes de se sumir para sempre, legava ao mundo que nascia a realisação do seu ultimo sonho cavalheiresco.
Imagine-se agora Colombo tratando com D. João II, que o ouve, que o attende, que percebe que não tem deante de si um homem vulgar, mas que desconfia, que hesita deante d’aquelles projectos meio mysticos, meio scientificos, deante d’aquella exuberancia de palavras e de pensamentos que não quadra ao seu espirito nitido, e conciso. Colombo é um italiano, com aquella prodigalidade de palavras e de formulas obsequiosas, caracteristicas da raça. O que era elle? um sabio ou um charlatão? Se do sublime ao ridiculo apenas vai um passo, como Napoleão dizia, de um homem de genio que traz uma idéa fecunda a um charlatão que traz um elixir tambem a distancia não é grande. Colombo, profundamente convencido, era prodigo de promessas e não menos de exigencias. Os thesoiros que elle encontrasse no Cathay destinava-os, segundo dizia, á conquista do Santo Sepulcro. Ora a conquista do Santo Sepulcro era, sem desfazer nos sentimentos christãos de D. João II, le cadet de ses soucis. Christovam Colombo enganara-se na porta. Essas declarações eram optimas para D. Affonso V, detestaveis para D. João II. Tudo quanto cheirasse a cavallaria andante, a cruzadas, e a romances em acção, encontrava em D. João II um antagonismo ferrenho. E percebe-se que assim fosse, desde o momento que fôra tudo isso que estivera quasi arruinando Portugal, que fôra tudo isso que fizera a desgraça de D. Affonso V e que era a esses bellos sonhos que D. João II devia o ter ficado, como costumava dizer, por morte de seu pae, rei das estradas de seu reino.
Ainda havia um facto que não podia produzir boa impressão em D. João II. Arrastado pelo ardor das suas convicções, como acontecia com Toscanelli, Colombo dizia conhecer a distancia exacta a que ficava Cipango de Portugal. Ora D. João II era um espirito bastante positivo para perceber o que havia de absurdo em semelhante calculo, e a segurança manifestada por Colombo mais ainda o punha em guarda contra os seus projectos.
Hoje que os factos mostram como Colombo tinha razão, todos imaginam que só o espirito de rotina podia fazer com que elles fossem regeitados. E comtudo, examinando-os bem comprehende-se que espiritos positivos não acceitassem. Colombo suppunha por exemplo que a relação entre a terra e o mar era de 7 para 1, quando a verdade é que essa relação é de 1 para 2,7, ou mais exactamente de 29 para 82.[100] Quaes eram as razões em que elle se baseava para suppor que a Asia estava proxima da Europa? Sobretudo as que deduzia das affirmações da sciencia antiga. Segundo Ctésias a India formava metade da Asia, Plinio suppunha que era só por si o terço da superficie do globo, Nearcho sustentava que eram necessarios quatro mezes de caminho para se chegar á extremidade oriental da India, e Strabão que até esse extremo oriental ninguem poderia conduzir um exercito. O geographo a que Colombo se encostava para avaliar a distancia que tinha a percorrer não era Ptolomeu, era Marino de Tyro. Ptolomeu sustentava que a terra habitada entre o meridiano das ilhas Afortunadas e o meridiano de Sera, quer dizer da China, era de 177°¼, portanto o espaço de mar a percorrer era de 182°¾, visto que o parallelo tem 360°. Marino de Tyro sustentava que a porção de terra habitada era de 225°, portanto o espaço de mar a percorrer limitava-se a 135°; mas Colombo fazia conjecturas que ainda diminuiam este espaço. Effectivamente dizia elle que Marino não chegára á extremidade oriental da Asia em 15 horas (calculando-se as longitudes em tempo, e correspondendo cada hora a 15°) porque a extremidade oriental da Asia ficava muito além do ponto marcado por Marino. Portanto a distancia de mar entre a extremidade oriental da Asia e as ilhas de Cabo Verde era não de 9 horas ou 135°, mas de menos de 8 horas ou de menos de 120°.
Note-se porém que fôra Ptolomeu que corrigira os calculos de Marino de Tyro, e que a opinião de Colombo tinha portanto contra si a do geographo mais afamado da antiguidade. Comtudo Colombo aferra-se á sua opinião, e quando está na America julgando estar na Asia, persiste, e até se apoia nas opiniões dos navegadores portuguezes, dizendo: «E agora que os Portuguezes navegam tanto, acham que Marino foi exacto.»[101]
E note-se ainda que Colombo avaliava o grau em 56 milhas e ⅔, baseando-se nos calculos do geographo arabe Al-Fragan, e confundindo assim a milha italiana com a milha de Al-Fragan, de fórma que o grau ficava tendo apenas pouco mais de 14 leguas. Toscanelli, na sua famosa carta de 1474, avaliava o espaço a percorrer de um modo differentissimo. D. João II ver-se-hia de certo embaraçado para avaliar quem tinha razão, e regeitaria então sem hesitar o projecto de Colombo se soubesse que de todos os geographos da antiguidade o que menos se enganára fôra Eratostenes que calculára a distancia entre o promontorio Sacro, quer dizer o cabo de S. Vicente e a Sera, quer dizer a China, em 240 grau. A distancia verdadeira é 230.[102]