Que houvesse para além da Islandia mais ilhas e mais terras, não era caso de espanto. Hoje que conhecemos toda a terra sabemos a importancia que isso tinha, então nenhuma se lhe ligou, nem nenhuma se lhe ligara no seculo XII. As descobertas não têem importancia pelo que hoje se reconhece que teriam, mas pela que tinham realmente na occasião em que se fizeram. O problema era, como dissemos, o seguinte: atravessar o Oceano Atlantico em toda a sua largura. Passar da Islandia á Groenlandia e da Groenlandia ao Vinland era façanha muito menos importante do que a que praticaram os Portuguezes descobrindo os Açores.[98]

Seriam por outro lado as instancias de Colombo ao governo portuguez que levaram el-rei D. Affonso V a perguntar a Toscanelli em 1474 se suppunha que se podesse chegar á India caminhando-se pelo occidente? É possivel que não. Como sabemos, esse problema já atormentava as imaginações dos que se preoccupavam com as questões geographicas, e era assumpto de vivos debates. A concessão feita em 1473 por D. Affonso V a Ruy Gonçalves da Camara e que já aqui mencionámos, leva-nos a suppôr que o fidalgo portuguez não a obteria tão simples e tão despida de auxilio governamental sem ter instado com o rei para obter um subsidio ou um apoio mais efficaz do que a concessão platonica das pelles de urso, que Ruy Gonçalves obteria se matasse os ursos. Logo veremos que havia esses pedidos, e que D. João II em occasião importante lhes prestou ouvido mais attento. Foi, decerto, então que el-rei perguntou a Toscanelli o que pensava a este respeito, e que recebeu de Toscanelli a resposta de que Colombo, ancioso tambem de conhecer a opinião do sabio geographo, não deixou de ter conhecimento, porque o proprio Toscanelli lh’a communicou.

Que facil ensejo tinha Humboldt de demolir a gloria de Colombo, como pretendeu demolir a dos navegadores portuguezes! Se ha carta que possa mostrar que as Antilhas eram conhecidas antes de Colombo é a carta de Toscanelli. O grande geographo italiano conhece o caminho como conheceria o caminho da sua casa. Sabe a distancia a que fica a Asia, os archipelagos que o navegador ha de encontrar no caminho, e tudo isso vae para o mappa como se fosse traçado á vista das terras! E os archipelagos lá estavam effectivamente como os Açores, como a Madeira, como as ilhas que se descobriram e as que se não descobriram. Acontecia ás ilhas o que acontece ás prophecias. Com um pouco de boa vontade sempre ha algumas que, mais ou menos, parece que saem certas.

Nós porém é que não vemos as coisas com os olhos da parcialidade, e applicamos a todos o são preceito de Humboldt que elle tão pouco respeita. As cartas da edade média são excellente elemento de estudo quando se analysam com criterio, quando se não perde de vista o pensamento de que ellas encerram o que realmente se descobriu e o que os sonhadores conjecturavam que se podia descobrir. Os navegadores d’esse tempo é que não sabiam as maravilhas que praticavam, e a sua aspiração não era encontrar terras desconhecidas, era encontrar as terras adivinhadas. Se os Açores e a Madeira estivessem em mappas anteriores, os Portuguezes exclamariam com enthusiasmo: São estas mesmas! O maior prazer d’esses navegantes, quando chegassem á Antilha ou á ilha de S. Brandão, seria bradarem com orgulho e com ufania: Encontrámos a ilha de S. Brandão, encontrámos a Antilia, como Fernão Telles ía pelos mares fóra com a esperança de encontrar a ilha das Sete Cidades. Este é que era o criterio que os Portuguezes applicavam á descoberta das costas africanas. Todo o seu desejo era confirmarem o periplo de Hannon e as theorias da antiguidade. Foi para elles um desapontamento reconhecerem que um rio que descobriram era o Senegal, completamente ignorado pelos antigos, em vez de ser o Nilo dos Negros, cuja existencia a sabia antiguidade affirmava, e que os Portuguezes só aspiravam a confirmar.

Que impressão produziria a opinião de Toscanelli não no animo de D. Affonso V, que tinha outros pensamentos e outras ambições, mas no de D. João II, logo que subiu ao throno, e começou a pensar sériamente nos descobrimentos? Não muita, e de certo contribuiria para isso, bastante, o proprio movimento maritimo dos Açores. É bem natural que os mareantes que voltavam d’essas expedições de tentativa exaggerasem o espaço de mar que tinham percorrido, sem encontrar signaes de terra. Demais as idéas geographicas dos antigos ainda dominavam muito os espiritos. O systema geographico de Ptolomeu e dos seus adeptos não fôra alluido todo e de uma vez só. Ia caindo aos pedaços, mas ficava de pé o que se não demolia directamente. Ora uma das idéas favoritas da geographia antiga era a grande extensão dos mares. Suppunha-se que de toda a terra só a septima parte estava fóra das aguas. Colombo sustentava a opinião contraria, dava razões de equilibrio, mas não conseguia facilmente derrubar o preconceito.

Accrescente-se ainda que tudo parecia indicar que os Portuguezes se achavam no caminho verdadeiro da India. Qual era a opinião antiga? que a costa africana occidental, antes de se chegar ao equador, voltava para o oriente e ia ou á Africa Oriental ou á Asia. Se as viagens portuguezas tivessem mostrado que esse facto se não dava, e, ao mesmo tempo, a zona torrida fosse inhabitavel, estavam perdidas todas as esperanças, mas as viagens portuguezas tinham demonstrado exactamente que não havia zonas inhabitaveis, logo podia-se proseguir com afoiteza, que mais longe ou mais perto havia de se chegar ao fim do continente africano e havia de se voltar para a India. Corria-se o perigo de se entrar na zona glacial antarctica? Embora! Como era natural, passava-se de extremo a extremo. Desde que se descobrira que a zona torrida não era inhabitavel, conhecia-se que não havia zonas inhabitaveis, e que se poderiam atravessar as zonas glaciaes como se estava atravessando a zona torrida.[99]

E note-se que a idéa de que teria de se dobrar um cabo quando se chegasse ao fim da peninsula africana, estava tambem em todos os espiritos, e era a conjectura natural da geographia. As peninsulas, sabia-se bem, terminam geralmente em promontorios. Portanto o empenho de D. João II estava todo concentrado no proseguimento das descobertas africanas. Não podia elle, diz-se, se tinha confiança, como sabemos que tinha, não no projecto do Genovez, mas no seu talento, e nos seus conhecimentos maritimos, confiar-lhe duas caravelas? Não, porque isso era completamente contrario ao seu systema de exploração. As tentativas dos Açorianos e dos Madeirenses, protegia-as o governo, fazendo-lhes larguissimas concessões nas terras que descobrissem, mas não as subsidiava, nem consentia tambem que elles interferissem nas descobertas reservadas para si. As terras concedidas eram-n’o com a condição de não serem nos mares da Guiné.

Ah! Se Christovam Colombo armasse duas caravelas á sua custa, ou conseguisse que um capitalista o commanditasse, com que facilidade elle obteria de D. João II todas as concessões que desejasse! Foi uma felicidade para o mundo que Colombo não tivesse dinheiro para a empreza, nem socios capitalistas. Se os tivesse, quando percorresse tanta extensão de mar sem encontrar terra, quando visse a perspectiva de perder completamente o seu dinheiro ou o dos seus socios, talvez não ousasse proseguir, e decerto lh’o não consentiriam os que representavam a bordo os interesses dos armadores. Para se levar a effeito essa obra grandiosa era necessario que estivesse empenhada no triumpho a honra de uma nação!