Em primeiro logar não era o rei que dava as capitanias dos Açores que pertenciam ao donatario seu irmão D. Fernando; em segundo logar a doação da capitania de Angra é feita pela infanta D. Beatriz, viuva de D. Fernando, a 2 de abril de 1474, nem ella a podia ter feito em 1464, porque então ainda vivia seu marido; em terceiro logar a infanta o que recompensa são «os serviços que João Vaz Côrte Real, fidalgo da casa do dito senhor meu filho, fez a seu padre que Deus haja, depois a mim e a elle»;[93] em quarto logar Alvaro Martins já tinha uma capitania da ilha Terceira muito antes de João Vaz, tanto que a carta de doação a Alvaro Martins, em 17 de fevereiro de 1474, allega o seguinte motivo: «Considerando eu como entre Jacome Bruges e Alvaro Martins, capitão da sua ilha Terceira de Jesus Christo, sempre houve alguns debates por a terra da dita ilha não se ter de todo partida...»[94]

Gaspar Fructuoso o que diz simplesmente, e n’um capitulo inçado de erros historicos evidentissimos, recheado de lendas, e em que parece até que ignora a existencia do grande Gaspar Côrte Real, é que, «vindo João Vaz Côrte Real do descobrimento da Terra Nova dos Bacalhaus, que por mandado de el-rei foi fazer, lhe foi dada a capitania de Angra da Ilha Terceira e da Ilha de S. Jorge.»[95]

Sem nos alongarmos em considerações basta que citemos os seguintes documentos: a carta de doação de 12 de maio de 1500, em que D. Manuel concede a Gaspar Côrte Real as terras que descobrir, per sy e a sua custa... por ho asy querer fazer com tanto trabalho e perigo,[96] e a carta de doação de 17 de setembro de 1506, que transfere para Vasco Annes Côrte Real a doação da Terra Nova, «avemdo respeyto e lembramça como o dito Gaspar Corte Real seu irmão ffoy o primeiro descobridor das ditas teras[97]

O que se deprehende de tudo o que diz Gaspar Fructuoso é que João Vaz Côrte Real era nos Açores um heroe legendario, um forte e um intrepido. Formara-se a lenda em torno d’elle. Pae de uma familia de navegadores, foi de certo navegador elle mesmo. Como tantos outros dos seus patricios, procurou tambem talvez, como elles, desvendar os segredos do occidente, mas voltou sem ter encontrado novas ilhas e novas terras. Teria ido talvez mais longe do que Diogo de Teive, que chegou a cento e cincoenta leguas ao occidente do Fayal, mas, se o fez, desanimou tambem e voltou sem encontrar a cubiçada terra. Foi mais feliz seu filho, e mais feliz porque o exemplo de Colombo pozera termo aos desanimos, e se nova prova fosse necessaria basta lembrarmo-nos que Martim de Behaim, o famoso geographo, que acariciou ardentemente o mesmo ideal de Colombo, que tudo queria saber do que se passava para o occidente, que viveu nos Açores em alta situação, que alli trabalhou, pensou e elaborou os seus trabalhos geographicos, ao fazer o globo de Nuremberg, em 1492, n’elle não inseriu a Terra Nova dos Bacalhaus, apesar de se não esquecer de inserir as ilhas phantasiadas.

É no meio d’este grupo de marinheiros intrepidos, devorados da curiosidade do Oceano, que não pensam senão nas suas secretas maravilhas, que não sonham senão com prestigiosas terras, cercadas por todas as miragens do mar e por todas as miragens da phantasia, por todas as confidencias mysteriosas que as correntes pelagicas lhes trazem de remotos mundos, é n’este synhedrio de pilotos que não ignoram o que dizem os livros, mas que sabem sobretudo o que diz o livro immenso do mar, que apparece de subito a figura pensativa e ardente de Christovam Colombo. N’essas torres de atalaya, como que erguidas pela natureza no seio dos mares, debruça-se a mirar sofregamente o Oceano o rosto ardente do Genovez. Era o homem providencial, um d’estes homens em que se incarna fatalmente a idéa que fluctúa sobre uma geração revolvida pela ancia do desconhecido no mundo physico ou no mundo moral. Se o problema do Occidente preoccupa já todos os espiritos na Europa, nos Açores e na Madeira apresenta-se com dobrada intensidade. Não volta um navio do occidente que não se trate logo de saber se traz comsigo a noticia de um novo descobrimento. Por uma coincidencia singular quasi ao mesmo tempo apparece nos Açores um homem intelligente e sabio, Martim de Behaim, que se sente tambem arrastado pela invencivel convicção de que ha terras para o lado do occidente, e que é por alli o verdadeiro caminho da India. Esse homem tem na sua vida singulares relações com a de Colombo. Este casou com a filha do donatario de Porto-Santo, aquelle com a do donatario do Fayal; um foi á Guiné nos navios portuguezes, o outro foi em navios portuguezes até ao Zaire. Mas um é allemão, um diplomata, um burguez, um discipulo correcto e regular de um dos maiores sabios da Europa, Regiomontanus; o outro é um italiano, um sonhador, um irregular, um estudante incompleto. O primeiro encontra facil accesso junto aos principes e nas universidades, o outro não acha muitas vezes nos altos logares senão repulsas e desdens; mas este é um perseverante, um ardente, um allucinado, o seu convencimento é uma paixão que o absorve, que o devora. O que actua n’elle não é tanto o raciocinio como a visão. A alma do infante D. Henrique parece renascer n’elle. Passou de Sagres para o Porto-Santo o vulto do asceta. Secularisou-se apenas; já não é o monge militar, é o cavalleiro andante, mais affectivo, mais dulcificado pelo seu conhecimento do amor, mas tendo a mesma paixão pelos ideaes da fé e da sciencia. E como sempre são estes inspirados os que attraem por um magnetismo indizivel as idéas audaciosas que fluctuam no ar, como em D. Henrique se incarnaram todas as aspirações de um mundo que anceia por quebrar as grades do carcere em que a tradição o encerra, foi tambem em Colombo que se incarnaram todas essas idéas que pairavam na atmosphera do seculo XV, e muito especialmente na atmosphera açoriana e madeirense. Triumphou mais uma vez o sonho sobre a razão, a dilatação da phantasia inflammada sobre o trabalho mecanico e lento do raciocinio, o meridional expansivo e apaixonado sobre o septentrional fleugmatico e frio, e foi Christovam Colombo e não Martim de Behaim quem resolveu o segundo dos grandes problemas geographicos.


VIII
Christovam Colombo e D. João II

Quando Christovam Colombo, que viajára largamente, que estivera na Islandia e na Guiné, que estivera nos Açores, e que, casando com a filha de Bartholomeu Perestrello, tivera demorada residencia no Porto-Santo e na Madeira, combinou tudo o que lhe diziam os pilotos portuguezes, tudo o que os seus olhos viam n’essa terra da sua residencia, com o que encontrou nos livros, e sobretudo nos seus livros predilectos, os geographos antigos e a Imago Mundi de Pedro d’Ailly, fixou-se no seu espirito, de um modo indelevel, a convicção de que era perfeitamente possivel chegar á Asia partindo dos Açores, e communicou essa idéa ao rei de Portugal.

Actuou por acaso, de algum modo, no espirito de Colombo a viagem que elle fez á Islandia, e onde poude ter conhecimento das viagens dos navegantes escandinavos do seculo XII, que chegaram á Groenlandia e até á America do Norte, que elles denominaram Vinlandia? Não, decerto. Que tinham que vêr esses paizes do Norte com o seu sonho da Asia encontrada pelo occidente?