Se antes da descoberta de Colombo, se tinham arrojado por mais de uma vez navegadores açorianos para os mares do Occidente, com muita mais razão o fariam, logo que esse importante acontecimento se realisou. Evidentemente as viagens haviam de multiplicar-se.

O esforço dos Açorianos e muito especialmente dos Côrte-Reaes dirige-se então sobretudo para o Norte. Desde que Colombo chegou ás Antilhas, que elle tomou por archipelago asiatico, e a Cuba que elle tomou então por um pedaço de terra firme asiatica, opinião em que por muito tempo persistiu, os navegadores de todos os paizes e principalmente os que, antes de Colombo, como os Açorianos, já se occupavam de descobertas para o occidente, haviam de procurar seguir-lhe as pisadas e procurar, o que elle não conseguira, encontrar as terras maravilhosas de Cipango e do extremo oriental das Indias. A convicção geral era que para o sul é que se conseguiria esse desideratum, e já vimos como Pedro Martyr d’Anghiera soltava com um enthusiasmo quasi irritado esse grito: Para o sul! para o sul!

Era esse effectivamente o caminho que todos em geral seguiam. Colombo e os Pinzon ou foram mais para o occidente, ou foram para o sul. Mas isso não queria dizer que a idéa da navegação pelo norte não entrasse tambem em muitos espiritos.

O mappa de Toscanelli, aquelle famoso mappa que era provavelmente o que estava nas mãos de Pero Vaz Bisagudo, obedecia aos principios do geographo que o desenhára e que tinha a convicção de que ao occidente havia um prolongamento da Asia, que defrontava com o continente europeu e africano desde a Islandia até Guiné. Se, indo ao centro, Colombo encontrára effectivamente a Asia, como suppunha, mostrava portanto que era verdadeira a conjectura de Toscanelli, restava confirmal-a completamente. Foi isso que levou Pedro Alvares Cabral e muitos outros navegadores, ou ás occultas ou a descoberto, a dirigirem-se para o sul, foi isso talvez o que levou os Côrte-Reaes para o Norte.

Lembram-se os leitores de que uma das supposições da geographia systematica dos antigos era que o mar Baltico tinha saída para o oriente e que ía ligar-se com o mar Indico. Strabão dizia que «o facto de que certos navegadores viessem por mar da India á Hyrcania não é considerado como certo, mas que isso seja possivel, Patroclo nol-o assegura.»[123] Pomponio Mela conta muito positivamente que Metellus Céler, sendo proconsul das Gallias, recebêra de presente de um rei germanico uns Indios que, açoitados pela tempestade, tinham vindo da India á Germania «vi tempestatum ex Indicis æquoribus abrepti[124] Discutiu-se muito no nosso tempo se estes homens, que eram, ao que parece, e no caso de ser verdadeira a noticia, de uma raça differente da européa, não seriam afinal de contas senão Esquimaus arrojados, como a barcos tantas vezes succedêra e tem succedido, das costas americanas ás costas irlandezas, escocezas ou allemãs. O que é certo é que a idéa de haver communicação entre a Europa e a India pelo norte, indo-se, porém, do occidente para o oriente estava enraizada no animo de muitos geographos antigos.

Assim que se encontrou ou se suppoz encontrar a costa asiatica indo-se pelo occidente, a communicação tanto se podia fazer pelo norte, como pelo centro, como pelo sul. Effectivamente as costas asiaticas, como o suppozera Toscanelli, estendiam-se de norte ao sul, desde a Islandia até á Guiné. Era evidente que a expedição do norte tentava os açorianos. Logo que Gaspar Côrte-Real em 1500 encontrou terras, imaginou, como Colombo, ter encontrado terras asiaticas, e uma carta de Pespertigo, embaixador de Veneza em Portugal, é, para esclarecer esse assumpto, muito curiosa.

Diz elle: «Tambem crêem (os Portuguezes) estar ligada (a Terra dos Côrtes-Reaes) com as Antilhas que foram descobertas pela Hespanha, e com a terra dos papagaios (Brasil) ultimamente achada pelos navios d’este reino que foram a Calicut.»[125]

Humboldt que teve conhecimento d’este documento, espanta-se muito com elle. «No mez de outubro de 1501, diz o sabio escriptor, sabia-se já em Portugal que as terras do norte cobertas de neves e de gelo são contiguas ás Antilhas e á Terra dos Papagaios novamente encontrada. Esta advinhação que proclama, apesar da ausencia de tantos élos intermediarios, como ligação continental entre o Brasil descoberto por Vicente Vanez Pinzon, Diogo de Sepe e Cabral e as terras geladas do Lavrador é muito surprehendente[126]

A surpreza de Humboldt vem apenas da pouca importancia que elle dá á interferencia portugueza no descobrimento da America. Desde o momento que elle ignora as tentativas dos Açorianos para chegarem a terras occidentaes antes de Colombo, as tentativas que fizeram depois, desde o momento que elle não conhece as expedições clandestinas dos Portuguezes para encontrarem ao sul as terras asiaticas que Colombo não achára, desde o momento que attribue a um méro acaso a descoberta do Brasil por Pedro Alvares Cabral é evidente que não pode achar a concatenação de todos estes esforços, de que provém o presentimento da ligação de todas essas terras descobertas separadamente. Era sempre a Asia que todos os descobridores julgavam encontrar, ilhas da Asia ao sul, terras da Asia ao norte. N’um mappa publicado recentemente pelo sr. Harnin, o brilhante apologista dos Côrte-Reaes, se diz que viram n’umas terras a que não chegaram «serras muito espessas, pollo quall segum a opiniom dos cosmófircos se cree ser a ponta d’asia[127]