Não vale a pena demorar-mo-nos nem um instante na refutação das lendas relativas a suppostos descobrimentos do Brazil, anteriores a Pedro Alvares Cabral. A lenda mais pueril é a que suppõe que, não só antes de Pedro Alvares ter aportado a terras de Santa Cruz, mas ainda antes de Colombo ter aportado a Guanahani, um Portuguez, João Ramalho, chegára a terras brasileiras. Baseia-se essa lenda n’um supposto testamento feito por esse João Ramalho, que foi efectivamente um dos primeiros colonos do Brasil, mas que se tornára, pela sua residencia entre selvagens, quasi tão selvagem como elles, testamento feito por elle em 1580, e em que declara que havia noventa annos que estava no Brasil, aonde chegára, por conseguinte, em 1490. Era portanto macrobio este venerando descobridor que não podia ter menos de 20 annos quando chegou ao Brazil, e, ainda quando o fosse, era singular o testamento de um homem, que, aos 110 annos, tendo perdido as noções da vida civilisada, com tanta precisão chronologica dizia que estava no Brasil não ha oitenta ou noventa annos, como seria natural que o fizesse e talvez ainda exaggerando a conta, mas rigorosamente ha noventa! Ora d’esse testamento não ha noticia senão a que dá um d’esses chronistas fradescos do seculo XVII, que tão facilmente, como é sabido, falsificavam datas e inventavam documentos. Mas o golpe mortal n’esta lenda infantil foi dado por um eminente escriptor brasileiro, o sr. Candido Mendes de Almeida, que depois de mostrar o absurdo da lenda e a ausencia de documentos em que se baseasse, publicou uma carta de um jesuita que, estando em 1559 na terra em que João Ramalho habitava, e dando conta aos seus superiores dos progressos da conversão dos indigenas, lhes fallava n’um Indio que lhe pediu que lhe dissesse quaes os dias em que devia jejuar, porque deixára de o saber desde a morte de João Ramalho, que era quem em vida lh’o dizia.[121]
O que é, porém, estranho é que ainda encontremos com relação ao Brazil a questão dos mappas. Porque mestre João diz a D. Manuel que, para saber o sitio d’essa terra, veja um mappa-mundi antigo que tem Pero Vaz Bisagudo, d’ahi se conclue que o Brasil já fôra descoberto, tanto que já o inseriam n’um mappa. É a eterna historia dos mappas conjecturaes, dos mappas em que appareciam ilhas que ninguem vira e que ninguem chegou a vêr, e aquella terra ao sul do Equador, a terra incognita austral, a terra antichthona ou o alter orbis. Pois não se vê realmente que as cartas muitas vezes acompanhavam as descobertas, e que, se em rigor era possivel que se fizessem descobrimentos que ficassem desconhecidos, o que era impossivel era que a noticia d’esses descobrimentos se propagasse de fórma que lhes inserissem os cartographos nos mappas os resultados, e que apesar d’isso ficassem desconhecidos dos escriptores, dos sabios e dos governos!
Cem vezes o repetiremos: os descobridores do seculo XV, cheios de respeito tradicional pela sabedoria antiga, não aspiravam senão a encontrar o que os antigos, no seu entender, conheciam perfeitamente, e por isso faziam esforços para adaptar o que descobriam e que encontravam aos mappas conjecturaes. Como veremos, o que procuravam agora era a terra antichthona, a que já se podia chegar desde o momento que se passára a zona torrida, mas que estava separada da nossa pela extensão dos mares. A essa terra antichthona suppunham chegar agora encontrando o Brasil, e era ao Brasil até que chamavam o novo mundo. Que Pedro Alvares Cabral julgára ter chegado á terra separada pelo mar do hemispherio septentrional é incontestavel, e por isso facilmente se convenceu, pelo que julgou deprehender dos gestos dos selvagens, que estava n’uma ilha, a que deu o nome, primeiro que o Brasil teve, de ilha de Vera Cruz.[122]
Julgamos porém ter demonstrado que esse descobrimento se liga intimamente com o de Colombo, é a sua consequencia, como era tambem, ao mesmo tempo, o da Terra-Nova por Gaspar Côrte Real. As descobertas portuguezas conjugadas com as de Colombo produziam a descoberta do Brasil. Os dois grandes problemas geographicos estavam resolvidos: a zona torrida não era inultrapassavel, e por isso Pedro Alvares Cabral, seguindo as pizadas de Bartholomeu Dias e de Vasco da Gama transpunha o Equador, entrava em plena zona torrida e ía tranquillamente ao hemispherio meridional. A extensão do mar oceano não era infinita, tinha o Atlantico outra margem, e Pedro Alvares Cabral ía com plena confiança procural-a. Sem os descobrimentos portuguezes nada faria Colombo, porque os Açores eram um ponto capital de partida para as expedições occidentaes, e porque os terrores da zona torrida e das suas proximidades, não lhe permittiriam seguir o parallelo que seguiu. Sem o descobrimento de Colombo nada faria Pedro Alvares Cabral, porque não ousaria ir tão longe para o occidente. A Hespanha e a Portugal devia o mundo essa transformação da sua geographia. Completal-a-hia a circum-navegação do globo e o encontro do caminho pelo occidente para a Asia, e, como se a Providencia quizesse d’essa forma sellar de um modo indestructivel a collaboração dos dois povos na obra mais importante da historia da humanidade, foi um capitão portuguez commandando navios hespanhoes que deu ao mundo o cinto argenteo do rasto das suas quilhas, foi Fernão de Magalhães que planeou dirigiu e iniciou a expedição, foi Sebastião d’El-Cano que a completou e concluiu, e para que n’essa consagração ultima e solemne da conquista definitiva da Terra pelo homem, não faltasse tambem a patria gloriosa de Colombo, a audaz, a pensadora e sonhadora Italia, ía Pigafetta na expedição que narrou, para que assim os tres povos latinos, que eram egualmente benemeritos da civilisação e da sciencia, tivessem n’esse coroamento da grande obra os seus representantes. Essa epopéa ultima que ía pôr o fecho ao trabalho épico de um seculo para sempre glorioso nos fastos da humanidade, foi um Portuguez que a dirigiu, foi um Hespanhol que a completou, foi um Italiano que a escreveu.
X
Os Côrte-Reaes—Americo Vespucio Fernão de Magalhães