Como era possivel, diz-se, que Pedro Alvares levasse uma esquadra tão numerosa, se fosse no intento de fazer descobertas, que se faziam habitualmente com tres ou quatro caravelas? Em primeiro logar era indispensavel esconder ao rei de Hespanha esses intentos descobridores, em segundo logar, se effectivamente se fosse ter ás terras governadas pelos potentados de que Marco Polo dera noticia, o exemplo do que succedera a Vasco da Gama bem mostrava quanto era necessario que se não apparecesse com pequena força deante d’esses soberanos do Oriente, em terceiro logar o fim principal da viagem era ir á India. Se effectivamente se topasse o Cipango ou o Cathay, a esquadra de Pedro Alvares ia bem, assim forte e numerosa; se nada se encontrasse, ou se se encontrasse terra como a que Colombo encontrara, voltava-se a seguir o velho caminho de Calicut.

Porque é que Pedro Alvares, tendo realisado a descoberta de que ia incumbido, não voltou a Lisboa a dar a gloriosa noticia de tão importante feito? Porque nem elle lhe reconheceu a importancia nem na côrte lh’a reconheciam. O que dava cuidado ao governo portuguez não era que Colombo tivesse descoberto umas ilhas selvagens, era que elle tivesse encontrado um novo caminho para a India, assim como o que desconsolava os reis catholicos, e fazia perder a Colombo o seu valimento e auctoridade, era que, em vez d’elle ter encontrado paizes florescentes e civilisados, encontrára ilhas selvagens.

Depois do que temos dito, não extranham de certo os leitores e encontra acceitavel explicação o facto de D. Manuel não ter dito aos reis catholicos, nem se ter publicado o verdadeiro motivo da descoberta do Brasil. Vejamos agora se os motivos até hoje allegados teem razão de ser.

Foi uma tempestade que arrojou os navios em direcção ao occidente? Extranha tempestade, que, em vez de dispersar os navios, os leva de conserva ao mesmo ponto! Além d’isso nem o piloto da esquadra, que fez a relação que Ramusio publicou nem Pero Vaz Caminha e o physico João nas suas celebres cartas, nem D. Manuel nas cartas que escreveu aos reis catholicos dizem uma palavra a respeito de semelhante tempestade. Foi muito depois que Pedro de Mariz se lembrou de dar, por effeito decorativo, a tempestade legendaria das descobertas á narrativa do descobrimento do Brasil, que lhe parecera provavelmente desenfeitada demais na sua abstenção de episodios.

Note-se além d’isto que, segundo as informações dos roteiros colligidas n’uma preciosa memoria do illustre official da marinha portugueza o sr. Arthur Baldaque da Silva, as tempestades que sopram na região percorrida pelas esquadras de Pedro Alvares, e na quadra em que elle a percorreu são de noroeste e de sudoeste, que, longe de impellirem os navios para a costa do Brasil pelo contrario os afastariam.[115]

Mas foram as correntes que levaram os navios, diz Gonçalves Dias na memoria em que procura refutar os argumentos de Joaquim Norberto, e a grande corrente equatorial arrastou os navios para a costa do Brasil.[116] Se Pedro Alvares Cabral tivesse chegado ao Pará, a sua ida teria uma explicação, porque a corrente segue de leste a oeste ao longo do Equador, mas, bifurcando no cabo de S. Roque, segue uma direcção tal, combinada com os ventos geraes, que uma esquadra, diz o almirante Monchez ha pouco fallecido, «não pode senão afastar-se cada vez mais da costa, quando quer dobrar o cabo da Boa Esperança, visto que de um lado os ventos permittem navegar para leste, do outro a costa afasta-se para oeste».[117] Se se appella para as correntes da costa, vemos, segundo o testemunho do mesmo almirante Monchez, «que durante a monção de SO levam para o norte»;[118] ora a monção de SO dura de abril a setembro, exactamente quando Pedro Alvares Cabral era, segundo se diz, arrastado pelas correntes para o sul.

Estes factos pareceram tão singulares ao almirante Monchez que não podendo explicar por elles a descoberta do Brasil, e não conhecendo os elementos politicos da questão, deduz o seguinte: «É pois quasi impossivel dar outro motivo plausivel da chegada de Cabral á vista de terra pelos 16° de latitude, a não ser um erro de caminho por esse navegador.»[119]

Esse erro tinha de ser constante durante 15 dias, e seria singular que só se désse quando trazia em resultado a descoberta do Brasil, ao passo que antes d’isso tinham passado, sem o mais leve engano, pelas Canarias e por Cabo Verde, e depois d’isso foram direitos ao cabo da Boa Esperança.

Confronte-se isto tudo, note-se que temos prova authentica de que em 1498, do anno immediato áquelle em que Vasco da Gama sahira de Portugal, foi Duarte Pacheco incumbido de ir descobrir terras a sudoeste, que o governo hespanhol tanto desconfia dos intentos de Portugal que espreita as nossas costas e tem navios promptos para seguir qualquer expedição portugueza que para o occidente se dirija, que D. Manuel, para desfazer suspeitas, trata logo de declarar que a terra descoberta a utilidade que tem é servir de porto de escala para a navegação da India, que trata tambem de disfarçar a distancia a que o Brasil fica de Cabo Verde, porque, tendo-lhe dito Pero Vaz de Caminha na sua carta que a nova terra ficava a 660 ou 670 leguas da ilha de S. Nicolau no archipelago de Cabo Verde, para os reis catholicos diz elle que fica a 400 leguas não da ilha mas do Cabo Verde que bem se pode suppor que seja o da costa africana,[120] de fórma que ficava assim o Brasil dentro da demarcação do tratado de Tordesillas, e veja-se se não é de uma evidencia absoluta que a descoberta do Brasil estava nos planos do governo portuguez, não porque soubesse a terra que ia encontrar mas porque não queria deixar aos seus rivaes o proveito de um caminho para a Asia mais curto do que o que Vasco da Gama acabava de descobrir.