O que era necessario, porém, era ligar essas duas grandes emprezas. Por circumstancias verdadeiramente providenciaes foram os representantes dos dois povos ligados na mesma empreza, que ataram as fitas soltas das grandes explorações oceanicas, e esse enlace supremo foi Magalhães que o começou, foi Elcano que o concluiu.

Assim nas descobertas como em todas as emprezas do espirito humano é a evolução que se manifesta. Não procede por saltos a natureza, tudo se liga e se concatena. A missão dos grandes homens está exactamente em serem os elos d’essa cadeia. As tentativas infructiferas, dispersas, quasi inconscientes dos Catalães de Jayme Ferrer, dos Normandos de Bethencourt, dos Genovezes de Vivaldi, e dos pescadores e marinheiros portuguezes que procuravam arcar com o cabo Não ou devassar o Atlantico unia-as o infante D. Henrique, dava-lhes o nó que as aproveitava, o cabo Bojador dobrava-se e os Açores e a Madeira sahiam do seio das ondas. As tentativas infructuosas tambem dos Açorianos e dos Madeirenses ligava-as a mão poderosa de Colombo, e dava assim um novo fusil á cadeia dos descobrimentos e a America apparecia. E por isso os povos quando encontram na sua historia um d’esses homens insignes, sem renegar os seus esforços collectivos, nem deixar de lhes reconhecer a importancia, saudam n’esses grandes vultos uns entes extraordinarios que souberam dar uma realidade positiva aos seus sonhos e ás suas aspirações, e foram n’esse tumultuar de pensamentos desconnexos e inconscientes, as radiosas incarnações da Consciencia da humanidade.


FOOTNOTES

[1] Tom. I, secção 1.ª, pag. 285.

[2] Publicado por Dumont no Corpo Diplomatico, tom. III, parte I, pag. 200. E além d’esta as bullas de Calixto III, de 14 de maio de 1455 e de Xisto XV, de 21 de julho de 1481, e a famosa divisão dos mares entre Portugal e a Hespanha por Alexandre VI, e os tratados entre Portugal e Hespanha, em que sempre se reconheceu o direito que tinhamos á costa africana pela prioridade do descobrimento, e a deferencia com que a França sempre reconheceu o nosso direito, mandando Luiz XII restituir uma caravela portugueza vinda da Mina, tomada pelos francezes, e prohibindo Francisco I, a 28 de junho de 1532, que fossem navios francezes á costa da Guiné, em attenção aos tratados! V. Visconde de Santarem: Recherches sur la découverte des pays situés sur la côte occidentale d’Afrique au delà du cap Bojador etc., § VII, pag. 67 e segg. E em 1513, publicou-se em França, um livro intitulado: Nouveau Monde et navigations fectes dans les pays et iles auparavant inconnues, e cujo primeiro livro se intitula Livro da primeira navegação pelo Occeano para a terra dos Negros da baixa Ethiopia por ordem do illustre senhor infante D. Henrique, irmão de D. Duarte, rei de Portugal. E esse livro reimprimiu-se em 1516! E note-se que Francisco I não se desinteressava na questão dos descobrimentos, e os marinheiros francezes procuravam seguir as nossas pisadas. É conhecido o famoso dito do rei de França, que queria saber qual o artigo do testamento de Adão que deixava parte do mundo aos reis de Portugal e de Hespanha. Podendo pôr embargos, era de estranhar que o não fizesse.

[3] Histoire de la première descouverte et conqueste des Canarias faite dés l’an 1402 par messire Jean de Bethencourt, escrite du temps mesme par F. Pierre Bontier et Jean Le Verrier, prestres domestiques dudit sieur de Bethencourt, conseiller du roy en la cour du parlement de Rouen, cap. LIII, pag. 95. (Paris, 1830).

[4] Ibid., pag. 4.

[5] Ibid., cap. LIV.

[6] Ibid., pag. 102.