[7] Palavras de Innocencio VII, escriptas em 1406 a João de Bethencourt e citadas na relação dos capellães a pag. 197, cap. LXXXIX.
[8] Este erro gravissimo deu origem a todas as falsas reivindicações francezas, apezar de ter sido completamente desfeito no proprio seculo XV. Chamava-se primeiro Gianya, Gineva ou Gynoya ou Guiné á terra proxima de Marrocos, que se suppunha habitada pelos negros, e com a qual se fazia commercio. Era esta a Guiné que ficava a doze leguas das Canarias, «do outro lado da ilha de Fuerteventura», como dizem ainda os capellães de Bethencourt. Azurara, quando chama Guiné á costa do Senegal descoberta pelos Portuguezes, desculpa-se de ter já chamado assim, para empregar a linguagem commum, a outro paiz onde tinham estado primeiro os Portuguezes, e que era d’este muito distante. Essa primeira Guiné, ou Guiné antiga, reclamou-lhe o senhorio o rei de Castella, D. João II, que escrevendo de Valladolid a D. Affonso V de Portugal, a 19 de abril de 1454, dizia-lhe: «Otrosi, rey muy caro, e muy amado sobrino, vos notificamos que, viniendo ciertas caravellas de ciertos nuestros subditos e naturales vecinos de las nuestras ciudades de Sevilla y Cadiz con sus mercaderias de la tierra que llaman Guinea, que es de nuestra conquista, e llegando cerca de la nuestra ciudad de Cadiz á una linea estando en nuestro señorio e jurisdicion, recudieron contra ellos Pallencio, vuestro capitan etc.»
Esta Guiné, cuja conquista o rei de Castella dizia pertencer-lhe, fazia parte do reino da Africa, sobre a qual os reis de Castella diziam ter direito, herdado dos Godos. Quando o nome de Guiné ficou pertencendo á região que hoje o tem, quer dizer a que está para além do Cabo Bojador, os reis de Portugal tomaram sem contestação nem cedencia de Castella o titulo de senhores de Guiné, baseado no direito de primeiros descobridores que ninguem lhes impugnou. E a Guiné antiga perdeu essa denominação. Ahi está o segredo da confusão que deu origem ás pretenções tão absurdas dos Normandos e dos Catalães.
[9] «Toscanelli distingue en outre les îles que l’on rencontrera sur la route, que estan situadas en este viage, par exemple l’Antilia, d’avec les îles qui sont proches de l’Inde continentale, par exemple Cipango et les îles avec les quelles trafiquent les négocians de différentes nations.»—Humboldt.—Histoire de la géographie du nouveau continent, tom. I, sec. 1.ª, pag. 228.
[10] Ácerca das tres Indias, e das differentes denominações com que apparecem na edade média, veja-se sobretudo o magnifico Essai sur l’histoire de la cosmographie et de la cartographie pendant le moyen-âge, etc., pelo visconde de Santarem, tom. I, pag. 136, 251, 182, 394, tom. II, pag. XXXVIII, 189, 223, tom. III, pag. 28, 420, 346, 371, 161, 199, 217, 274, 161, 240, 442, 360, 370, 195. (Paris, 1849). Os nomes das differentes Indias são variadissimos, Barbara, Deserta, Primeira, Segunda e Terceiro, Magna e Parva, Superior, Inferior e Exterior, Intra Gangem, Ultima, Arenosa, etc. Sabendo-se o que eram estas differentes Indias, como abrangiam a Tartaria, a Arabia, a China, e até a Ethiopia, espantar-se-ha menos o leitor de que os Portuguezes procurassem na Africa o Prestes João das Indias. Essa lenda tambem mudou de local como o nome de Guiné e a designação de Ethiopia, mas pode-se dizer que nunca saíu de alguma d’essas Indias.
[11] Gosselin Recherches sur la géographie systématique des anciens, tom. I, pag. 140. É firmando-se na auctoridade de Herodoto que este sabio affirma que o grande Oasis do Egypto tinha outr’ora o nome de ilha dos Bemaventurados.
[12] O mappa-mundi de 1417, conservado no palacio Pitti, por exemplo, indica duas Taprobanas, Ceylão e Sumatra. Quando não era Sumatra exclusivamente Taprobana, era a uma das duas ilhas que esse nome se dava. D. João de Castro no prologo do seu Roteiro de Lisboa a Goa, quando falla a El-Rei de Portugal nos dominios que tem, diz: «como Taprobana que os antigos criam ser outro mundo nouo, reconhece seu alto nome e lhe paga pareas» e accrescenta em nota: «Taprobana é agora chamada Samatra» a pag. 14. A essa Taprobana tambem se refere evidentemente Camões no seu famoso verso:
Passaram inda além da Taprobana
Tendo no tempo de Camões chegado os Portuguezes já ao Japão, era bem natural que, havendo a Taprobana-Ceylão e a Taprobana-Sumatra a esta ultima se referisse o grande poeta indicando o limite ultrapassado pelos Portuguezes. O famoso mappa da cathedral do Hereford colloca a Taprobana defronte do golpho Arabico. Prisciano no seu poema geographico põe a Taprobana no mar oriental juntamente com a ilha phantastica do Ouro. No tratado De moribus brachmanorum que se attribue a S.ᵗᵒ Ambrosio citado por Klaproth na sua Lettre sur la boussole, pag. 53, põe-se a Taprobana em Ceylão, ilha que tem magnetes que attrahem os navios que teem pregos de ferro e não os deixa mover. N’alguns mappas da edade média põe-se a Taprobana deante da bocca do Ganges.
[13] A Aurea Chersoneso de Ptolomeu e de Marino de Tyro corresponde sem duvida á peninsula de Malaca, mas o mappa de La Salle por exemplo colloca a Aurea Chersoneso no Indostão.