Faz justiça!

NÉRO

Que castigo terrivel, que torturas serão bastantes para punir tal crime? Com a ajuda das potencias do Tartaro, darei ao meu povo um tal espectaculo, que d'elle se falará, em Roma, pelos seculos dos seculos!

PETRONIO, aparte

Que Cezar bandido! (olhando Marcos, que passeia louco) É precizo salvar Lygia. Ou me perco, ou a salvo. (approximando-se galante, natural, brincando com a tunica gracioso) Assim... encontrastes as victimas? bem; mas escutai me. Tendes a auctoridade, tendes a guarda dos pretorianos, tendes a fôrça! Então sêdes leaes. Entregai os christãos ao povo, supliciais-os; mas confessai primeiro que não foram elles que incendiaram Roma! Ha tambem uma elegancia da alma: como mestre de todas as elegancias dir-vos-hei, que não supporto tão miseraveis comedias! (Pasmo) Com relação a ti, Cezar, porque me tens fallado muita vez da posteridade, reflecte o que ella dirá de ti! Pela divina Clio! Néro-Senhôr do mundo, Nero-Deus queimou Roma porque era tão formidavel na Terra, como Zeus no Olympo! Nero-poeta amou a tal ponto a poesia que lhe sacrificou a Patria! Desde o principio do mundo, ninguem ousou pensar em tão extraordinaria coisa! Tu o fizeste, esta gloria é tua, não a renegues. Ao pé de ti o que será Priamo, Agamenon, Achilles? os proprios Deuses? Coragem. Livra-te de abdicações indignas; porque então a posteridade poderá dizer-te: Nero queimou Roma; mas tão pussilamine Cezar, como pussilanime poeta, negou o facto, e atirou, cobardemente, a falta por sobre os innocentes! Tal acção não honrará a tua memoria!

TIGELINO

Senhôr, dá-me licença para que sáia. Aconselham-te a lançares-te no maior perigo: tratam-te de Cezar e poeta pussilanime, de comediante... Os meus ouvidos recuzam se a ouvir mais.

PETRONIO, aparte

Cezar hesita? Estou perdido! (a Tigelino) Tigelino, a ti é que eu chamei comediante, porque o és, ainda n'este momento.

TIGELINO