A mim parece-me que a vida com o seu cortejo de dores, de deveres, de sacrificios, de affectos, a vida com a sua manhã purpurea e gorgeada, com o seu meio dia luminoso em que rompe em ondas crystallinas a musica triumphante dos vinte annos, com a sua tarde melancolica d'uma doçura indefinida e dubia, com a sua noite emfim, noite estrellada e calma, em que esmorecem e expiram todos os rumores da terra, é como que um poema completo, uma symphonia em que ha todas as notas, todos os tons, todas as expressões.

Os que amaldiçoam a vida, ou querem fugir das suas commoções naturaes, procurando n'um meio artificial, n'uma atmosphera de estufa outros gozos, outros prazeres, outras angustias, são esses que não entendem a opulencia harmoniosa da criação!

Ser filha, e noiva e esposa e mãe! onde acharemos estados da alma mais completos que aquelles que resultam naturalmente d'estes modos de ser?

Aqui ha tudo! Alegrias, dôres, sobre-saltos, esperanças, sonhos, arrebatamentos, extasis ineffaveis!

Não proscrevamos o romance da vida, pelo contrario identifiquemol-o com a vida!

Ponhamos no nosso modo de sentir a maior porção de ideal, a que sejamos accessiveis.

Pensar que o dever só póde comprehender-se terra a terra é amesquinhar e rebaixar o dever!

A paixão não precisa de ser criminosa para nos dar gozos supremos; creio mesmo que é o crime que a torna amarga aos labios e dolorosa ao coração!


Perguntavas-me no outro dia maliciosamente se eu faço a minha leitura predilecta da Moral em acção.