Sento-me ao piano e toco, toco até me sentir sem forças.
Converso longamente com os amigos da minha mocidade, com os que me vestiram a alma da crystallina armadura que resistiu a todos os attrictos da miseria humana.
Conto-lhes as luminosas aspirações da minha adolescencia, a ideia que eu fazia da abnegação, do amor, do sacrificio; e os esforços que empreguei para me cingir sempre a essa ideia levantada e superior.
Conto-lhes o bello instante radioso em que na minha vida desabrochou a flôr mysteriosa que elles me haviam ensinado a julgar o premio mais dôce de um coração cheio de fé. E com que extremos eu cultivei essa flôr que um dia se desfez em cinzas nas minhas tremulas mãos! E como a doce illusão de a possuir me fizera melhor!
Depois conto-lhes a tempestade que subitamente fez sobre mim a sua explosão sinistra, e o meu desamparo e a minha dôr fulminadora, e a vacillação tremenda em que eu vi tudo que julgara immutavel prestes a desabar, deixando-me só ruinas!
Foi então que o amor d'elles me salvou, foi então que as suas vozes divinas me chamaram, e que, na esphera elevada em que elles moram, eu me senti penetrar da calmaria adormecedora de todas as paixões ruins!
No outro dia, depois de tocar duas horas, esquecida de tudo, procurei meu filho e achei-o de joelhos ao pé de mim.
Tinha a gentil cabeça loura mergulhada nos meus vestidos, e, quando levantou os olhos cheios de lagrimas, disse-me com uma voz em que se fundiam todas as musicas:
—Ó mãe, Deus te abençôe, porque foste ultrajada e trahida, e eu posso amar-te e respeitar-te.