A CIGANA
Quando o gageiro gritou do alto das vergas—terra!—toda a gente que vinha a bordo da galera Terrivel sentiu uma grande e indefinida alegria.
Subiram uns para o tombadilho, outros deixaram-se ficar no convez, e os passageiros da prôa, os mais pobres, encarapitaram-se na amurada; começaram todos a olhar com uma anciedade febril para a facha escura que a pouco e pouco avultava no horizonte.
A viagem tinha sido longa; a galera levára cincoenta dias a chegar do Rio de Janeiro.
Mas, todas essas penas, todo esse aborrecimento que assaltam o viajante que durante dias e dias não vê mais que o céo e o mar, desapparecem como que por encanto ante essa palavra magica, solta pelo gageiro—terra!
Os passageiros eram, na maior parte, gente de baixa condição e de ambições modestas: tinham sido no Brazil carroceiros, feitores de roça, carpinteiros e pedreiros.
Vinham com pouco dinheiro, mas traziam grande abundancia de saudades; tinham soffrido, padecido longe da patria, mas como ella os ia compensar de todas essas amarguras!
A alegria bailava em todos os olhos.
Ah! o capitão Navarro, apezar de ter feito aquella viagem cincoenta vezes, tambem vinha contente e esfregava as mãos, tomado de um jubilo desmedido.
Quando o piloto se correspondia com o castello da barra, o capitão impaciente, mas sem perder o seu aspecto risonho e benevolo, perguntava: