Arrancaram-lhe a custo da boca o seu querido fardo e ella continuou a nadar frouxamente sem poder resistir ás ondas que a levavam de chofre de encontro aos escaleres.
Quiz subir, galgar a borda de um dos escaleres, e não pôde, resvalou na agua, ganindo dolorosamente, sendo preciso que um dos marinheiros a empolgasse com força, arrebatando-a assim á morte inevitavel.
Da galera, applaudiram a acção da Cigana, e quando ella e o capitão chegaram, não sei bem qual dos dous foi mais abraçado.
—Bravo, Cigana! exclamou o contra-mestre, não ha homem que te valha. Dá cá um abraço!
O capitão foi levado por dous marinheiros para a sua camara, emquanto a Cigana, resfolegando alto, com os olhos embaciados, o corpo escorrendo agua e todo tremulo, tentava arrastar-se para onde lhe levavam o dono.
Ora, aqui está porque a Cigana era tão querida e estimada na pequena e alegre casa do capitão em Lessa, e aqui está a razão por que a filha do velho e bondoso Navarro lhe pedia com tão amavel meiguice que deixasse ficar a Cigana quando para a outra vez tivesse de fazer viagem.
Quando a galera Terrivel partiu, não levava a seu bordo nem o capitão nem a Cigana. Porque?
Se o leitor é pae diga-me, se no caso do capitão Navarro, teria forças de fazer-se ao largo e deixar sósinha uma filha de quinze annos, graciosa e encantadora.