—Filho de peixe sabe nadar, volveu o capitão sorrindo com o divino sorriso dos paes, que se crêem unicos senhores dos affectos dos filhos.

Passada meia hora, ouviu-se no quintal o ladrar continuo, frenetico e raivoso da Cigana.

O capitão gritou da cama:

—O que é aquillo, filha? A Cigana está hoje como nunca a vi. Vai socegal-a, se não tens somno, e prende-a. Naturalmente os pescadores saltaram-me á fructa. É o que é. Deixal-os lá, coitados! Estes dias tem havido pouco peixe. Não vá a Cigana fazer alguma das suas... Ora vae, anda, tem paciencia... Eu não vou porque me sinto fatigado e exquisito hoje... A Cigana ouvindo-te, socega...


Luiza desceu ao pateo.

Abriu com mão tremula a cancella e encostou-se vacillante, agitada e convulsa ao muro. O ladrar da cadella cessára. Adiantou-se. No fundo do jardim sob a latada, um vulto cosia-se com a parede. A pobre menina levou as mãos ao peito, como para socegar a douda violencia do coração que parecia suffocal-a; quiz fallar e não pôde. O corpo vergava-se-lhe frouxo, molle, sem forças...

De repente sahiu das sombras das arvores a Cigana, que se arrastou para Luiza, ganindo dilacerantemente, movendo com difficuldade a cauda, com a parte posterior do corpo quasi paralytica, escorrendo-lhe da boca uma baba espessa, com os olhos dilatados desmedidamente...

N'aquelle olhar que a claridade da lua deixava distinguir havia um pedido, uma supplica.

Cigana! exclamou Luiza.