Ouvindo aquella voz, a cadella, que se sustentava difficilmente nas patas dianteiras, ergueu ainda, por um supremo esforço, a cabeça, e, tomada de uma ancia afflictiva, convulsionando-se-lhe o corpo n'um estremecimento instantaneo, soltou um gemido rouco, escabujou violentamente, e cahiu morta aos pés da filha do capitão.

—A sua Cigana é muito má, mas ainda é mais gulosa, disse o vulto que se escondia sob a latada.

—Que mal lhe fez este animal, sr. Gouvêa? perguntou reprehensivamente Luiza, estrangulando-se-lhe a voz na garganta.

—Boa pergunta! Não subisse eu tão depressa para o muro e estava asseiado a estas horas! O demonio do bicho! Mas vinha prevenido, atirei-lhe uma bola, que lhe soube como se fosse manteiga. Ora deixe lá o cão, querida, não se faça piégas...

Luiza interrompeu bruscamente aquellas palavras tolissimas, e endireitando o corpo, ergueu a voz quebrada pelas lagrimas:

—Saia, saia depressa; se não quer que meu pae o venha aqui matar sem ser tão cobardemente como o senhor acaba de matar a minha pobre Cigana.

E emquanto o vulto marinhava pelo muro, a desditosa creatura abraçava a Cigana, e chorava como sómente uma vez em vida chorára, quando lhe levaram para fóra de casa o corpo de sua mãe.

Cigana, minha pobre Cigana! repetia Luiza, fui eu que te matei!

Ao outro dia murmurava o capitão, fingindo-se sereno e forte para poder consolar a filha: