A solteirona é pretenciosa, presumida, avida de attrahir a attenção, revolve os olhos sentimentalmente, lê romances, come gulodices, tem um king charles e inveja tudo o que é moço, radiante, feliz, tudo que tem esperanças e para quem o futuro desabrocha em promessas.
A solteirona é egoista, incommodam-na como uma injuria que lhe é particularmente dirigida todas as alegrias que não tem, persegue-a atrozmente a aspiração irrequieta a um pobre marido que podesse atormentar á vontade; sente-se na vida como n'uma casa que não é sua; d'aqui o seu mau humor continuado que torna d'ella quasi sempre o flagello da familia onde se sente pária!
A tia Izabel, porém, não era nada d'isto, pelo contrario.
Tinha para os sobrinhos um coração que, sem ser de mãe, encerrava muito de maternal, sobretudo no que as mães têem de indulgente!
Nunca a vi colerica, nunca a vi tambem excessivamente animada.
Não se ria, mas tinha habitualmente um sorriso placido, quasi distrahido, o sorriso de quem se sente um pouco estranha a todas as alegrias que a rodeiam, mas que nem por isso deseja projectar as suas sombras na luz que os outros espalham em torno d'ella.
Era muito estimada pelo irmão, pela cunhada e pelos sobrinhos, uns traquinas que andavam sempre a recorrer á sua inexgotavel paciencia, e que nunca foram expulsos com um gesto de irritação ou de desamor.
Sabia a difficil sciencia de se tornar util a todos, quasi indispensavel; estreitando d'este modo os laços que a prendiam aos seus, tornando-os por assim dizer inquebrantaveis:
Sentia-se assim menos só!
Nos jantares de familia os melhores pratos eram sempre executados debaixo da sua direcção; era ella quem fazia o menu, quem distribuia os lugares, quem presidia a todos os arranjos de casa.