Era um gosto ouvil-o á mesa, ao domingo, quando o armazem repousava na sua humidade claustral, e não se ouvia o estrepitoso labutar dos negros carregadores, a voz arrastada dos Mineiros freguezes da casa, e a melopéa das quitandeiras na rua.

Os socios muito mais moços que Cerqueira puxavam-lhe pela lingua conforme a pittoresca locução do povo, e á sobremesa, recostados, com os charutos accesos, ouviam-no discretear alegremente.

Lembrava-se de tudo o sr. Cerqueira. Era uma chronica viva. Recordava-se da sua aldeia, narrava historias da sua infancia, descrevia com rudes mas pittorescas phrases a aula de primeiras letras, o abbade da freguezia, as proezas do tio frade, que com um varapáo nas unhas era homem para varrer toda uma feira, e enternecia-se até ás lagrimas, quando tocava no assumpto de despedida da mãe.

—Ah! vocês não imaginam! Não me sahe d'aqui! Parece que tenho um nó na garganta, quando me lembro d'aquelle momento. Abraçava-me a chorar e a soluçar que era uma cousa por maior! Inda me parece que a vejo ao pé das carvalheiras do adro da igreja, estendendo-me os braços de longe e gritando suffocada:

—Ah! rico filho, rico filho da minha alma!...

Que idade terá ella hoje? Ora, espera, eu tenho cincoenta e seis; ella, pelas minhas contas, vem a ter os seus setenta bem puxados... quem me dera vêl-a!

—Mas, seu Cerqueira, nada mais facil! Por que se não resolve? Em dezoito dias está lá...

—Sim, é verdade.

E ficava triste e meditabundo por instantes...