—Mas tenho medo de chegar e de não a encontrar. O unico motivo que me leva á Europa, é ella, a pobre velhinha... É o unico parente que tenho, que não sei se vocês sabem, que da nossa familia restamos tão sómente nós, ella e eu... a minha terra é aqui, para aqui vim creança, e aqui me fiz gente... Que vou eu fazer á Europa, não me dirão?
Isto dizia o sr. Cerqueira; mas o que se lhe passava no intimo era bem diverso. Tinha saudades, tinha-as e bem fundas da aldeia em que nascêra e da casa em que se creára.
Porque a sua vida fôra um luctar sem treguas, um batalhar decidido e um inferno, á sahida do qual elle contava, como o mythologico Orpheu, rever as appetecidas Eurydices—a mãe e a patria...
Escrevia á mãe de tres em tres mezes, e nunca deixava de lhe recommendar que conservasse tal e qual como estava a casita, e que não mexesse nunca no leito em que elle dormira nos annos proximos á partida para o Brazil.
«Porque desejo morrer n'elle», escrevia Cerqueira á mãe amantissima.
E ia-se deixando ficar.
Por duas vezes os socios estiveram em Portugal, mas o nosso Cerqueira não se decidia.
Ás vezes parecia tomado de uma forte resolução, e, ouvindo as descripções das viagens dos socios:
—Homem, parece-me que sempre me resolvo!